Amit Elkayam/The New York Times
Amit Elkayam/The New York Times

O encontro entre evangélicos americanos, colonos israelenses e uma cineasta cética

Um novo documentário ilumina o que a diretora chama de 'aliança profana' que alterou drasticamente o conflito israelense-palestino durante o governo Trump

David M. Halbfinger, The New York Times - Life/Style

19 de março de 2021 | 05h00

TEL AVIV, Israel – O abraço de urso entre o governo do ex-presidente Donald Trump e o do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu foi uma parceria nunca antes vista entre esses dois países. Por quatro anos, Israel foi a arena de política externa favorita de Washington e Jerusalém, sua melhor amiga. A nova abordagem ousada dos EUA para o Oriente Médio dominou o discurso de segurança nacional de Israel e sua política.

Muito menos compreendido era um dos principais pilares daquela relação: a complexa simbiose entre os cristãos evangélicos nos Estados Unidos e os colonos judeus religiosos na Cisjordânia. Em um novo documentário, Til Kingdom Come (Até que o reino venha), a cineasta israelense Maya Zinshtein investiga essa "aliança profana", como ela a chama, mostrando como os colonos recebem um enorme apoio político e arrecadam dinheiro dos evangélicos, que, argumenta ela, diretamente e indiretamente subsidiam a aquisição constante, pelos colonos, da Cisjordânia que os palestinos desejam para um futuro Estado. Em troca, os evangélicos estão mais perto de cumprir a profecia, à qual muitos aderem, de que a segunda vinda de Cristo não pode acontecer sem o retorno dos judeus da diáspora à Terra Santa.

Tal visão não termina bem para os judeus: eles devem aceitar Jesus ou serão massacrados e condenados ao inferno. Mas o filme mostra sionistas cristãos e israelenses de direita concordando em discordar sobre o Fim dos Dias enquanto cooperam e até exploram uns aos outros aqui e agora – e tornam o conflito entre Israel e os palestinos mais difícil de resolver.

Quando foi transmitido em Israel, desencadeou uma onda de culpa e de busca pela alma, em parte por revelar como famílias em uma comunidade empobrecida do Kentucky são persuadidas pelo pastor a doar dinheiro a uma instituição de caridade israelense, apesar da riqueza do país, com um setor de tecnologia que costuma criar bilionários.

O filme, no entanto, tem a mesma probabilidade de ensinar muito ao público cristão e ao judeu nos Estados Unidos sobre assuntos que podem ter pensado que já entendiam – incluindo como a política dos EUA realmente funciona.

Zinshtein, de 39 anos, israelense nascida na Rússia, definiu-se como uma imigrante clássica, com um ponto de vista de fora e uma ambição de deixar uma marca em sua pátria por adoção. Aqui estão trechos editados de uma entrevista realizada em sua casa em Tel Aviv e por telefone.

Você mergulhou nesse projeto a partir de meados de 2017, meses antes que o presidente Trump reconhecesse Jerusalém como a capital de Israel, a primeira grande demonstração do poder do relacionamento. O que a atraiu?

Quem mora em Israel já ouviu falar dos evangélicos, mas não ouve mais. As pessoas falam "desses cristãos que nos amam". Porém não entendem o que esse amor significa. É essa força sob a superfície, que tem uma agenda, e as pessoas simplesmente não entendem. Mas quero saber quem está influenciando minha vida.

O que você esperava testemunhar?

Ficou claro que as promessas foram feitas aos evangélicos durante a campanha de 2016. Mas ninguém esperava que as coisas acontecessem tão depressa. Eu me lembro de uma reunião com um líder evangélico que me disse: "Seja paciente, talvez no fim de 2019 ou no início de 2020 Trump reconhecerá Jerusalém como a capital." Ele fez isso três meses depois e mudou a embaixada depois de seis meses. Segundo meu plano, a embaixada deveria ser o terceiro ato! Fiquei apavorada: o que faço agora?

O que há de errado com a colaboração de concordar em discordar entre os evangélicos americanos e os colonos israelenses?

Temos nossa democracia, e os colonos são certa porcentagem do país. Mas eles têm uma influência muito maior do que sua parcela da população. E, quando você tem esse enorme poder político entrando na conversa, isso muda o equilíbrio.

Além disso, essas pessoas têm um conjunto de crenças muito específico que as impulsiona. No filme, por exemplo, nós as vemos celebrando a proibição de transgêneros no Exército americano. Há uma anuência em relação a toda a agenda. Não é possível concordar só com parte dela.

O filme dá muita atenção ao amor dos cristãos por Israel. Você aceita que é realmente uma forma de amor?

Quando se começa a questionar isso, os israelenses dizem: "Espere um minuto, Maya. Já não há pessoas suficientes que nos odeiam? Finalmente, alguém nos ama. Vamos simplesmente aceitar." Mas, quando alguém te ama apenas por ser judeu, sempre haverá alguém que vai te odiar apenas por ser judeu.

Alguém me disse: "Quando eles dizem que amam você, querem dizer que amam Jesus. Você é apenas parte da história. É a chave. E você sabe o que acontece com a chave depois que a porta é aberta, certo? Não se precisa mais dela."

Amor é realmente apenas outra palavra para apoio, não?

Mas ninguém perguntou: o que esse apoio realmente significa? Não é "apoio de Israel". É o apoio a uma agenda de direita que muitas pessoas daqui não aceitariam.

Os evangélicos são a única potência significativa fora de Israel que apoia abertamente os assentamentos dos colonos. Ninguém mais apoia. O perigo, no entanto, é que estão transformando isso em apoio a Israel. O pastor John Hagee, quando fundou a organização Cristãos Unidos por Israel, estava totalmente focado nos assentamentos. Hoje, ele não fala mais sobre os assentamentos. Apenas "Israel".

O filme mostra um colono religioso dizendo aos cristãos visitantes que eles têm apenas uma pequena participação em um filme no qual os judeus são os astros.

O mais incrível nessa relação é que cada lado pensa que o outro é estúpido. Cada lado está tentando enganar o outro.

O acesso que você conquistou foi extraordinário. Você não apenas conseguiu que uma igreja inteira do Kentucky e seus pastores se abrissem para você e para a equipe. Você conseguiu filmar dentro do poderoso Comitê de Estudo Republicano e em um evento de gala da Irmandade Internacional de Cristãos e Judeus, em Mar-a-Lago, na Flórida.

Foi alucinante. Vimos um monte de cristãos e judeus ricos sentados juntos. Vimos os cristãos dando testemunho de que, "antes de começar a doar a Israel, eu tinha uma pequena loja em Cleveland e hoje tenho uma enorme rede de lojas, só porque comecei a doar a Israel". Eles acham que isso os ajuda na vida.

É preciso seguir o dinheiro, mostrando uma idosa israelense que sobreviveu a um ataque terrorista e agora ganha comida e sapatos grátis. Se Israel é tão rico, por que precisa da ajuda de estrangeiros para dar comida e roupas a ela?

É constrangedor. Mas Israel investe muito nos assentamentos. O dinheiro cristão está atendendo às necessidades criadas pelos assentamentos. Talvez, em vez de, não sei, construir estradas nos assentamentos, precisemos cuidar de nossos pobres. Expõe uma questão muito maior de prioridades.

Entre os doadores, estão pessoas de um dos condados mais pobres dos Estados Unidos.

Chorei tanto. Com a temperatura congelante, você, bem agasalhado, vê crianças em uma casa sem janelas saindo sem sapatos. Crianças com mordidas de rato nas pernas. Alguns israelenses que viram o filme perguntaram se poderiam enviar dinheiro.

O que você quer que os telespectadores evangélicos absorvam do filme?

Que os israelenses não são apenas uma Bíblia; somos pessoas com um presente e um futuro próximo. Que israelenses e palestinos querem viver em paz. Só porque, segundo sua fé, Deus disse a Abraão que toda esta terra pertence ao povo judeu, eles não vão sofrer as consequências. Somos nós que sofreremos as consequências, na vida real, não apenas na vida depois da morte.

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