Arash Khamooshi para The New York Times
Arash Khamooshi para The New York Times

Classe média do Irã enfrenta consequências de sanções americanas

A alta da inflação e o colapso da moeda mudaram drasticamente a vida de boa parte da população, e muitos apontam Trump como responsável pela crise

Thomas Erdbrink, The New York Times

10 Janeiro 2019 | 06h00

TEERÃ - Há menos de um ano, ele dirigia uma bem-sucedida empresa de acessórios para computadores, tinha um carro novo e morava em um apartamento alugado de dois quartos no centro de Teerã. Mas em novembro, Kaveh Taymouri só tinha uma motocicleta enferrujada para levá-lo do trabalho até a nova habitação da família, a uma hora de viagem, um apartamento de 45 metros quadrados em um dos piores bairros da cidade, perto do seu enorme cemitério.

Recentemente, ao chegar tarde da noite do seu novo emprego em uma galeria, não encontrou comida no fogão. O sanduíche que ele comera no almoço teria de bastar. No entanto, sua esposa Reihaneh, anteriormente também sua sócia na empresa, disse que o achava melhor. “Pelo menos, ele parou de gritar enquanto dorme”, comentou.

Antes da “queda”, como eles a chamam, o casal Taymouris era uma típica família de classe média iraniana: prósperos empresários com formação universitária haviam ganho o bastante para dar uma entrada na casa própria. Agora, são um exemplo típico de outro tipo: os milhões de iranianos de classe média que, praticamente da noite para o dia, viram suas vidas encolher, arrasadas por forças econômicas além do seu controle.

A economia do Irã está em frangalhos, dizimada por anos de má administração e pelas novas sanções econômicas. O governo expandiu a oferta de dinheiro em mais de 30% ao ano durante mais de dez anos, usando os recursos destinados a cobrir os déficits orçamentários e outras despesas. Agora, a inflação está em cerca de 35%, comparada a menos de 10% um ano atrás, segundo dados oficiais.

A decisão do presidente Donald Trump de abandonar o acordo nuclear, conhecido formalmente como o Plano de Ação Conjunto Global, ou JCPOA na sigla em inglês, e de voltar a impor pesadas sanções econômicas, provocou o outro grave desastre econômico do Irã, o colapso da moeda, disse Djavad Salehi-Isfahani, professor de economia da Virginia Tech University. O rial sofreu uma desvalorização de cerca de 70% em relação ao dólar antes de se fortalecer recentemente, mas suas taxas ainda são flutuantes.

“A crise frustrou as expectativas de um boom econômico criado pelo JCPOA e pelo retorno do Irã à economia mundial, graças ao qual seriam impulsionadas as exportações de petróleo e os investimentos estrangeiros”, disse. “A reviravolta fez com que as pessoas convertessem seus rials em outras moedas principalmente dólares e ouro”. Elevando o custo das importações, o colapso da moeda agravou a inflação e dizimou as pequenas empresas que, como a da família Taymouris, dependem de produtos importados. Alguns atribuem a culpa pelos problemas econômicos diretamente a Trump.

“Realmente, é por causa de Trump”, disse Nasim Marashi, 29 anos, autora de um livro best-seller, Autumn Is the Last Season. Em quatro anos o livro teve 35 edições. O Irã com uma população de 80 milhões, durante muito tempo teve uma grande e florescente classe média com um salário médio de US$ 700 ao mês em moeda local, segundo representantes do governo.

Segundo Abbas Torkan, famoso assessor do presidente Hassan Rouhani, a classe média encolheu 50%. Os tempos difíceis significaram para muitos uma repentina mudança de vida. Nasim conta que seus ganhos por royalties despencaram de 120 milhões de rials por mês para 20 milhões. “Os livros não são uma necessidade”, lamentou.

Em um país que ainda põe na cadeia os devedores, os Taymouris não tiveram outra escolha senão pagar suas dívidas. Venderam o carro, a mobília e os tapetes. “Não gostamos de morar aqui”, disse Taymouri, apontando para o cemitério, um dos maiores do mundo. “O nosso projeto era mudar para um lugar melhor da cidade, e não perto dos mortos”.

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