Ivor Prickett para The New York Times
Ivor Prickett para The New York Times

Com a expulsão do EI, a vida retorna em Mossul

Os moradores da cidade começam a se sentir seguros, e passam mais tempo fora de casa

Ivor Prickett, The New York Times

14 Junho 2018 | 15h15

MOSSUL, IRAQUE - O bar, no lado oriental de Mossul, fica um pouco escondido, sem letreiro na frente, as cortinas fechadas, mas um fluxo persistente de clientes continuava entrando em uma destas noites cálidas. Alguns homens que bebiam abundantemente, explicaram que eram de Bagdá. “Somos turistas”, declarou um deles.

Há menos de um ano, Mossul saía de uma batalha que durou quase nove meses para retomá-la do Estado Islâmico.

Agora, em muitas partes da cidade, a vida está voltando e a sensação de segurança é palpável. Novas lojas estão abrindo e, pela primeira vez em anos, as pessoas ficam fora até tarde. Entre elas há uma sensação de que finalmente Mossul se livrou das gangues criminosas e das facções de fanáticos islâmicos. A saída do Estado Islâmico trouxe muitas esperanças, mas será que esta situação poderá durar?

O bar, chamado Noites de Beirute, abriu em abril. As canções do libanês Fayrouz flutuavam no ar através da sala repleta de fumaça, criando nos clientes uma espécie de ilusão de que poderiam estar em qualquer outro lugar.

Tomar bebidas alcoólicas era estritamente proibido sob o EI, mas mesmo antes de Mossul tornar-se conservadora; os últimos bares e boates fecharam logo depois da invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003.

A poucos minutos de carro dali, a Universidade de Mossul também trouxe nova vida e energia de volta para a cidade devastada pela guerra. As mentes jovens necessárias para a reconstrução estão voltando para os estudos nesta prestigiosa instituição, que foi terrivelmente danificada durante os combates.

Alguns dos primeiros estudantes que se formarão desde a derrota do EI recentemente comemoraram de maneira turbulenta em um salão no leste de Mossul. Cada formando desfilou durante a festa sob uma chuva de confetes brilhantes e ruidosa música popular.

Apesar dos sinais de que a cidade está ressurgindo, as lembranças da guerra ainda são muito evidentes, principalmente na Cidade Velha, no lado ocidental de Mossul, o mais danificado. Veículos civis destruídos e abandonados começam lentamente a ser recolhidos.

Andando pelas montanhas de carros e caminhões empilhados embaixo de um viaduto, chega-se quase a ouvir o estrondo da guerra que os destruiu.

Ao lado da Ponte Velha reconstruída sobre o Rio Tigris, um grupo de jovens catadores de destroços descansava do trabalho para se refrescar. Suas silhuetas pulando nos pontos rasos, sob a ponte de ferro recuperada de maneira admirável, contrastavam com as pilhas de escombros na margem ocidental do rio.

Ao mesmo tempo, seria impossível deixar de pensar naqueles que morreram naquele mesmo trecho do rio ao tentar fugir da Cidade Velha no ataque final, no verão passado. Mas Mossul é assim, repleta de contradições.

Em um estande de tiro no meio de um parque de diversões na margem oriental do Tigris, Hussain Muthar acertou todos os disparos. Ele atingiu mais de 10 balões em cores vivas. Cada vez, um sorriso maroto aparecia em seu rosto enquanto puxava o gatilho.

No verão passado, ele era um atirador de elite das Forças Especiais Iraquianas no lado ocidental de Mossul, lutando contra os combatentes do EI. Hoje, este bairro, onde se desenrolou a fase mais sangrenta da guerra, continua devastado, e centenas de soldados iraquianos estão aqui para ajudar no trabalho da polícia local.

“Agora estou estacionado em Mossul”, disse Muthar. “Durante a minha folga não vou nem para casa, para Nasiriyah, fico aqui e me divirto. Nunca poderia fazer isto antes”.

Em volta, famílias com crianças faziam fila para as poucas diversões que funcionavam, uma roda gigante e uma autopista.

Ele disse: “Muitas vezes ficamos pensando nisto, como tudo mudou, e agora é como se nada tivesse acontecido”.

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