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Nasuna Stuart-Ulin/The New York Times
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A volta do Cirque du Soleil poderá ser sua acrobacia mais difícil

Depois de fechar dezenas de shows e perder a maior parte dos seus funcionários, o famoso circo canadense enfrenta uma luta terrível para conseguir voltar

Dan Bilefsky, The New York Times – Life/Style

22 de maio de 2021 | 05h00

MONTREAL – O confinamento representou um desafio peculiar para o trapezista de Québéc, Guillaume Paquin. Ensaiar movimentos que são a sua assinatura, como subir por uma corda de 6,5 metros de altura e depois despencar-se girando em parafuso como um propulsor de helicóptero, fica um pouco complicado em sua pequena sala de visitas.

Agora, porém, o ex-acrobata do Cirque do Soleil poderá em breve trocar o apartamento de Montreal pela tão aguardada tenda: o famoso circo está retornando aos palcos depois de ser obrigado pela pandemia a fechar 44 shows, de Melbourne, na Austrália, a Hangzhou na China.

 Como a vacinação está acelerando em todo o mundo, o Circo anunciou no fim do mês passado que seus dois mais antigos shows de Las Vegas, O e Mystère, voltarão neste verão [do hemisfério norte]. Luzia, um espetáculo que agrada particularmente ao público, com os acrobatas saltando entre dois enormes balanços, se apresentará no Royal Albert Hall em Londres em janeiro. Além disso, estão em curso conversações para a reabertura na China, Japão, Coreia do Sul e Espanha.

Em uma época em que a pandemia ainda está fazendo vítimas, e permanece a incerteza quanto à disposição das pessoas de retornarem aos grandes teatros, a volta constitui uma espécie de teste do gigantesco show para o setor do entretenimento ao vivo.

Será que o circo combalido de Montreal, que já lutava com o esgotamento da criação antes da pandemia, conseguirá ressurgir?

“Faz mais de um ano que todos nós estamos parados em casa”, disse Paquin, 26, que era o astro do show como o humanoide extraterrestre Entu em Toruk, o elaborado espetáculo montado pelo Cirque e inspirado no filme Avatar de James Cameron. Ele não faz parte dos espetáculos de Las Vegas que começarão em breve, mas está ansioso para voltar ao palco.

“O público está faminto de entretenimento ao vivo“, afirmou.

A reabertura do Cirque do Soleil se dá no momento em que as artes globais do espetáculo estão cautelosamente reemergindo.

Em Nova York, o ator Nathan Lane e o bailarino Savion Glover se apresentaram recentemente rapidamente, um de cada vez, diante de um público mascarado de 150 pessoas, pressagiando o que os produtores teatrais esperam que venha a ser a retomada dos espetáculos da Broadway.

Em uma tentativa de saber como seria um futuro vacinado, os israelenses que tomaram duas doses poderão receber um “passe verde” que permite o acesso a eventos culturais e esportivos em espaços internos e externos.

Este mês, Roterdão, na Holanda, planeja hospedar o Festival Eurovision da Canção diante de um público limitado ao vivo.

Mas antes que os espetáculos do Cirque possam recomeçar, a direção deverá reunir uma companhia que quase se dissolveu no início da pandemia.

Durante o hiato de 400 dias, as receitas do Cirque caíram a zero, quase 4.700 pessoas foram demitidas, ou 95% de sua força de trabalho, deixando muitos dos melhores trapezistas e acrobatas do mundo confinados em suas casas, impossibilitados de treinar.

Paquin falou que a longa pausa minou a sua confiança, por não poder ensaiar as suas rotinas no trapézio. Quando recentemente recomeçou a treinar, descobriu que perdeu sua “memória muscular” e sentiu medo de estar no ar. “Para mim foi realmente doloroso voltar”, afirmou.

Mystère e O – programados para o dia 8 de junho e 1º de julho, respectivamente – deverão se apresentar em teatros lotados de 1.806 e 1.616 lugares sem distanciamento social e aos preços dos ingressos anteriores à pandemia, informou o CEO do Cirque du Soleil Daniel Lamarre. Os funcionários serão testados regularmente, e a vacinação, embora voluntária, será insistentemente encorajada. O objetivo é realizar os outros três shows de Las Vegas até o final do ano.

Pelas novas regras do Condado de Clark, onde se localiza a cidade de Las Vegas, os shows podem ocorrer sem distanciamento social quando 60% da população elegível do estado recebeu pelo menos uma dose da vacina contra a covid-19. Haverá obrigatoriedade das máscaras. Em 6 de maio, o estado de Nevada informou que cerca de 47% da população recebeu pelo menos uma dose.

Gabriel Dubé-Dupuis, um ex-diretor de criação do Cirque, alertou que a companhia poderá enfrentar um problema sério por lá, porque é mais provável que os fãs mais jovens, para os quais o Cirque precisava continuar relevante, sejam atraídos para os clubes noturnos e festas de piscina nos hotéis.

Mas Lamarre estava otimista porque o público, entusiasmado com a vacinação, deverá retornar aos espetáculos com mais fervor do que antes. “Confiamos no fato de que as pessoas, fechadas por tanto tempo, estão desesperadas por entretenimento,” afirmou. Mas acrescentou: “Será que sou um sonhador inveterado?”

O Cirque terá de encarar o problema dos artistas fora de forma, muitos dos quais foram obrigados a buscar outras maneiras para sobreviver.

Paquin, o trapezista, apareceu pela última vez no Cirque em dezembro de 2019 como um floco de neve de lantejoulas em 'Twas the Night Before..., seu espetáculo de férias informal no Madison Square Garden de Nova York.

Desde que tiveram de permanecer no solo, ele e um grupo de artistas de Montreal formaram um coletivo de circo que se apresentará neste verão em espaços ao ar livre como os campos. Para se manter em forma durante o fechamento, os membros do grupo fazem paradas de mão, espacates e alongamentos em seus apartamentos. No entanto, segundo Paquin, levará meses para os artistas do Cirque voltarem a estar prontos para o show.

Para Uranbileg Angarag, uma contorcionista mongol, que ensaia seus movimentos favoritos em casa – como ficar com as pernas  em 180 graus na frente de sua cabeça enquanto ela balança uma bengala na boca. O teto do seu apartamento em Ulaanbaatar, a capital da Mongólia, atrapalha. Ela suplementa a sua renda oferecendo aulas de ioga on-line.

Um ex-artista do Cirque, Olivier Sylvestre, está trabalhando como barman em um café de Montreal, enquanto Arthur Morel Van Hyfte, 26, um trapezista francês, usou o seu tempo livre para estudar teatro.

Morel Van Hyfte disse que os riscos de uma pandemia para a saúde aumentarão o estresse de uma profissão já com exigências de super-homem.

“Espero que a pandemia contribua para o Cirque du Soleil recuperar a sua poesia e a sua alma”, afirmou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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