Propeller Group
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Coletivo vietnamita de arte tem problemas de identidade

Propeller Group é tema de mostra em San José, na Califórnia

Frank Rose, The New York Times

09 Março 2018 | 15h00

HO CHI MINH CITY, Vietnã - Em 1978, quando tinha 2 anos, Tuan Andrew Nguyen estava num avião voando para os Estados Unidos. Ele e os pais eram refugiados que fugiram de barco do Vietnã comunista após a guerra. Depois de uma semana no mar, eles chegaram à Ilha Bidong, um pedacinho de terra que se tornaria o maior campo de refugiados do mundo. Então, um grupo religioso americano ofereceu a eles a oportunidade de se assentarem em Oklahoma.

Hoje, aos 41 anos, Nguyen vive na cidade da qual os pais fugiram. Ele é um Viet Kieu, um vietnamita do exterior, que voltou com influências estranhas à cultura local, e membro do Propeller Group, um coletivo de arte que faz seu comentário a respeito do Vietnã contemporâneo por meio de obras como "Comercial de TV para o comunismo", que apresenta a ideologia de Marx e Lênin numa nova embalagem de estilo de vida moderno, igualitário, elegante, perfeito para o consumo.

A falsa campanha de branding é mostrada atualmente na primeira grande retrospectiva do Propeller Group num museu, o Museu de Arte de San Jose, na Califórnia, que vai até 25 de março.

Ao vir para San Jose, o Propeller Group, que inclui outro Viet Kieu, Phunam Thuc Ha, e um americano, Matt Lucero, foi jogado num grande enclave vietnamita. "Eles são um pouco paranoicos em relação ao que está saindo do Vietnã atualmente", disse Nguyen.

Lauren Dickens, que trouxe a exposição para San Jose, foi ainda mais direta: "As pessoas suspeitam que ele seja de fato um comunista".

Nguyen não é comunista. Mas não é de fugir de uma controvérsia, ao menos nos EUA. No Vietnã, onde todas as exposições públicas precisam ser aprovadas por uma agência do governo, a situação é diferente. "Não podemos abordar muitos dos assuntos que a maioria dos artistas comenta", disse ele no Centro de Artes Contemporâneas Fábrica, em Ho Chi Minh City.

Acompanhando a exposição em San Jose, há um mural, produzido pelo artista El Mac, de Los Angeles, em colaboração com o Propeller Group, retratando Sophie Cruz. Em 2015, quando tinha 5 anos, Sophie foi até Washington e parou o comboio do papa Francisco para entregar a ele um pedido de ajuda de seus pais, imigrantes ilegais do México.

As questões de identidade são centrais para o Propeller Group. Nguyen, cujos pais fugiram porque o pai, ex-recruta do exército sul-vietnamita, seria submetido à "reeducação", teve de enfrentar valentões em Oklahoma e no Texas antes de os pais se mudarem de vez para Irvine, Califórnia. 

Phunam, como Ha prefere ser chamado, é o filho de um câmera que trabalhava para a CBS News durante a Guerra do Vietnã. Ele cresceu em Singapura, mas obteve um diploma em restauração de pinturas a óleo em Hanói. Lucero cresceu no sul da Califórnia, filho de um mecânico do exército dos EUA que lutara no Vietnã. Ele e Nguyen se tornaram amigos depois de descobrirem interesses em comum no hip-hop e no graffiti no Instituto de Artes da Califórnia.

Eles viam sempre a expressão "propeller group" no Google, relacionada a agências de relações públicas, firmas de publicidade, empresas de produção, e assim decidiram adotá-la como nome. Mas, para alguns, isso gerou confusão. Seriam eles, como escreveu Nguyen no catálogo da exposição, "um coletivo de arte fingindo ser uma empresa de publicidade, ou uma empresa de publicidade fingindo ser um coletivo de arte?"

A palavra usada por Nguyen para descrever a posição do grupo é "limiar": na divisória, com um pé de cada lado. A reencarnação é, talvez, a forma definitiva de linearidade. O catálogo da exposição abre com "Um obituário para o Propeller Group", no qual é dito que o coletivo "fez a transição para a reencarnação".

Desde então, os três seguiram rumos separados. Phunam rodou um filme vietnamita que estreou em novembro. Lucero abriu uma empresa em Ho Chi Minh City que produz acabamento para mobília. Nguyen voltou para a Ilha Bidong para fazer um filme. Chamado de "A Ilha", o filme teve destaque na Bienal Whitney de 2017 em Nova York.

E quanto ao Propeller Group? O que acontece se novos membros o mantiverem vivo? Todas as opções estão em aberto.

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