Com bênçãos do Vaticano, empresário leva brilho e glamour à Capela Sistina

Com bênçãos do Vaticano, empresário leva brilho e glamour à Capela Sistina

O produtor Marco Balich, conhecido pelos espetáculos dos Jogos Olímpicos de Sochi, recriou uma das grandes obras-primas mundiais

Elisabetta Povoledo, The New York Times

23 Março 2018 | 15h00

ROMA - A música cresceu de volume, enquanto nuvens divinas começaram a se desfazer e raios luminosos cortaram o teatro. E então, tudo parou.

O diretor artístico do espetáculo, Marco Balich, esperou pacientemente. "O que houve??", perguntou à produtora de criação.

"Falta de energia", respondeu a produtora, Stefania Opipari. Posteriormente, ela explicou que era a primeira vez que todos os lasers, projetores e efeitos especiais da produção multimídia, "Universal Judgment: Michelangelo and the Secrets of the Sistine Chapel" (Julgamento universal: Michelangelo e os segredos da Capela Sistina), eram ativados ao mesmo tempo. "Já consertamos", disse ela.

Faltavam apenas dias para a estreia de "Universal Judgment", mas era difícil perceber se Balich, que também é produtor do espetáculo, estava nervoso. Ele tinha apostado muito na produção, que estreou em 15 de março. Alugou o antigo salão sinfônico da capital por pelo menos um ano. Em caso de sucesso, essa se tornaria a primeira produção teatral permanente de Roma.

O Vaticano aprovou o projeto, sob a condição que este respeitasse os valores artísticos, religiosos e espiritual representados pela Capela Sistina. Os Museus do Vaticano, que abrigam a Capela Sistina, ofereceram reproduções digitais de alta definição dos afrescos do salão a preços mais baixos porque reconheceram o valor educativo do projeto. Balich teve de criar algo capaz de encantar os romanos (que, cercados pela beleza, relutam em pagar por ela), turistas, cardeais e adolescentes. Fez um investimento particular de € 9 milhões, ou cerca de US$ 11 milhões, além dos anos de planejamento.

Balich também teve de convencer os conservadores da arte da Itália, tradicionalmente céticos, de que sua intenção não era interferir nas visitas à capela com uma combinação reluzente de teatro, balé e muitas, muitas firulas. "A Itália tem críticos de arte muito conservadores", comentou.

"Quando eles dizem, ‘Não queremos nada parecido com a Disney’, eu respondo, ‘Disney era um gênio, qual é o problema nisso?’", acrescentou Balich.

Um dos críticos culturais mais respeitados da Itália, Tomaso Montanari, descreveu os efeitos exagerados como "Viagra visual", indagando se eles não seriam "mais um espelho do presente do que um meio de compreender melhor o passado".

A fusão musical entre os Museus do Vaticano, que preservam um dos acervos artísticos mais grandiosos da humanidade, e Balich, mais conhecido como criador de espetáculos exagerados, entre eles a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Sochi, em 2014, as cerimônias dos jogos de Turim em 2006 e a celebração do 550.º aniversário do Casaquistão, não foi uma parceria óbvia.

O papa Francisco é conhecido por seu estilo mais despojado, mas o Vaticano não está acostumado a dividir os holofotes com Sting, que compôs o tema principal do espetáculo, como ocorre no programa deste. Mas Balich acredita que sua experiência anterior com os Jogos Olímpicos o favoreceu. "O Vaticano compreendeu que nosso trabalho sempre envolve a celebração de valores", explicou.

Balich disse que queria "colocar a gramática das olimpíadas a serviço da Capela Sistina, que é uma das referências da humanidade".

Com duração de uma hora, o espetáculo não tenta conquistar, disse Balich. Em vez disso, a produção é mais uma meditação a respeito da relação de Michelangelo com sua criação, e com a criação como um todo. "A ideia é capturar o espírito entre o artista e sua obra-prima", disse Lulu Helbek, codiretora do espetáculo.

"É como um agradecimento a uma obra-prima como a Capela Sistina", acrescentou Fotis Nikolaou, coreógrafo da apresentação.

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