Yara Nardi/ Reuters
Yara Nardi/ Reuters

As cirurgias robóticas são realmente melhores?

Uma ampla análise descobriu que cirurgias auxiliadas por robôs têm apenas modestas vantagens sobre outras abordagens

Nicholas Bakalar, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2021 | 05h00

Procedimentos cirúrgicos realizados com a ajuda de um robô são, algumas vezes, vendidos como a “melhor” forma de cirurgia. Mas uma análise recente de 50 estudos randomizados controlados, testando cirurgias auxiliadas por robôs contra métodos convencionais referentes a procedimentos pélvicos ou abdominais, sugere que embora existam alguns benefícios com a cirurgia robótica, quaisquer vantagens sobre outras abordagens são modestas.

Cirurgias robóticas são realizadas por cirurgiões, não robôs. Mas ao invés dos instrumentos manuais convencionais utilizados em uma laparoscopia, que envolve incisões minúsculas, e cirurgias abertas, nas quais o cirurgião entra no corpo através de grandes incisões, o médico utiliza uma máquina. O cirurgião controla as ferramentas da máquina remotamente utilizando joysticks e pedais enquanto observa o local da cirurgia através de um monitor em alta definição que fornece uma imagem tridimensional do procedimento.

Alguns cirurgiões acreditam que esses robôs trazem mais precisão durante a operação, um período de recuperação mais curto e, geralmente, resultados clínicos melhores para os pacientes. Mas a análise descobriu que, de muitas formas, as comparações dos resultados entre procedimentos robóticos e convencionais mostraram pouca diferença.  

Por exemplo, em 39 estudos que relataram a incidência de complicações necessitando de intervenções cirúrgicas adicionais, até 9% das laparoscopias tradicionais levaram a esses problemas, mas até 8% das operações robóticas também. Nos estudos de cirurgias gastrointestinais, complicações com risco de vida variaram de 0% a 2% para cirurgias auxiliadas por robôs, de 0% a 3% para laparoscopias e de 1% a 4% para cirurgias abertas. Os resultados foram publicados na revista Annals of Internal Medicine.

Por diversas razões, cirurgias auxiliadas por robôs ou laparoscopias às vezes não funcionam e o cirurgião precisa fazer uma operação aberta. Em geral, isso aconteceu em até 8% do tempo nas operações robóticas e em até 12% nas laparoscopias. Em cirurgias urológicas e ginecológicas, não houve quase nenhuma diferença entre operações auxiliadas por robôs e laparoscopias com relação ao número de operações que precisaram ser mudadas para procedimentos abertos.

Resultados a longo prazo de pelo menos dois anos foram relatados em oito dos estudos analisados, e eles descobriram que as taxas de mortalidade eram parecidas nas três técnicas. Em até 3% das cirurgias robóticas e 5% das cirurgias abertas, o paciente morreu. Não houve mortes nos procedimentos de laparoscopia.

No entanto, os pesquisadores acharam algumas diferenças de tempo entre os procedimentos. Resumindo, cirurgias auxiliadas por robôs geralmente demoram mais. Em estudos de cirurgias robóticas ginecológicas, a duração variou até 265 minutos, comparados com o máximo de 226 minutos para laparoscopias e 187 para procedimentos abertos. Em operações urológicas e colorretais, cirurgias auxiliadas por robôs foram consistentemente mais demoradas que as laparoscopias e operações abertas comparáveis.  

A autora principal, Naila H. Dhanani, uma residente cirúrgica da UT Health em Houston, disse que, para um paciente, não há razão para escolher a cirurgia robótica ao invés de outros métodos.

“Só porque é novo e sofisticado não significa que é uma técnica melhor,” ela disse. “Sim, a cirurgia robótica é segura, já provamos isso. Mas não provamos que é melhor. Quatro estudos mostraram um benefício com a cirurgia robótica, é muito pouco. Quarenta e seis não mostraram nenhuma diferença.”

James A. Eastham, chefe de urologia do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, que não esteve envolvido no estudo, concordou.

“Ninguém vai discordar das conclusões primárias,” ele disse. “As taxas de complicação intra-operatórias e os resultados pós-operatórios são parecidos independentemente do método cirúrgico. É muito mais importante escolher um cirurgião experiente com especialização em determinado campo do que escolher uma técnica.”

Mas, certamente, há benefícios práticos para o cirurgião. As operações podem demorar horas, e em procedimentos convencionais o cirurgião precisa ficar de pé, curvando-se e virando-se para colocar os instrumentos na posição correta. Isso não ocorre com o procedimento robótico.

“Há essa vantagem ergonômica”, disse Gerard M. Doherty, cirurgião chefe do Brigham and Women’s Hospital em Boston que não teve nenhum papel no estudo. “Mexemos os braços do robô sentados confortavelmente. Um cirurgião me disse que isso vai aumentar sua carreira em uma década.”

Mas a cirurgia robótica é mais cara que outros métodos. O custo inicial das máquinas, os instrumentos descartáveis necessários, os contratos para manutenção dos dispositivos e o tempo extra gasto nas salas de operação fazem com que seja tão cara que muitos hospitais não podem usá-la. O custo médio inicial para um conjunto robótico é de cerca de US $ 2 milhões.

Mesmo em grandes centros de saúde, os robôs têm suas limitações. “Temos 64 salas de operação, e só quatro delas têm robôs,” Doherty disse.

Uma empresa, a Intuitive Surgery, que faz os robôs da Vinci, tem uma presença de mercado tão dominante nos Estados Unidos que praticamente não há concorrência, e esse deve ser o fator que mantém os preços altos. No entanto, mais competição pode estar chegando.

“Já vi robôs fabricados por outras empresas”, Doherty disse. “A esperança de todos é que se alguém trouxer uma nova plataforma, os preços podem baixar. Mas estamos dizendo isso há uma década. A Intuitive tem sido bem agressiva com relação à manutenção de seu mercado.”

Em todo caso, de acordo com Eastham, o futuro da cirurgia é robótico. “Apesar da falta de evidência de que a robótica é ‘melhor’ que uma verdadeira laparoscopia ou cirurgia aberta,’ ele disse, “não há dúvida de que nos Estados Unidos, a mudança para a robótica já aconteceu.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Tudo o que sabemos sobre:
hospitalcirurgiarobô

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.