Sean Gallup/Getty Images
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Coalizão de partidos tradicionais com a extrema direita preocupa a Europa

“Não dá para fazer alianças com pessoas desse tipo”, criticou Eckhardt Vogel, prefeito da cidade de Frankenstein, que não pertence a nenhum partido político

Katrin Bennhold, Amanda Taub e Max Fisher, The New York Times

18 de outubro de 2019 | 06h00

FRANKENSTEIN, ALEMANHA - Ela foi chamada de coalizão Frankenstein - e não somente por sua localização. Quando o comitê de Frankenstein do partido conservador da chanceler Angela Merkel desafiou Berlim e formou uma aliança com a extrema direita na câmara de vereadores do vilarejo, alguns consideraram a manobra monstruosa.

Para muitos, a aliança violava um dos maiores tabus da política alemã: nenhum partido convencional colabora com a extrema direita. “Uma linha vermelha foi ultrapassada”, afirmou Eckhardt Vogel, prefeito de Frankenstein, um centrista que não pertence a nenhum partido político. “Não dá para fazer alianças com pessoas desse tipo.”

Em Frankenstein, um vilarejo no sudoeste da Alemanha, a cooperação entre a União Democrata-Cristã, de Merkel, e a Alternativa para a Alemanha tem intrigado os alemães. Mas em toda a Europa a cooperação entre partidos convencionais e a extrema direita têm se tornado comum em nível local, com consequências para a democracia por causa do potencial de um efeito cascata.

Partidos convencionais estão lutando para encontrar uma maneira de lidar com a extrema direita: será melhor isolá-la e contê-la, ou trabalhar com ela na esperança de reconquistar eleitores? Passados três anos do ressurgimento populista, legisladores de extrema direita se tornaram rostos familiares em legislaturas locais e nacionais em países como Noruega, Itália e Dinamarca.

Dois anos após juntar forças com o Partido da Liberdade, de extrema direita, o líder conservador da Áustria, Sebastian Kurz, obteve mais de 250 mil votos de seus parceiros e triunfou nas eleições de 29 de setembro. Ajudou Kurz o fato de o Partido da Liberdade estar envolvido em escândalos que acabaram com o governo de coalizão. Mas ele também havia adotado sua pauta em questões como a imigração, qualificada como uma ameaça à identidade austríaca.

A coalizão fortaleceu a centro-direita e enfraqueceu a extrema direita. Mas também empurrou os conservadores de Kurz e o país para a direita, o que levantou uma questão: quem está cooptando quem? Na Alemanha, Annegret Kramp-Karrenbauer, líder dos democrata-cristãos e possível sucessora de Merkel, acusou a Alternativa para a Alemanha de criar um “clima intelectual” no qual um radical de extrema direita atirou em Walter Lübcke, um funcionário do governo regional, em junho - o primeiro assassinato político praticado pela extrema direita na Alemanha desde a 2ª Guerra.

De acordo com Annegret, qualquer um que pense em trabalhar com a Alternativa para a Alemanha, ou AfD, segundo sua sigla em alemão, “deveria fechar os olhos e imaginar Walter Lübcke”. Mas colocar em prática um banimento no nível local tem se provado difícil quando o rosto da AfD pode ser o de um médico ou de um bombeiro. A ideologia política parece um obstáculo menor quando os assuntos são reparos em estradas ou a reforma de uma escola de educação infantil.

Na cidade de Eilsleben, no norte do país, os democrata-cristãos convidaram um representante da AfD para o seu grupo político. Em Görlitz, próximo à fronteira com a Polônia, um candidato da AfD foi eleito para uma comissão local após receber apoio de partidos convencionais.

Em Chemnitz, onde manifestações da extrema direita fizeram líderes da AfD marcharem ao lado de neonazistas no ano passado, a AfD ajudou recentemente democrata-cristãos a conquistar o controle de vários projetos sociais tradicionalmente administrados pela esquerda.

Em Frankenstein, Monica Schirdewahn, uma conservadora que entrou na coalizão com seu marido da AfD, afirmou: “Democracia é isso. Se um partido é excluído, seus eleitores são excluídos.” Frieder Wagner, um trabalhador do setor químico aposentado, discordou. “Será que não aprendemos nada com a história?”, questionou ele. Os nazistas também chegaram ao poder em uma coalizão, afirmou ele. “E então a democracia morreu.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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