Shawn Johnson/The New York Times
Shawn Johnson/The New York Times

Nova cirurgia do cérebro procura reverter epilepsia em leão marinho

Cronutt, como um número crescente de mamíferos marinhos, tem convulsões por causa das toxinas na água

Matt Richtel, The New York Times - Life/Style

17 de outubro de 2020 | 05h00

VALLEJO, Califórnia – O paciente adolescente ficou quieto e retraído. Não comia há 13 dias. O tratamento com esteróides, fenobarbital e Diazepam não surtiu efeito. Cronutt, um leão marinho de sete anos de idade tinha de ser salvo. Seu veterinário e os cuidadores do Six Flags Discovery Kingdom começaram a discutir se havia chegado a hora de um tratamento paliativo. “Tentamos tudo”, disse Claire Smieone, veterinária de Cronutt.

“Era necessário adotar medidas extremas”, disse ela. Na manhã de terça-feira, Cronutt foi submetido a uma cirurgia do cérebro para reverter a epilepsia. Se bem sucedido, o tratamento pode salvar números cada maiores de leões marinhos e outros animais do mar que sucumbem a uma nova praga de epilepsia, cuja causa é a mudança climática.

Os oceanos aquecem, as algas se espalham mais, criando toxinas que são ingeridas pelas sardinhas e anchovas, que, por seu lado, são alimento dos leões marinhos, causando danos no cérebro que levam à epilepsia. E outros animais marinhos também estão em risco ao consumirem crustáceos repletos de toxinas.

Os animais que são resgatados em terra têm recebido tratamento, mas com frequência morrem. Cronutt pode mudar isto. “Se a cirurgia for bem sucedida, vai ser excelente”, disse Mariana Casalia, neurocientista da universidade da Califórnia em San Francisco que contribuiu para o desenvolvimento de técnicas que levaram ao procedimento levado a cabo no centro cirúrgico veterinário em Redwood City, Califórnia.

A cirurgia foi realizada por três neurocirurgiões da universidade, que normalmente operam humanos. Durante a operação eles fizeram um furo no crânio de Cronutt e injetaram uma agulha ultrafina no hipocampo do cérebro e depois implantaram células cerebrais embrionárias extraídas de um porquinho de 35 dias.

Estas chamadas “células inibidoras” comprimiram a atividade elétrica no cérebro que provoca as convulsões, um processo identificado por Scott Baraban, professor de neurocirurgia que dirige o laboratório onde Casalia trabalha. Durante uma década, a técnica provou ser eficaz na cura de epilepsia em ratos.

Cronutt, o primeiro grande mamífero a ser submetido ao tratamento, saiu da cirurgia e anestesia ao meio-dia e estava respirando sem ajuda de aparelhos, um primeiro passo. Dentro de semanas, se saberá se a cirurgia reverteu a epilepsia. Os pesquisadores descobriram pela primeira vez a doença no animal depois de ele ficar encalhado na praia em novembro de 2017 em San Luis Obispo, na Califórnia e se arrastar até um estacionamento, quando foi considerado um risco para o tráfego.

Cronutt não parecia enfermo. Ele foi rotulado para referência futura e libertado algumas semanas depois. Logo após, um pouco mais ao norte, em Marin County, ele foi identificado numa praia onde passou por várias residências e subiu em varandas e mesas. Desta vez, retornou sozinho à água. Então, uma semana mais tarde, foi encontrado, desorientado, em Ocean Beach, São Francisco.

“Uma pessoa tentou alimentá-lo com um burrito”, segundo uma cronologia feita por escrito por Dianne Cameron, diretora da divisão de cuidados com os animais no Six Flags Discovery Kingdom. No final, Cameron se tornou cuidadora de Cronutt depois que ele apareceu novamente numa praia em janeiro de 2018, em Sonoma County.

Ele estava na frente de um banheiro público na praia, bloqueando o acesso. Logo depois, no Marine Mammal Center, em Sausalito, foi qualificado como animal não passível de liberação porque não estava comendo e havia aparecido muitas vezes em terra. E então ele teve fortes convulsões epilépticas. Os pesquisadores não conseguiam encontrar um espaço em zoológico para o animal.

O National Marine Fisheries Service contatou Cameron perguntando se ela o acolheria porque o Six Flags tem recursos para cuidar de animais resgatados e já adotou alguns com problemas médicos. Ela não hesitou. “Ele é muito doce”, disse ela. No Six Flags, ele não agia como os demais mamíferos marinhos que estavam ali, como Pirata, uma foca, ou Wyland e Shark Bite, dois outros leões marinhos.

Cronutt continuou tendo convulsões e com mais frequência, não se alimentava e tinha um comportamento particularmente desatento que os veterinários atribuíram aos danos no seu cérebro. Ele emagreceu, passando de 115 quilos para 79. Depois do seu mais recente ataque, em 18 de setembro, Cameron “foi para casa e rezou para ele conseguir sobreviver naquela noite”. Nos dias seguintes, ela e Simeone começaram a discutir se seria o caso de uma eutanásia.

O marido de Dianne, Shawn Johnson, que é também veterinário, estava se referindo a Barabam o pesquisador da UCSF. Seu laboratório havia mantido contato com o casal e o Marine Mammal Center porque sabiam do problema com os leões marinhos e achavam que estavam prontos para mudar a cadeia alimentar com seus experimentos.

“Mesmo se não funcionar, e há uma possibilidade de não dar certo, talvez o objetivo de Cronutt seja ensinar que existem toxinas na nossa água e no nosso oceano que precisam da nossa atenção”. Na quarta-feira de manhã, um dia depois da cirurgia, Cronutt ainda parecia não ter nenhum apetite. Depois, começou a urrar. Cameron lhe ofereceu comida e ele devorou quase um quilo de arenques durante a manhã.

“Ele comeu e ficou me seguindo, super engajado, realmente alerta. Acho que se sentia realmente bem, considerando que ontem mesmo ele tinha uma perfuração no seu cérebro”, disse Cameron. “Seus olhos eram lindos”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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