Universidade de Queensland
Universidade de Queensland

Com 10 bilhões de pessoas no mundo, vamos precisar de mais comida

A população mundial está aumentando rapidamente, exigindo mais alimento, mas a quantidade de terra arável é limitada

Knvul Sheikh, The New York Times

05 de julho de 2019 | 06h00

Os agricultores e donos de viveiros estão em uma corrida contra o tempo. A população mundial está aumentando rapidamente, exigindo mais alimento, mas a quantidade de terra arável é limitada. As temperaturas mais quentes prolongaram as temporadas de cultivo em algumas áreas, trazendo a seca e as pragas a outras. “Teremos cerca de 10 bilhões de pessoas no planeta em 2050, e vamos precisar de 60% ou 80% mais alimento", projetou Lee Hickey, geneticista botânico da Universidade de Queensland, na Austrália.

Mas o desenvolvimento de colheitas com maior rendimento, mais nutritivas e resistentes à seca e às doenças pode levar uma década, ou mais. A equipe de Hickey está trabalhando na “reprodução acelerada". A técnica deles foi inspirada em pesquisas da NASA envolvendo o cultivo de alimento em estações espaciais. Eles fazem com que os brotos floresçam mais cedo ao bombardeá-los com LEDs azuis e vermelhos por 22 horas diárias, mantendo a temperatura entre 17°C e 22°C. Na revista Nature, eles mostraram que conseguem cultivar até seis gerações de trigo, cevada, grão de bico e canola por ano. Métodos tradicionais produziriam apenas uma ou duas gerações.

Para os pesquisadores, a combinação da reprodução acelerada com outras tecnologias, como a edição genética, é a melhor maneira de criar novas colheitas. “Estamos falando em criar fábricas de plantas em grande escala", explicou Hickey.

Os pesquisadores também adotaram novas técnicas genéticas para otimizar o tempo de florescimento e tornar as plantas mais resistentes aos rigores do aquecimento. Ferramentas como o Crispr permitem que os cientistas excluam partes do DNA das plantas que as tornam vulneráveis a doenças. A equipe de Hickey está trabalhando no uso do Crispr com mudas de cevada e sorgo para modificar os genes das plantas e, ao mesmo tempo, acelerar sua reprodução.

No caso de algumas colheitas, esse processo é mais difícil. As batatas e outros gêneros, como a alfafa, trazem quatro cópias de cada cromossomo(os humanos e a maioria dos animais têm dois cromossomos, um de cada pai). Talvez um manipulador queira excluir um gene que reduz o rendimento da colheita, mas pode haver três outras cópias do gene nos demais cromossomos da planta.

Isso significa que, normalmente, as batatas são estéreis, e precisam ser multiplicadas por meio da colheita e replantio dos tubérculos. A reprodução acelerada e a edição genética só conseguem acelerar o processo até certo ponto, disse o geneticista botânico Benjamin Stich, da Universidade Heinrich Heine, em Düsseldorf, Alemanha.

Stich e sua equipe estão desenvolvendo uma técnica chamada previsão genômica para a rápida identificação de tubérculos com características desejáveis. Primeiro, os pesquisadores partem do que sabem a respeito da influência de diferentes genes no crescimento e rendimento. Então, inserem os dados em modelos de computador, extraindo previsões a respeito de quais plantas terão os melhores genes e o melhor rendimento.

A equipe de Stich usou a técnica para prever com sucesso a vulnerabilidade dos tubérculos à praga da batata, bem como seu rendimento, o tempo de maturação e a quantidade de amido contida. Com a tecnologia mais barata e poderosa, as oportunidades estão surgindo em todo o mundo. A equipe de Hickey planeja treinar equipes de reprodutores de plantas na Índia, no Zimbábue e em Mali por meio de uma colaboração com o Instituto Internacional de Pesquisa Agrícola para os Trópicos Semi-Áridos e doações da Fundação Bill e Melinda Gates.

Nos países carentes de recursos como a eletricidade, a reprodução acelerada pode ser feita usando painéis solares que ativam LEDs baratos. “É importante garantir que isso beneficie também os agricultores nos países em desenvolvimento", destacou Hickey. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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