Gordon Welter para The New York Times
Gordon Welter para The New York Times

Mão de obra extra para colheitas é bloqueada nas fronteiras da Europa

Os governos europeus declararam o fornecimento de alimentos uma questão de segurança nacional

Liz Alderman, Melissa Eddy e Amie Tsang, The New York Times

07 de abril de 2020 | 06h00

PARIS – Quando a Europa fechou as fronteiras para conter a propagação do coronavírus, os maiores produtores rurais da França deram o alarme. A mão da obra de outros países da qual eles dependem para a colheita da maior parte dos alimentos que ela consome estava impedida de viajar.

Na Grã-Bretanha, os cultivadores lutam para encontrar trabalhadores para a colheita de framboesas e batatas. Parte da cultura dos aspargos na Alemanha está ameaçada de apodrecer no solo. E na Itália, mais de 25% da safra de morangos, feijão e alface que deverá amadurecer nos próximos meses provavelmente não terá quem a colha.

Os governos europeus declararam o fornecimento de alimentos uma questão de segurança nacional enquanto milhões de pessoas se dirigem aos supermercados para se recuperar do seu prolongado confinamento em casa. Mas o fechamento das fronteiras imobilizou legiões de trabalhadores sazonais do Leste da Europa que trabalham duramente nos campos da Espanha e da Suécia, obrigando os países a repensar como fornecer mão de obra a esses produtores.

O ministro da Agricultura da França convocou recentemente ao trabalho cabeleireiros, garçons, floristas e outros que não podem trabalhar em suas lojas fechadas para que então trabalhem nos campos e comecem a colheita. “Estou convocando este exército sombra, com muitos homens e mulheres que queiram trabalhar”, disse à televisão BFM, Didier Guillaume.

“Precisamos produzir para alimentar os franceses”. A Europa não ficará sem comida, mas a amplitude desta convocação reflete uma realidade nada confortável: Sem a mão de obra móvel de baixo custo procedente da Europa Oriental, os cestos de comida das economias mais ricas da Europa correm o risco de ficar sem a sua colheita.

Malte Voigts cultiva o cremoso aspargo amarelo claro, celebrado na Alemanha como “ouro branco” na fazenda que ele possui em Kremmen, a 50 quilômetros a noroeste de Berlim. Normalmente, ele depende de cerca 170 trabalhadores, na maioria romenos, para a colheita do aspargo.

Agora, apenas cerca da metade destes está disponível, em grande os que chegaram antes que a República Tcheca e a Hungria bloqueassem as viagens através dos sus países. Ele lançou um apelo pedindo ajuda no site da sua companhia. “Apareceram centenas de pessoas, até uma mãe, dizendo que seus dois filhos adolescentes poderiam ajudar – o que nós não permitimos”, ele acrescentou. “Fiquei arrepiado”.

A Alemanha precisa de 300 mil trabalhadores sazonais. Milhares de alemães responderam em um site nacional oferecendo-se para ajudar os produtores ou nos viveiros. Os empregos pagam o salário mínimo alemão de 9,35 euros (cerca de US$ 10,25) a hora, o mesmo salário pago aos trabalhadores estrangeiros que cuidam da colheita.

Mas com apenas 16 mil candidatos até o momento, o ministro da Agricultura pediu ao governo que garanta aos refugiados o direito de trabalhar nos campos. Na França, o governo informou no final de março que se haviam apresentado 40 mil pessoas em um site que põe os trabalhadores em contato com as fazendas.

Mas nos campos e na pecuária de todo o país serão necessários 200 mil trabalhadores. E os críticos questionam se será conveniente recrutar mão de obra despreparada para as colheitas no momento em que os governos impõem as quarentenas. “Em menos de 24 horas, o ministro da saúde nos diz de permanecer em casa para salvar vidas, e o primeiro-ministro manda os franceses para trabalhar nos campos”, escreveu no Twitter Julien Odoul, presidente do partido de extrema direita Reunião Nacional.

Contudo, na província de Huelva, na Espanha, a maior produtora de amoras da Europa, o principal sindicato dos trabalhadores agrícolas começou a recrutar moradores para suprir a falta prevista de cerca de 9 mil trabalhadores de Marrocos. A Itália, o epicentro da crise do coronavírus na Europa, precisa de pelo menos 50 mil trabalhadores, segundo a Coldiretti, a associação nacional agrícola.

Cerca de duas mil pessoas se candidataram para os empregos sazonais. As fazendas da Grã-Bretanha já registravam escassez de mão de obra porque o Brexit desencorajou a chegada de trabalhadores imigrantes. No passado, as fazendas precisavam de cerca de 27 mil pessoas dos países da União Europeia.

No pico da colheita, chegam mais 75 mil. Sarah Boparan, diretora operacional da HOPS, uma empresa que recruta mão de obra, disse que a sua agência a atraía apenas cerca de 20 cidadãos britânicos ao ano para trabalhar nas fazendas. No final de março, apresentaram-se centenas. “Está sendo uma coisa absolutamente fantástica”, ela disse. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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