Tania Franco Klein/The New York Times
Tania Franco Klein/The New York Times

Camille Cottin, de 'Call My Agent!', pronta para a carreira em Hollywood

Atriz estourou nos Estados Unidos após sucesso da série francesa, muito vista durante o primeiro ano de pandemia na Netflix

Nicole Sperling, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2021 | 05h00

Em algum momento da pandemia, talvez entre a estreia de Ted Lasso em agosto do ano passado e Bridgerton em dezembro, você pode ter assistido à série francesa da Netflix Call My Agent! (Dix Pour Cent, em francês), abordagem doce, porém absurda, do complexo mundo do entretenimento global através das lentes de uma agência de talentos parisiense, onde os empresários são, em sua maioria, amantes de cinema bem-intencionados sempre à disposição de seus exigentes clientes.

Nesse caso, você foi um dos milhões que descobriram Camille Cottin, a atriz francesa que interpretou Andrea Martel, a empresária trabalhadora, durona e incansável, de olhos verdes penetrantes, que tenta manter sua agência viva enquanto sua vida pessoal desmorona.

A série foi uma das poucas alegrias da pandemia, que levou os espectadores a experimentar um conteúdo internacional adicional como Lupin e La Casa de Papel, superando "a barreira da legenda de dois centímetros e meio de altura" que o diretor de Parasita, Bong Joon Ho, mencionou durante seu discurso no Globo de Ouro de 2020. O sucesso de Call My Agent! gerou spin-offs no Reino Unido, em Quebec e na Turquia. E agora se fala de um longa-metragem em que Andrea Martel vai a Nova York.

Mas Cottin, de 42 anos, que já fez teatro e esquetes cômicos, não pôde presenciar o fenômeno que Call My Agent! se tornou nos Estados Unidos ao ficar presa em Paris com o marido e dois filhos pequenos. Acontece que ela estava tão triste quanto o resto de nós. "Fiquei muito preocupada com a pandemia e um pouco paralisada. Eu queria ser criativa, mas não consegui. Além disso, tive a sensação de que nunca mais voltaria a trabalhar. Fiquei assustada", disse Cottin, em inglês, durante uma recente videochamada, acrescentando, com uma risada sombria: "Agora você me diz que durante a pandemia todo mundo assistiu a Call My Agent!. Eu estava a quilômetros de distância, imaginando que tinha sido enterrada viva."

Cottin estava concedendo essa entrevista em um carro a caminho de casa depois de uma prova de figurino para o Festival de Cinema de Cannes. (Sem fãs de Call My Agent!, a prova não envolveu um vestido de penas espalhafatoso como o que Juliette Binoche vestiu de forma desajeitada no fim da segunda temporada.) O novo filme de Cottin, Stillwater, no qual ela interpreta Virginie, atriz batalhadora e a mãe solteira que guia o pai arrependido de Matt Damon por uma jornada ruim em Marselha, acaba de estrear com críticas positivas. Manohla Dargis a chamou de "elétrica" no The New York Times. A Vanity Fair classificou seu desempenho como "brilhante e cativante".

Mas esse momento no carro foi muito menos glamoroso. Sua filha de seis anos estava dormindo profundamente, com a cabeça no colo da mãe. E, quando o carro parou, pude ver uma Cottin multitarefa em ação, pegando a sonolenta filha, uma bola de tecido rosa em um braço, a videochamada ainda ligada no outro, e o céu parisiense brilhante ao fundo. Ela parou por um instante para colocar a filha na cama antes de continuar a conversa no chão do banheiro, compromisso que havia estabelecido com a menina, que lhe pedira que não se afastasse muito.

Depois de uma pequena participação em 2016 no filme Aliados, estrelado por Brad Pitt, Stillwater representa a maior introdução de Cottin até o momento ao público americano. Pode ser o papel que fará com que passe oficialmente de obscura atriz francesa a sensação global. Ainda este ano, vai estrelar, ao lado de Lady Gaga e Adam Driver, House of Gucci, de Ridley Scott, no papel de Paola Franchi, namorada de Maurizio Gucci (Driver). E está pronta para repetir seu papel como Hélène, membro do alto escalão da organização de assassinos Twelve, na série da BBC Killing Eve – Dupla Obsessão.

A comunidade internacional despertou para os encantos de Cottin muito antes que todos nós, nos Estados Unidos, ficássemos presos em casa. Quando Call My Agent! apareceu na televisão britânica, Cottin descobriu que a série havia conquistado audiência em todo o Canal da Mancha. Era 2019, e ela estava participando de um festival de diretores de elenco em Kilkenny, na Irlanda, com seu empresário francês. De repente, era o centro das atenções. "As pessoas perguntavam: 'Oi, posso tirar uma selfie com você?' E eu respondia: 'O quê? Você é o diretor de elenco de James Bond'", contou a atriz, rindo. Essa e outra viagem a Londres fizeram com que fosse chamada para atuar em Gucci e renderam uma reunião com o produtor de Killing Eve.

No entanto, Call My Agent! não teve nenhuma influência sobre a decisão do diretor de Stillwater, Tom McCarthy, de escalar Cottin. Ele ainda não havia visto a série quando a encontrou pela primeira vez. Em vez disso, ele a contratou com base em um teste que, segundo ele, o surpreendeu e aos coescritores, Thomas Bidegain e Noé Debré: "Você meio que não consegue tirar os olhos dela quando ela está na tela. Fica um pouco dispersa, um pouco confusa. É engraçada, autodepreciativa, empática. Durona. Direta. Sinto que, depois de tê-la observado por um ano e meio na sala de edição, cada momento com ela é muito bem vivido."

Para Cottin, Virginie, que é aberta, carinhosa e está sempre procurando algo para consertar (como o rústico homem de Oklahoma interpretado por Damon), é quase uma cópia de si mesma. "Virginie é a personagem mais parecida comigo que tive de interpretar. Temos a mesma energia. Até agora, eu só tinha sido escalada para representar mulheres com muito mais tensão e um pouco mais de controle", disse a atriz, embora seja um dos poucos papéis que interpretou em inglês.

Cottin tem uma facilidade desarmante que é evidente na introdução inicial e desmente o verniz gelado de sua personagem em Call My Agent!. Ela não se leva muito a sério – McCarthy a chama de "pateta" –, e você percebe rapidamente seu enorme potencial para a comédia. É uma habilidade que exibiu em seu papel francês mais conhecido, interpretando a protagonista no programa de televisão Connasse, que significa "vadia" em sua língua nativa. Suas façanhas incluíram escalar o Palácio de Kensington para se apresentar ao príncipe Harry. Um produtor de Call My Agent!, Dominique Besnehard, descreveu Cottin como "a bonita, mordaz e ousada" que, no papel de Andrea, "é muito boa em ir da dureza à fragilidade".

Para Cottin, essa é uma personagem que ela admira e compreende, mas ainda está longe de sua personalidade. "Tenho muito menos segurança do que a Andrea. Ela é mais autoconfiante e estratégica, e sabe tomar decisões. Se eu tiver de fazer uma escolha, vai demorar muito, sempre. E vou pedir a opinião de todos."

Cottin decididamente não tem dúvidas em relação à sua carreira, mas, por ser uma atriz na casa dos 40 anos, está mais ciente de que os pontos altos que está experimentando hoje podem não ser os mesmos que ela vai ver no futuro. "Talvez se eu tivesse 20 anos, pensasse: 'Meu Deus, quem sabe eu ganhe um Oscar'", disse ela, rindo, com um sotaque americano zombeteiro. "Nunca é vertical. Você pode dar um passo e achar que está subindo e, de repente, descer. Nada é uma linha reta. Vejo esses projetos como viagens, ótimas viagens. Não posso dizer: 'Agora que fiz isso, sei o que vem em seguida', porque não sei. E isso não significa que vai acontecer de novo."

Besnehard sugeriu que ela poderia ter uma carreira como a de Binoche, interpretando papéis na França e nos Estados Unidos, acrescentando: "Espero que os americanos não a monopolizem." McCarthy vê uma trajetória muito mais clara. "Prevejo grandes coisas para Cami, e não só por causa do nosso filme, em que acho que ela está sensacional; é a hora dela. Você consegue sentir isso quando alguém merece um grande momento na carreira, se dedica ao trabalho e está pronta para assumir o controle."

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