Sarah M. Vasquez para The New York Times
Sarah M. Vasquez para The New York Times

Com aumento de impostos, casas de adobe valem muito dinheiro nessa cidade

Impostos deixaram casas de adobe inacessíveis para alguns moradores.

Sasha von Oldershausen, The New York Times

13 Dezembro 2018 | 06h00

MARFA, TEXAS - O adobe é um dos mais antigos materiais de construção conhecidos pela humanidade, especialmente em regiões áridas, como o sudoeste dos Estados Unidos. O material - terra, palha e água prensadas e secas ao sol - sempre foi abundante e, acima de tudo, barato.

Em Marfa, graças aos aposentados e donos de casas de veraneio que migraram para este pretensioso posto avançado no deserto do oeste do Texas, o adobe também virou moda, um material de construção condizente com a mistura cultural da cidade e a estética do deserto. Mas, para muitos dos residentes mais antigos, a gentrificação deixou a vida em uma casa de tijolo de adobe bastante cara.

Pressionados para elevar as receitas do Texas, os fiscais do Condado de Presidio perceberam que as casas de adobe de Marfa estavam sendo vendidas a peso de ouro e, então, aumentaram seus valores de avaliação em 2017, apenas três anos depois de uma reavaliação em toda a cidade. Isso significou dois grandes aumentos de impostos, não apenas para os proprietários das imensas casas de adobe em alto padrão, com piscinas no quintal, mas também para centenas de moradores de residências mais modestas e castigadas pelo clima, amontoadas no sul de Marfa, onde historicamente vive a maioria da população hispânica.

“Por que você vai taxá-los por usar o material de construção mais barato que eles poderiam conseguir?”, disse Sam Martinez, 58 anos, cuja família é proprietária de uma casa de tijolo de adobe construída no século 19. Por toda a cidade, as autoridades fiscais "enfiaram a faca" no adobe. Uma casa de tijolo de adobe com dois quartos, forro de metal e piso laminado, com mais de cem anos de construção e encravada entre duas casas muito maiores, viu seus impostos anuais subirem de 905 dólares para 3.003 dólares nos últimos cinco anos.

Os impostos sobre uma casa de um quarto no extremo sudeste da cidade, com um barracão de metal no quintal, subiram de 319 dólares para 1.953 dólares. No ano passado, proprietários de 448 das 530 casas de adobe de Marfa - ou seja, 85% - protestaram contra o aumento nas avaliações. Alguns deles receberam ajustes, mas não Maria Flores, faxineira de 57 anos. 

Ela viu seus impostos subirem para 1.050 dólares este ano, em comparação com 752 dólares cinco anos atrás. O conselho de avaliação disse que, por causa das melhorias que ela fizera - uma camada de tinta e uma cerca nova -, o imposto não seria reduzido. Nascida de uma parada de reabastecimento de água na ferrovia entre Galveston, Harrisburg e San Antonio, Marfa era uma cidade pacata e ficou isolada até a década de 1960. A maioria das casas de adobe existentes ficava no lado sul dos trilhos, sem encanamento nem eletricidade.

“No meu tempo, todos os hispânicos moravam em casinhas de tijolo de adobe”, disse Rito Rivera, 78 anos, que ainda mora em uma dessas casas. “Os americanos eram fazendeiros - caubóis e donos de terras - e podiam comprar material melhor”. A avaliação do preço de sua casa de tijolo de adobe subiu de 39.770 dólares há cinco anos para 104.660 dólares este ano. Rivera recentemente descobriu que tinha câncer de próstata, notícia ruim que veio com um lado bom: segundo a lei estadual, a doença possibilitou que ele tivesse isenção de imposto por invalidez. Mas as contas de uma casa de adobe que sua esposa herdou da família aumentaram de 1.170 dólares para 1.925 dólares em cinco anos.

O destino de Marfa e das casas de adobe mudou quando o escultor Donald Judd chegou na década de 1970 e transformou seus amplos horizontes em um vasto ateliê ao ar livre. Marfa se tornou importante no mundo da arte, pessoas de longe viajavam pelo deserto só para vê-la, e os preços das coisas começaram a refletir os das cidades de onde vinham.

A cidade se agarra ao ritmo lento da vida rural e, ao mesmo tempo, mantém a sensibilidade cosmopolita que Judd trouxe consigo. No centro há pequenas galerias, estúdios e restaurantes com menus sazonais. Com menos de 2 mil habitantes fixos, Marfa não tem mecânico, mas conta com uma estação pública de rádio, e a livraria Marfa Book Company possui uma seção de arte que rivaliza com as lojas especializadas de Nova York. Martinez chegou a fazer tijolos de adobe enquanto trabalhava no projeto de construção do Capri, um bar e restaurante.

“As pessoas falavam, de brincadeira: ‘Sam é de Marfa, mas não tem mais grana para morar lá’”, disse Martinez. Agora, disse ele, a brincadeira virou realidade: seus impostos subiram de 678 dólares em 2016 para 967 dólares este ano. E, com 4 mil dólares em impostos atrasados, ele colocou a casa de três quartos à venda, por 150 mil dólares.

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