Sven Creutzmann/Mambo photo, via Getty Images
Sven Creutzmann/Mambo photo, via Getty Images

Com agentes e espiões, Cuba influencia crise na Venezuela

Relação entre os países deve mudar drasticamente caso Maduro deixe o poder

Kirk Semple, The New York Times

30 de janeiro de 2019 | 06h00

CIDADE DO MÉXICO - Quando o líder da oposição, Juan Guaidó, foi brevemente detido pelos agentes da inteligência venezuelana, no mês passado, alguns viram no episódio a ação de um outro governo. “Esta agência é controlada e dirigida por experientes opressores enviados por Cuba; estas táticas são os métodos corriqueiros usados pelo regime cubano”, escreveu, no Twitter, o senador americano Marco Rubio, da Flórida. Cuba, aparentemente, é um componente preponderante na crise política que corrói a Venezuela, enquanto o presidente Nicolás Maduro enfrenta a forte oposição de Guaidó, que se declarou líder interino. Cuba é uma aliada de longa data da Venezuela e a sua maior defensora na região.

O governo do presidente Miguel Díaz-Canel ofereceu a Maduro a sua “inabalável solidariedade” e definiu a turbulência política do país “a tentativa de impor um golpe de Estado, um governo fantoche ao serviço dos Estados Unidos”. Entretanto, na opinião de muitos adversários de Maduro, Cuba deve ser responsabilizada em grande parte pela permanência do presidente venezuelano no cargo. Eles apontam a presença de agentes cubanos no país - espiões, assessores políticos e da área de inteligência - e afirmam que eles sustentam Maduro ajudando a suprimir a dissidência.

Segundo María Corina Macado, uma líder da oposição venezuelana, a presença dos cubanos nas forças armadas do país é “inaceitável”. O governo cubano, ela insistiu, “deve compreender que eles precisam deixar a Venezuela”. A aproximação entre as duas nações cresceu com a eleição de Hugo Chávez, em 1998. O relacionamento foi intensificado por uma profunda amizade entre Chávez e o seu colega cubano da época, Fidel Castro.

Além de fornecer especialistas da área militar e da segurança, Cuba enviou profissionais de outras áreas - como médicos, enfermeiros, professores e treinadores esportivos - a fim de dotar a Venezuela de profissionais preparados em cada setor. No entanto, alguns analistas afirmam que, embora o apoio de Cuba seja importante para o atual governo venezuelano, em última análise não será decisivo.

Os cubanos “são consultores e assessores fundamentais, mas eu não acredito que eles estejam tomando as principais decisões”, observou David Smilde, especialista em Venezuela da Universidade Tulane de Nova Orleans. Há anos, a Venezuela vem fornecendo petróleo bruto subsidiado para Cuba, cerca de 100 mil barris diários, afirmam especialistas. Cuba refina o excedente e o revende no mercado internacional. Segundo a Brookings Institution, um grupo de pesquisadores dos Estados Unidos, em 2012, a troca de bens e serviços representou 20,8% do Produto Interno Bruto de Cuba.

Entretanto, durante a crise econômica da Venezuela dos últimos anos, as exportações de petróleo bruto para Cuba caíram em razão do colapso da produção. Além disso, o número de profissionais cubanos que trabalham na Venezuela diminuiu consideravelmente, e as relações entre Maduro e a atual liderança cubana não são tão calorosas quanto a amizade dos seus antecessores.

“Certamente, eles são irmãos de armas ideológicos”, afirmou Ted Piccone, pesquisador sênior da Brookings Institution. “Mas não é a mesma amizade de outros tempos. E os cubanos não estão obtendo tudo o que costumavam receber antes”. Entretanto, a aliança persiste. Os assessores políticos ainda são ouvidos pelos altos escalões do governo Maduro, embora Smilde afirme que “os cubanos frequentemente lamentam que Maduro não lhes dê ouvidos”.

Existe uma grande motivação para Cuba apoiar Maduro. Havana corre o risco de perder um importante benfeitor econômico, e um aliado de esquerda em uma região que ultimamente deu uma guinada para a direita. Se Guaidó e a oposição chegarem ao poder em Caracas, “esta, evidentemente, será uma péssima notícia para Havana”, segundo Piccone. “As relações com Cuba mudarão imediatamente”.

Megan Specia contribuiu para a reportagem.

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