José Méndez/European Pressphoto Agency
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Colegas de jornalista morto no México foram espionados pelo governo

Uso ilegal de tecnologia de vigilância começou durante governo de Enrique Peña Nieto

Azam Ahmed, The New York Times

06 Dezembro 2018 | 06h00

CIDADE DO MÉXICO -  As mensagens chegaram em um momento familiar de crise para a frágil comunidade dos jornalistas do México - mais um repórter morto. Javier Valdez, um famoso jornalista investigativo, havia sido assassinado apenas um dia antes. Depois houve uma repentina reviravolta da situação. Segundo uma mensagem de texto recebida pelos colegas de Valdez, os seus assassinos haviam sido detidos.

Apesar da tragédia, eles ficaram desconfiados. No México, mais de 90% dos assassinatos deixam de ser solucionados. Como as autoridades poderiam solucionar tão rapidamente este caso?

Muito provavelmente, a mensagem não passava de uma tentativa de infiltração nos seus smartphones, imaginaram - como parte de um esquema de pirataria que envolve uma sofisticada tecnologia de espionagem adquirida pelo governo mexicano.

E estavam certos.

As mensagens estavam infectadas com um spyware conhecido como Pegasus, que o governo mexicano adquiriu de uma revendedora israelense de armas cibernéticas, chamada Grupo NSO, segundo uma análise forense do Citizen Lab da Munk School da Universidade de Toronto.

Um simples clique nos links contidos nas mensagens teria infectado os celulares com um spyware suficientemente poderoso para quebrar mensagens em código, monitorar os e-mails e ativar remotamente a câmera e o microfone.

Alguém tentava espionar os amigos e colegas de Valdez apenas um dia depois do seu assassinato, no ano passado - mais provavelmente o governo mexicano, segundo as pessoas visadas.

“Acredito que eles queriam vasculhar as nossas conversas e mensagens em busca de informações sobre o assassinato de Javier, mas nós somos absolutamente contra isto,” declarou Ismael Bojórquez, fundador e diretor da seção de notícias da Rio Doce, a organização na qual Valdez trabalhava. “Nada que tenha sido obtido de maneira ilegal deve ser usado em uma investigação, e principalmente por quem está envolvido profissional e emocionalmente com a vítima”.

No México, o uso ilegal de tecnologia de vigilância começou durante o governo de Enrique Peña Nieto, que adquiriu o spyware com a condição de que fosse utilizado exclusivamente contra terroristas e criminosos.

Mas no último ano e meio, o Citizen Lab confirmou cerca de vinte alvos problemáticos, inclusive alguns dos jornalistas mais importantes do México, advogados dos direitos humanos e ativistas que combatem a corrupção.

Quando surgiu a notícia da vigilância cibernética, no ano passado, o governo mexicano denunciou a espionagem e abriu uma investigação. Mas ninguém foi punido.

Ao ser informado do escândalo, Bojórquez disse que não acreditava nas mensagens que estava recebendo. Ele e outra pessoa visada - o diretor do noticiário, Andres Villareal - recusaram-se a clicar nos links. E tinham razão de desconfiar.

Eles estavam à frente de uma das poucas organizações de notícias independentes da nação, dedicada à cobertura do crime organizado e à denúncia da vasta ligação de crime e corrupção no país.

As ameaças eram inevitáveis, e não apenas da parte do crime organizado. Dados do governo mostram que autoridades públicas são responsáveis pelo maior número de ataques a jornalistas. Mais de 47 foram mortos desde que Peña Nieto subiu ao poder, no final de 2012, 15 deles depois da morte de Valdez, em maio do ano passado, segundo o Artigo 19, um grupo de proteção aos profissionais da informação.

Bojórquez disse que ele e outros tomaram conhecimento do spyware do governo em fevereiro de 2017, quando o Citizen Lab e “The New York Times” publicaram artigos explicando o seu uso ilícito contra os defensores do imposto sobre os refrigerantes em todo o país.

Isto foi motivo de embaraço para o governo do México. E no entanto, meses depois da tentativa de ataques a médicos e ativistas que defendiam o imposto sobre bebidas com adição de açúcar, as tentativas não pararam.

“Estas tentativas de infecção são irresponsáveis, e provavelmente indefensáveis”, afirmou John Scott-Railton, um pesquisador da Citizen Lab. “Onde estava a supervisão interna? E onde estava a vigilância da NSO?”

“Nós não toleramos o mau uso dos nossos produtos contra ativistas dos direitos civis, jornalistas ou qualquer pessoa inocente. Se houve suspeita de mau uso, nós a investigaremos e adotaremos as medidas cabíveis, incluindo a suspensão ou a rescisão de um contrato”, disse um porta-voz da NSO.

Em resposta aos relatos mais recentes de ameaças aos colegas de Valdez, o governo disse que estava comprometido com o indiciamento de pessoas, caso as evidências aparecessem.

No dia 1º de dezembro, um novo governo tomou posse, em meio a uma onde de apoio popular. Mas resta em aberto a questão se a situação dos jornalistas mudará no país, ou se atentados, abusos, e excessos do Estado continuarão.

“Uma mudança de governo não significa que haverá mudanças no contexto de impunidade ou agressões aos jornalistas,” disse Bojórquez”. “Se não houver mudanças na impunidades, o assassinato de jornalistas prosseguirá”.

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