Federico Rios Escobar para The New York Times
Federico Rios Escobar para The New York Times

Na Colômbia, uma corrida para proteger as monumentais palmeiras-de-cera

Uma árvore misteriosa cresce em uma ‘floresta acima da floresta’

Jennie Erin Smith, The New York Times

12 de novembro de 2019 | 06h00

Em 1991, Rodrigo Bernal, um botânico especializado em palmeiras, dirigia um carro pela Bacia do Rio Tochecito, um desolado cânion montanhoso na região central da Colômbia, quando foi tomado por um pressentimento profético.

Dois outros especialistas em palmeiras estavam no carro com Bernal: sua mulher, Gloria Galeano, já morta, que trabalhava com ele na Universidade Nacional da Colômbia, em Bogotá; e Andrew Henderson, de Nova York. Estavam em busca da palmeira-de-cera de Quíndio, a palmeira mais alta do mundo.

Palmeiras-de-cera fascinam exploradores e botânicos há muito tempo em razão de sua extraordinária altura: algumas delas alcançam 60 metros. Uma cera espessa envolve seus troncos, o que não é visto em outras palmeiras, e elas brotam onde palmeiras não deveriam brotar, a princípio, nas frias encostas dos Andes, em altitudes de até aproximadamente 3 mil metros.

“Eram enormes e icônicas palmeiras a respeito das quais ninguém sabia muito”, afirmou Henderson.

A palmeira-de-cera de Quíndio foi nomeada a árvore nacional do país em 1985, mas a comenda resultou em pouca proteção. Muitas ficaram ilhadas em pastos ou campos remanescentes de antigas florestas. 

Palmeiras-de-cera não conseguem se reproduzir fora da floresta, suas mudas não resistem ao sol incidindo diretamente, ou acabam virando comida de vacas e porcos.

Na maior reserva de palmeiras-de-cera conhecida na Colômbia, somente 2 mil árvores tinham sobrado. Mas os cientistas tinham escutado falar que havia centenas de milhares delas escondidas na Bacia do Rio Tochecito - compondo a maior floresta de palmeiras-de-cera do mundo. O problema era que ninguém conseguia chegar em segurança a esse lugar.

Quando passava por lá,  Bernal soube que todo o cânion era controlado pela guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Eles não se atreveram a ir muito longe, mas avançaram o suficiente para ver os exuberantes campos de palmeiras-de-cera que tomavam as encostas até o topo das montanhas, com seus pálidos troncos cobertos de resina rabiscando a paisagem como palitos de fósforo, abaixo das copas, em meio ao obscuro sub-bosque.

Era a mesma vista que, em 1801, tinha absorvido Alexander von Humboldt, o explorador alemão do século 19. Posteriormente ele descreveu essa paisagem como uma das mais comoventes que viu em todas as suas viagens: “Uma floresta acima da floresta, na qual as altas e delgadas palmeiras perfuram a cortina de folhagem que as cerca”.

Os cientistas puderam voltar a Tochecito em 2012, depois de o Exército colombiano ter expulsado as Farc. Agora, Bernal e María José Sanín, da Universidade CES, de Medellín, tentam salvar as palmeiras e estudá-las.

No ano passado, Bernal e um estudante de engenharia florestal de Bogotá descobriram que um grupo de palmeiras-de-cera de Tochecito tinha mudado de sexo, um fenômeno raro na natureza. “Tínhamos acompanhado uma palmeira fêmea por um ano e, de repente, ela produziu pontos masculinos” de florescimento, afirmou Bernal.

Maria José ocupa-se com questões referentes a diversidade genética nas florestas de palmeiras-de-cera. Em 2016, ela e suas colegas comprovaram que as palmeiras-de-cera desenvolveram essa curiosa tolerância ao frio cerca de 12 milhões de anos atrás, enquanto os Andes cresciam. Agora, ela está utilizando estudos moleculares das palmeiras para criar estimativas mais precisas a respeito de quando as diferentes partes dos Andes começaram a ascender.

Certo dia, Bernal parou diante de uma árvore e usou uma moeda para arrancar cera de seu tronco. O pedaço de cera se esmigalhou enquanto caía, virando pó. Uma vez que a cera é retirada, a palmeira não a substitui produzindo mais seiva para tapar o buraco, mas as árvores parecem não ser prejudicadas pela extração. Bernal afirmou que se pergunta há anos se essa cera não seria a mesma utilizada pelos povos pré-colombianos da região no processo de fundição e moldagem de suas estatuetas de ouro: “Por que se dar ao trabalho de criar abelhas quando tudo o que você tem de fazer é subir em uma árvore?”.

A única reserva oficial de palmeiras-de-cera da Colômbia fica perto da cidade de Jardín, uma região de cafeicultura. A área de preservação é administrada por um grupo de conservação de aves que tem como objetivo preservar o papagaio-de-crista-amarela, que faz seus ninhos nos galhos das palmeiras-de-cera. O problema é que as palmeiras têm de estar mortas.

“Aquela população de palmeiras é geriátrica e está morrendo maciçamente”, afirmou Maria José.

Em 2012, cientistas organizaram um esforço para proteger cerca de 2 mil palmeiras-de-cera nas proximidades da cidade de Salento, em um local popular entre turistas, mas onde também há pastos e ameaça da mineração. O plano deles atraiu pouco interesse entre a população local.

Eles voltaram seus esforços para Tochecito, onde cerca de meio milhão de palmeiras ocupam terras particulares.

Uma empresa sul-africana pretende criar uma enorme mina de ouro a céu aberto na região. Até agora, várias comunidades já rejeitaram a mineração, optando por viver de agricultura e turismo. Alguns poucos proprietários de terras criaram reservas de palmeiras-de-cera. Outros estão cessando gradualmente a atividade com gado e passando a receber turistas.

Em uma manhã recente, as coroas das palmeiras-de-cera tocavam as nuvens, enquanto tucanos, papagaios e periquitos se banqueteavam com suas frutas vemelho-alaranjadas. Dois turistas de Berlim descansavam, absortos na beleza das palmeiras. Um deles, Michael Pahle, afirmou que, em sua opinião, as palmeiras-de-cera mais famosas, de Salento, parecem “mais esparsas e tristes” se comparadas àquelas. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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