Lucka Ngô/he New York Times
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Rita Moreno - pioneira, ativista e radical - é tema de documentário

Atriz fala sobre ser o foco de uma nova produção e passar mais de oito décadas sob os holofotes

Melena Ryzik, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2021 | 05h00

Rita Moreno tinha apenas seis anos quando fez sua estreia profissional, em dueto com seu instrutor de dança espanhola, em um palco no Greenwich Village, em Nova York. "Ainda me lembro de cada detalhe. Dançamos uma 'jota' - dança típica - e tocamos castanholas. Minha mãe me deixou passar batom. Fiquei tão emocionada", disse Moreno, que usou um vestido tradicional com babados resplandecentes. Era 1937.

Nas oito décadas seguintes, Moreno, que fará 90 anos em dezembro, encontrou seu caminho até os holofotes. Ela continua a dançar, como podemos ver nos momentos de abertura do novo documentário Rita Moreno: Just a Girl Who Decided to Go for It, que a mostra dançando de salto alto em sua festa de aniversário com tema cubano.

Ela também organizou a festa. "Rapaz, detesto fazer isso. Está na cara que não sou uma estrela de verdade, porque qualquer pessoa poderia fazer isso", afirma ela no filme. "É por isso que você nunca deve realmente acreditar na sua fama. Ela vem e vai."

Moreno, que é porto-riquenha de nascimento e hollywoodiana por determinação férrea, ocupa um lugar singular no firmamento cultural. A alegria e a sorte não passam despercebidas para ela. E não faltam prêmios para ela, que conquistou o status de Egot - sigla para alguém que venceu os quatro principais prêmios das artes nos EUA: Emmy, Grammy, Oscar e Tony - em 1977, e foi a primeira atriz latina a ganhar um Oscar por seu papel inesquecível como Anita em Amor, Sublime Amor. Os troféus não param de se acumular; se houvesse um Egot para premiações pelo conjunto da obra, ela também o teria ganhado.

 

Esses prêmios se devem, em grande parte, ao talento triplo de Moreno. O que tem sido menos aclamado é seu profundo pioneirismo - como pessoa de cor, como mãe (e agora avó) e como ativista e personalidade irreprimível (e às vezes inflamada).

"Ela é obviamente um ícone por todas as razões dignas de nota - mas também é alguém que faz os outros se mexerem", observou a deputada Jackie Speier, da Califórnia, sua amiga há duas décadas.

Seu status heterodoxo só cresce conforme a carreira de Moreno avança - atualmente, ela participa do remake de Amor, Sublime Amor dirigido por Steven Spielberg, do qual também é produtora executiva. Existem poucos compatriotas cuja longevidade se estende desde antes da era do estúdio (Louis B. Mayer assinou seu primeiro contrato, chamando-a de "Elizabeth Taylor espanhola") até a era dos remakes, dos memes e além.

 

Para Mariem Pérez Riera, a cineasta porto-riquenha que dirigiu o documentário, Moreno foi fundamental: "Sei da existência de Rita desde que comecei a ver filmes."

Nas telas e fora delas, Moreno é a primeira a admitir que adora atenção. E ela lida com isso habilmente, com um suprimento bem preparado de histórias do showbiz e piadas picantes, mesmo que às vezes se esqueça de alguma palavra ("na minha idade, eu e os substantivos nos tornamos inimigos mortais" - essa é uma de suas sacadas).

"Ela é mesmo uma artista nata. Nem precisa tentar, simplesmente acontece - é isso que a nutre, é disso que ela precisa. Alimenta sua alma, lhe dá energia", disse sua filha, Fernanda Gordon Fisher.

Mesmo assim, quase um ano foi necessário para persuadir Moreno a fazer o documentário. "Eu não sabia se queria confiar minha história de vida a alguém. Porque, se eu fosse fazer isso, estava preparada para ser totalmente sincera", explicou.

Ela concordou em ser filmada sem maquiagem - e, ainda mais relutantemente, sem peruca. Deu à equipe do documentário uma chave de sua casa em Berkeley, na Califórnia, para que estivesse lá quando ela acordasse e a acompanhasse enquanto se dirigia ao estúdio para One Day at a Time, o sitcom em que ela estrelou como a avó cubana que rouba a cena.

Moreno também se aprofundou em tópicos dolorosos, alguns dos quais narrou em seu livro de memórias, publicado em 2013, como seu longo e tumultuoso caso de amor com Marlon Brando, que incluiu um aborto complicado e culminou em sua tentativa de suicídio em 1961 - evento transformador para ela.

Sua história é moldada pelo pouco poder que tinha naquela época, especialmente como mulher de pele morena considerada símbolo sexual, relegada a papéis que ela chama de "donzelas escuras", de várias etnias, mas unidas em sua unidimensionalidade. "Eu queria ser estrela de cinema, mas nunca imaginei que seria tão difícil e doloroso. Nunca. Nunca."

Ela contou que, no início de sua vida em Hollywood, foi estuprada por seu agente. Continuou a trabalhar com ele no filme "porque era o único que estava me ajudando no que eu poderia chamar de carreira. Isso é que é surpreendente para mim: como eu me dava pouco valor". Disse que aprendeu a se valorizar depois de muito tempo e de muita terapia.

Quando era criança, sua mãe, Rosa, costureira de talento, fazia todas as suas roupas e, mais tarde, seus figurinos de dança. Elas eram uma dupla inseparável, mas complicada: as duas vieram de Juncos, em Porto Rico, para Nova York, quando Rita - então conhecida como Rosita Alverío - tinha cinco anos, abandonando o pai da menina e o irmão mais novo que ela amava, Francisco. Moreno nunca mais o viu: sua primeira decepção. E nunca teve coragem de perguntar à mãe por que deixou Francisco para trás. "Por mais forte que ela fosse, eu tinha a sensação de que esse era seu calcanhar de aquiles e de que ela não suportaria falar disso", afirmou Moreno. (Já adulta, ela contratou investigadores para encontrá-lo, sem sucesso.)

Desembarcando em Nova York no início da onda de migração porto-riquenha, Moreno, que não falava inglês, foi batizada pelo preconceito que a acompanhou ao longo da vida. Até Anita, que ela chama de modelo, foi pintada - literalmente - com a cor errada, usando maquiagem da cor de "lama", disse Moreno, ao lado de outros personagens porto-riquenhos em Amor, Sublime Amor. Quando ela protestou contra a uniformidade, a maquiadora deu a entender que Rita era racista, contou ela.

Ela disse que ainda recebia ofertas para papéis estereotipados quando tinha 60 e tantos anos e que, mesmo em tempos recentes, em uma ocasião profissional de alto nível que ela não quis revelar, tinha sofrido discriminação: "Foi uma situação em que fui diminuída, e eles nem fizeram isso de maneira consciente. Isso tornou a situação ainda pior. Literalmente, fui para casa e chorei por três dias. Existem cicatrizes que fecham perfeitamente, mas outras deixam a pele muito sensível."

Recentemente, a própria Moreno foi punida por ter vindo em defesa de seu amigo Lin-Manuel Miranda, em meio a críticas de que seu filme Em um Bairro de Nova York sofria de colorismo. "Só estou dizendo: 'Será que não dá para esperar um pouco e deixar isso para lá?'", disse durante uma entrevista no The Late Show com Stephen Colbert. Um dia depois, voltou atrás em seus comentários.

"Fiquei muito emocionada - fiquei muito chateada porque meu amigo estava sendo caluniado. Não percebi que, enquanto o defendia, estava ignorando uma questão muito importante, e isso não foi de todo deliberado", comentou, acrescentando que foi algo "insensível" de sua parte. (Miranda também participa do documentário e é um dos produtores.)

Moreno, que namorou Elvis apenas para deixar Brando com ciúmes (funcionou), é impetuosamente sexual. "Eu coro metade do tempo quando estou com ela", disse Speier, descrevendo uma arrecadação de fundos em que Moreno, então com cerca de 75 anos, se apresentou. "Ela deslizava pelo piano como se estivesse fazendo amor com ele."

Perguntada se era solteira, Moreno disse: "Pode apostar que sim!" Chegou à conclusão de que é independente demais para ficar presa a alguém - e talvez ainda seja muito ambiciosa para isso (ela está filmando uma comédia independente agora, na qual contracena com adolescentes). "Adoro estar sozinha. Não é difícil ficar só. Na verdade, é ótimo, se você gosta da pessoa com quem vive."

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