Ore Huiying para The New York Times
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Cingapura avalia destino de seus edifícios brutalistas

Possível venda de prédios a setor privado gera briga sobre arquitetura brutalista local

Mike Ives, The New York Times

16 de fevereiro de 2019 | 06h00

CINGAPURA - Numa noite de sexta feira, Zara Tan e duas amigas saíram para beber num bar externo da Golden Mile Tower, edifício dos anos 1970 com vista para o distrito financeiro de Cingapura. Zara, 24 anos, disse que o clima no bar, chamado Great Escape, era mais sóbrio do que o habitualmente encontrado nas badaladas casas noturnas do centro de Cingapura. “Seria monótono se todos os lugares fossem iguais", disse ela. “É por isso que esse bar é tão valorizado por pessoas como nós.”

Marcos da chamada arquitetura brutalista, como a Golden Mile Tower, são descobertos como paraísos para as subculturas mais artísticas e sujas ausentes em Cingapura, um centro bancário conhecido pela frequentemente excessiva presença do seu governo. Outros enxergam neles os marcos da identidade nacional, pois foram projetados por uma geração de arquitetos locais após a fundação da cidade-estado em 1965.

Eles representam as primeiras “aspirações e esperanças” de Cingapura, disse Darren Soh, fotógrafo de arquitetura. Mas alguns marcos brutalistas estão prestes a serem vendidos para desenvolvedores, levando os entusiastas a uma tentativa de protegê-los. Isso deu início a um debate envolvendo o tipo de arquitetura que merece ser salvo.

O brutalismo é a tendência dos edifícios modernistas de grande simplicidade e formas cruas, cuja principal característica é o concreto inacabado. Ho Weng Hin, sócio da consultoria local de arquitetura Studio Lapis, disse que a abordagem de Cingapura para esse estilo evoluiu para refletir as sensibilidades locais e o clima tropical.

O brutalismo perdeu espaço mundialmente mais ou menos nos anos 1980, mas, recentemente, isso vem mudando no Ocidente. Um grupo de arquitetos de Boston propôs que o estilo fosse rebatizado como “heróico". Os defensores desse estilo em Cingapura torcem para que a mesma tendência decole no país. Mas há obstáculos a enfrentar.

A paisagem urbana de Cingapura é dominada por torres de vidro e aço. A cidade-estado também é conhecida pela meticulosa restauração de suas casas de comércio, bem como edifícios contemporâneos sustentáveis. O público em geral considera os edifícios brutalistas uma presença indesejável. Frequentemente, são prédios cujas instalações comuns são de propriedade coletiva. E, como muitos proprietários acreditam que vender suas unidades seria uma aposta mais vantajosa do que investir em reparos, boa parte dessas instalações se encontra em mau estado.

Um exemplo dessa dinâmica é o Golden Mile Complex, de terraços dramáticos, na mesma rua que o Golden Mile Tower, e cuja venda começou em novembro a um preço mínimo de 800 milhões de dólares cingapurianos, o equivalente a aproximadamente 587 milhões de dólares. Eileen Chua, 40 anos, cuja família, dona de uma loja de conveniência no térreo, vive aqui há gerações, disse que o edifício de 16 andares tinha se tornado “um cortiço".

Mas os defensores da arquitetura estão pedindo ao governo que destine alguns dos edifícios brutalistas à preservação. Os críticos da Agência de Reforma Urbana destacam que 100% dos proprietários precisam aprovar um plano de preservação, enquanto a aprovação de apenas 80% deles é necessária para uma venda coletiva, o que torna improvável a conservação.

O destino do Golden Mile Complex é visto como indicativo de qual será o destino dos marcos da arquitetura brutalista na cidade. A Agência de Reforma Urbana disse recentemente ter recebido uma proposta para preservar o edifício em vez de demoli-lo, acrescentando uma nova construção ao lado da original.

A decisão de vender teve o apoio de mais de 80% dos proprietários. Entre eles estava Eileen, que disse esperar pelo menos dois milhões de dólares cingapurianos, ou quase 1,5 milhão de dólares, em troca da loja de sua família. Ela disse que os elementos de design incomuns do prédio não eram suficientes para fazê-la mudar de opinião. “É tudo uma questão de cifras".

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