Eve Edelheit/The New York Times
Eve Edelheit/The New York Times

O artista pop que quer ser atleta olímpico

Cody Simpson já foi cantor, dançarino, ator e escritor. Agora, com o apoio de Michael Phelps e Ian Thorpe, ele está ressuscitando um sonho de natação de sua infância

Karen Crouse, The New York Times - Life/Style

06 de março de 2021 | 05h00

O príncipe do pop australiano estava enfurnado em um hotel em 2019, preparando-se para a temporada de estreia do programa "The Masked Singer" em seu país, quando começou a acompanhar os campeonatos mundiais de natação. À medida que assistia à quebra dos recordes, Cody Simpson só conseguia pensar em uma coisa: por que não estou lá?

Muito antes de fazer sucesso com um falsete digno de Barry Gibb, antes de conquistar inúmeros seguidores nas redes sociais e de se tornar um galã com uma música nas paradas de sucesso, um boneco com seu rosto e um papel de destaque na Broadway, Simpson, de 24 anos, era um nadador recordista em Queensland, quando ainda estava na escola.

Hipnotizado pelas competições, ele decidiu que não era tarde demais para ressuscitar o próprio sonho olímpico quando percebeu que era cinco meses mais novo que a estrela americana Caeleb Dressel, que havia acabado de quebrar um recorde mundial conquistado por seu ídolo de infância, Michael Phelps. "Parei de beber naquela noite e comecei a procurar piscinas no dia seguinte", disse Simpson.

Três meses depois, Simpson seria revelado como o robô que ganhou "The Masked Singer". Mais um ano se passaria até que ele surpreendesse a todos, revelando seu talento como nadador.

Em dezembro, mais de uma década depois de sua última competição, Simpson conseguiu se qualificar para disputar uma vaga olímpica nos cem metros borboleta pela Austrália. Ele bateu o tempo necessário em um encontro organizado por David Marsh, treinador com quem Simpson treina ocasionalmente, em San Diego. Foi sua segunda competição depois de menos de seis meses de treinamento consistente, e seu segundo evento do dia. Ele havia completado os 200 metros em estilo livre menos de uma hora antes.

Mais rápido do que qualquer um poderia imaginar, logo ele mostrou que seu retorno à natação não era um mergulho casual.

Simpson, cuja carreira inclui passagens como ator, guitarrista, compositor, dançarino, ator, escritor e modelo, agora quer incluir as Olimpíadas de 2024 em seu currículo. "Minha vida toda foi como marcar uma série de caixinhas, às quais me dediquei de mente, corpo e alma", afirmou Simpson durante uma entrevista por vídeo, diretamente de sua casa em Los Angeles.

Simpson tinha seis ou sete anos, de acordo com sua mãe, Angie, quando anunciou à avó: "Um dia serei famoso por alguma coisa. Só não sei ainda o quê."

A natação foi uma aposta segura, já que seus pais se conheceram quando eram atletas de elite no esporte. Angie Simpson esteve no ranking das dez melhores atletas do mundo nas competições de 200 metros de nado de peito, antes que uma tendinite nos dois ombros tirasse suas chances de representar a Austrália nos Jogos Olímpicos de 1988. O pai de Cody, Brad, integrou a equipe nacional da Austrália.

Cody Simpson estava começando a ganhar nome no esporte quando os vídeos que tinha postado no YouTube e no MySpace – em que cantava e tocava violão – o levaram a uma viagem aos EUA, no início de 2010. Antes de completar 13 anos, ele estava em Nova York se reunindo com executivos da Atlantic Records.

No caminho, Simpson e o pai fizeram uma parada em Baltimore, Maryland, para um encontro com um produtor musical. Enquanto estava lá, ele organizou um treinamento na piscina em que Phelps estava treinando depois de faturar oito medalhas de ouro nas Olimpíadas de 2008.

"Eu me lembro de comprar 20 bonés de Baltimore e de pedir a Phelps que assinasse os 20, para ter alguma coisa legal para dar aos meus amigos quando eu voltasse para casa", contou Simpson. Uma vez, ele disse à mãe que tinha ficado mais nervoso ao conhecer Phelps, naquele dia, do que ao conhecer Bono, do U2, anos mais tarde.

Phelps acompanhou de longe a carreira de Simpson na música, assim como seu treinador, Bob Bowman, que se lembra de entrar em uma loja da Whole Foods um dia e ver um display repleto de CDs com a foto de Simpson perto do caixa. "Eu me lembro de pensar que o menino tinha se saído muito bem", comentou Bowman.

O estilo de vida de um músico, porém, não combina com as competições de natação. Mas Simpson nunca tirou o esporte da cabeça durante a adolescência, que passou voando, entre as viagens de divulgação e as turnês, e incluiu um disco no Top 10 da "Billboard" em 2013 e uma participação no programa "Dancing With the Stars", em 2014.

A saída de Simpson da Atlantic Records, em 2018, colocou-o de volta no próprio caminho. Ele criou sua gravadora, a Coast House Records, e esteve no elenco de "Anastasia the Musical", na Broadway, durante seis meses. Depois de publicar um livro de poesia, Simpson concluiu que retornar à natação seria o próximo passo, uma chance de voltar a se concentrar no sonho olímpico que havia deixado de lado anos atrás: "Amo a indústria musical e continuarei a ser músico por toda a minha vida, mas essa não é uma empreitada tão pura quanto o esporte, que, no fim das contas, se resume ao tempo marcado no cronômetro".

Desde junho, Simpson treina ao lado de Brett Hawke, que representou a Austrália em duas Olimpíadas. "Eu não sabia se ele realmente tinha noção daquilo em que estava se metendo. Ser nadador aos 12 anos é completamente diferente de tentar se tornar o melhor do mundo aos 23. Mas não sou eu que vou matar o sonho dele", declarou Hawke.

Em seu primeiro treino juntos, Hawke submeteu Simpson a um extenuante treinamento de 90 minutos e, em seguida, surpreendeu-o com 200 metros nado borboleta cronometrados. Quando, exausto, Simpson terminou o treino, havia passado no teste de Hawke. Desde então, Simpson treinou em piscinas no Sul da Califórnia e na Flórida sem linhas no fundo nem blocos de saída, pulando de condado em condado, e até mesmo de estado em estado, para encontrar locais que não tenham sido fechados pelas restrições do coronavírus. "Já mergulhei em muitas piscinas até agora", disse Simpson, rindo.

Sua mãe comentou que Simpson sonha um dia conquistar algo que nem mesmo Michael Phelps tentou: cantar o hino nacional no início de uma competição e, em seguida, trocar de roupa para nadar. Mas esse sonho ainda está distante. Em outubro, Simpson participou de sua primeira competição, na modalidade 200 metros livres. "Quase fiquei doido, de tão estressado", comentou.

Simpson se lembrou de ter se sentido da mesma maneira em 2018, em sua estreia na Broadway: "Na última noite, depois de umas 130 apresentações, eu estava absolutamente tranquilo, sem nenhuma ansiedade. Imagino que será da mesma maneira com a natação – umas 130, 140 competições até que eu chegue lá sem medo e simplesmente nade".

Hawke costuma criar oportunidades de competição para Simpson, que deu a entrevista para esta matéria depois de voltar de um treinamento que incluiu nado cronometrado. Pulando na piscina atrás de Jordan Wilimovsky, que participou das Olimpíadas de 2016, ele acelerou para alcançar e ultrapassar Wilimovsky nos últimos 180 metros de um nado cronometrado de 914 metros. "Fiquei nervoso o dia todo, porque estava preocupado com o resultado", disse Simpson.

Recentemente, Simpson foi encorajado por Phelps, a quem envia vídeos dos treinos. Phelps responde com dicas sobre as técnicas de braçada e estratégias para a competição. "Acho que ele tem a mente de um nerd da natação", observou Phelps.

Simpson também está em contato frequente com Ian Thorpe, cinco vezes medalha de ouro em Olimpíadas e ex-rival de Phelps, que fez uma observação perfeita recentemente sobre o ritmo das braçadas. Ele contou a Simpson que, durante treinamentos difíceis, costumava imaginar que suas mãos eram como bumbos e que seus pés eram como caixas, e que ele estava tocando bateria a cada braçada. "Isso é muito legal", comentou Simpson, que presta muita atenção nos comentários e pula de alegria a cada pequena conquista, como nadar 23, 46 e agora 69 metros debaixo d'água usando apenas a golfinhada.

Quando ele marcou 54,91 segundos para se qualificar à disputa por uma vaga olímpica nos cem metros borboleta, com quase dois segundos menos que o tempo mínimo exigido, Simpson contou ter sentido a mesma satisfação de quando venceu "The Masked Singer". Ele não venceu por causa de sua beleza, de sua reputação ou de seus contatos, mas com a força de seu talento.

Simpson sabe que ainda precisa fazer muito para chegar lá. O recorde australiano dos cem metros borboleta é de 50,85 segundos. O recorde mundial de Dressel é de 49,50 segundos. "Sou ambicioso, mas não maluco. Sei muito bem o que estou encarando", concluiu Simpson.

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