Warner Bros.
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Pessoas com deficiências e ativistas criticam representação feita nos filmes

Mãos desfiguradas de personagem de Anne Hathaway voltou a gerar debate sobre como as pessoas com deficiência são retratadas no cinema

Cara Buckley, The New York Times - Life/Style

28 de dezembro de 2020 | 05h00

Quando A convenção das bruxas, estrelado por Anne Hathaway no papel da Grande Bruxa, foi lançado, uma queixa coletiva espalhou-se entre as pessoas com deficiências.

O filme, baseado no livro infantil de Roald Dahl, retrata Hathaway com mãos que foram enrugadas e desfiguradas, com dois dedos e um polegar em cada uma delas. O estúdio disse que suas mãos deviam parecer garras de gato, mas se assemelhavam muito mais a mãos divididas as meio, caracterizando ectrodactilia.

As pessoas com deficiências, como os atletas paraolímpicos e uma semifinalista do Great British Baking Show, postaram fotos de suas mãos e braços na mídia social com o hashtag #NotAWitch.  Embora Anne Hathaway e a Warner Bros tenham se desculpado, muitos consideraram que o dano já estava feito. E, mais uma vez, tratava-se de uma vilã com uma deficiência, um dos maiores, e, para muitos, o clichê mais danoso que ainda circula por aí.

“Não se trata de uma sensibilidade exacerbada ou de ser politicamente correto”, escreveu no Instagram Briony May Williams, a concorrente do reality britânico. “Trata-se da catalogação das diferenças nas extremidades como feias, assustadoras, grosseiras e maléficas".

 

O Coringa. Lord Voldemort. Todos os tipos de vilões deformados de Bond e dos antagonistas dos super-heróis. A dra. Veneno. Freddy Krueger. O Fantasma da Ópera. Ricardo III de Shakespeare, corcunda e assassino.

Desde que existem palcos e telas, a deficiência física e pessoas desfiguradas foram usadas como a abreviatura da maldade - uma indicação para o público de que tal personagem era um vilão e como tal devia ser temido. Mas os defensores dos direitos da deficiência afirmam que isto denota não apenas um contador de histórias preguiçoso, mas a criação de estereótipos e então da marginalização de uma comunidade já estigmatizada, raramente representada na tela. O fato de A convenção das bruxas ser um filme para a família, na sua opinião, piora as coisas.

“É no jardim de infância que às vezes, as crianças se mostram mais cruéis, e que absorvem o que aprendem, seja por meio das histórias que contamos ou do que eles aprendem dos pais”, disse Penny Loker, defensora canadense da diferença visível, e escritora. “Elas têm carta branca para serem cruéis para com as pessoas. Eu fui chamada de monstro, e fui chamada com o nome do monstro do filme popular na época”.

As pessoas com deficiências físicas foram em parte bem-sucedidas em contestar o estereótipo. Em 2018, incentivado por uma campanha pela descrição cuidadosa das deficiências, o British Film Institute anunciou que não financiaria mais filmes cujos vilões tivessem rostos marcados por cicatrizes impressionantes ou desfigurados.

Os defensores têm consciência da crítica de que o mundo se tornou hiper vigilante, e que o contragolpe contra A convenção das bruxas é mais um exemplo do politicamente correto com que se ataca a expressão artística. Certamente, o que é considerado aceitável foi mudando ao longo do tempo. Não houve críticas contra a Grande Bruxa macabra de Anjelica Huston, na versão do filme de 1990, ou contra o personagem de Sloth dos anos 80, o monstro de Os Goonies (embora, alertam os que entregam o final da trama, ele acaba sendo um sujeito bonzinho).

Um em cada quatro adultos nos Estados Unidos tem uma deficiência física ou mental que limita consideravelmente as suas atividades; um estudo recente mostra que menos de 2% dos personagens com alguma fala em seus papéis nos filmes mais importantes, a partir de 2018, são deficientes. Embora grupos de defensores estejam trabalhando com os estúdios para mudar isto, os críticos afirmam que os personagens deficientes ainda são enquadrados em papéis previsíveis, entre eles o do vilão ou o da vítima que contribui para tornar todo mundo melhor, apelidada por alguns de “pornografia inspiradora”.

“As pessoas deficientes ou são vilãs ou felizes crianças angelicais,” disse Maysoon Zayid, comediante, escritora e atriz que sofre de paralisia cerebral. “Nós somos caridosos, inspiradores, nunca fazemos coisas más na vida. Ou crianças assassinas porque perdemos um olho em um acidente com um dardo”.

Segundo Zayid, há algumas circunstâncias limitadas nas quais ‘tudo bem’ um vilão ser deficiente ou desfigurado. Uma delas é quando um ator deficiente interpreta o papel, ela disse, desde que a deficiência não seja o que o torna mau. A outra é quando a pessoa má que está sendo retratada é uma pessoa que tem uma deficiência na vida real, e mesmo então, afirma, neste caso só deveria ser escolhido um ator deficiente.

Usar a deficiência ou o fato de a pessoa ser desfigurada para caracterizar o mal remonta a séculos passados na cultura ocidental, afirmou Angela Smith, diretora de estudos da deficiência física na Universidade de Utah. Tanto na tradição quanto na vida real, as diferenças físicas têm sido entendidas como advertências de perigo, símbolos do mal, ou evidências do pecado ou de bruxaria. O movimento em prol da eugenia inspirou-se nisto, avaliando os desvios das supostas normas, disse Smith, e a pressuposição de que a deficiência é algo negativo que precisa de conserto continua a fazer parte da moderna medicina.

É também um clichê antigo nos contos de fadas e nas histórias fantásticas e de horror. Os monstros são dotados de características - a maneira como falam, como se comportam, sua aparência ou como se movimentam - que devem parecer ameaçadoras ou grotescas, ela observou. E isto se perpetua na tela, onde as diferenças físicas frequentemente são reveladas de maneira dramática como a marca visual da maldade ou da imoralidade. Basta lembrar do rosto brutalmente queimado de Freddy Krueger no filme A hora do pesadelo. Tudo isto, segundo Smith, molda sutilmente as percepções a respeito de uma comunidade já marginalizada, quer A convenção das bruxas pretendesse pertencer a nesta categoria quer não.

“Filmes populares como este transmitem uma mensagem muito clara: os corpos com deficiências são errados ou maus, eles não pertencem à sociedade ou à visão pública ‘normal’, é ‘natural’ enojado pela diferença”, escreveu Smith em um e-mail.

A Warner alegou ignorância, afirmando que trabalhou com os artistas do filme para criar uma nova interpretação do que Dahl descreveu como “finas garras curvas, como as dos gatos”, jamais querendo que os espectadores se sentissem representados por “criaturas fantásticas, não humanas” na tela. Hathaway, em seu pedido de desculpas, disse que não associou as mãos do seu personagem a diferenças nos membros, e, se tivesse, a descrição não teria acontecido absolutamente.

 

Os defensores dos direitos dos deficientes disseram que toda a questão poderia ter sido evitada se mais pessoas deficientes estivessem na indústria do entretenimento, seja na frente de uma câmera seja nos bastidores.

“Se houvesse roteiristas, diretores ou outros membros da equipe com deficiências, eles poderiam ter visto isto e dito: ‘Hum, isto poderá se tornar um problema”, disse Lauren Appelbaum, vice-presidente de comunicações da RespectAbility, uma ONG que combate a estigmatização das pessoas com deficiências.

Há um espaço de manobra e menos potencial para ofender, quando os vilões são claramente figuras fantásticas, invenções irreais da imaginação, como o Monstro das Sombras no seriado Stranger Thing.

No entanto, segundo muitos, permanece muito claramente a questão de que os vilões humanos ou humanizados precisam ter significantes visuais para conotar o mal. Muitos dos personagens mais apavorantes dos filmes de horror foram pessoas saudáveis. Como Samara, a incansável garota morta de longa cabeleira em O Chamado, ou o escritor possuído de Jack Nicholson em O Iluminado. Ou - estremeçam - Javier Bardem em Onde os fracos não têm vez, com sua palidez pastosa, arrepiante e o cabelo de Dorothy Hamill. Mas mesmo tais descrições percorrem uma linha fina, ameaçando cair na desgastada acusação da doença mental, à la Norman Bates, em Psicose.

“A monstruosidade é algo que está em todos nós”, disse Smith, “e não algo que está lá fora, em um formato corporal diferente do nosso”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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