Jim Wilson/The New York Times
Jim Wilson/The New York Times

Com carência da mão de obra imigrante, fazendas recorrem a robôs

Indústria agrícola buscou alternativa à diminuição da oferta de trabalhadores imigrantes

Miriam Jordan, The New York Times

21 de dezembro de 2018 | 06h00

SALINAS, CALIFÓRNIA - Abel Montoya se lembra dos tempos de menino, quando seu pai voltava para casa todas as noites exausto do trabalho nos campos de alface, com barro endurecido nas calças. “Papai queria que eu ficasse longe do trabalho pesado”, disse Montoya. “Queria que eu ficasse com os livros”. E assim ele fez e, anos mais tarde, entrou na faculdade.

Mesmo assim, Montoya, 28 anos, filho de imigrante, acabou de aceitar um emprego em uma fábrica de empacotamento de alface. Agora, porém, ele pode delegar alguns dos piores trabalhos aos robôs. Montoya faz parte da nova geração de trabalhadores rurais da Taylor Farms, uma das maiores produtoras de vegetais frescos do mundo, que recentemente revelou sua frota de robôs projetados para substituir humanos - uma das respostas da indústria agrícola à diminuição da oferta de mão de obra imigrante.

As máquinas podem montar de 60 a 80 embalagens de salada por minuto, o dobro da produção de um trabalhador. A utilização de robôs começou a fazer sentido econômico, disseram funcionários da Taylor Farms, quando a empresa não conseguiu mais recrutar pessoas suficientes para trabalhar nos campos ou nas fábricas.

Uma década atrás, as pessoas faziam filas quilométricas em busca de empregos nas fábricas de empacotamento da Califórnia e do Arizona durante a colheita de alface. Esse tempo acabou. “Nossa força de trabalho está envelhecendo”, disse Mark Borman, da Taylor Farms. “Não estamos atraindo jovens. Não estamos recebendo fluxos de imigrantes. Como lidamos com isso? Inovação”.

A tecnologia cria posições de alta qualificação que atraem jovens como Montoya, que está terminando o curso de ciência da computação, e ajuda a manter funcionários veteranos, que recebem treinamento para avançar na carreira. Em uma pesquisa com agricultores realizada em 2017 pela Federação do Departamento de Agricultura da Califórnia, 55% relataram escassez de mão de obra. Entre os que dependem de trabalhadores sazonais, o número chegou a 70%. Aumentos salariais não contornaram o déficit, disseram os produtores.

As lavouras de morango na Califórnia, os pomares de maçã em Washington e as fazendas de leite em todo o país tentam lidar com uma força de trabalho que encolheu, envelheceu e nasceu no exterior; com restrições mais duras nas fronteiras; e com o fracasso do Congresso em elaborar uma reforma da imigração que poderia fornecer uma fonte mais estável de trabalho imigrante.

Cerca de 75% dos trabalhadores nas plantações dos Estados Unidos nasceram no exterior, a grande maioria não tem documentos de legalização. Produtores de muitos estados recorreram ao programa de trabalhadores convidados H-2A para importar mão de obra do México. Mas eles reclamam da burocracia do governo, que atrasa o processo, e do clima imprevisível, que pode fazer com que os frutos amadureçam prematuramente, antes da data programada para a chegada dos trabalhadores.

Idealmente, dizem os produtores, o Congresso deveria aprovar um projeto de lei para legalizar os trabalhadores rurais não documentados que já estão no país, incluindo medidas para garantir um fluxo constante de trabalhadores sazonais. A indústria agrícola da Califórnia, que gera 54 bilhões de dólares, não pode esperar mais. O estado está liderando a transição para automatizar os campos e as fábricas empacotamento.

Cerca de 60% da alface romana e metade de todo o repolho e aipo produzidos pela Taylor Farms são colhidos por sistemas automatizados. Ela fez uma parceria com uma empresa de inovação - que, até então, se concentrava na montagem automatizada de veículos - para desenvolver uma máquina para a colheita de brócolis e alface.

A empresa planeja dobrar o número de colheitadeiras automatizadas, que custam cerca de 750 mil dólares cada, até que quase tudo possa ser colhido a máquina. Lavouras de trigo, soja e algodão utilizam automação há muito tempo. Frutas delicadas, como os pêssegos, assim como vegetais como espargos e erva-doce, continuarão exigindo trabalho manual até onde se pode prever.

“Serão necessários muitos anos para desenvolver uma tecnologia que possa saber o momento certo de colher nossos produtos, sem estragá-los”, disse Tom Nassif, da Western Growers, associação que representa interesses agrícolas no Arizona, Califórnia, Colorado e Novo México.

Mas, diante dos desafios da mão de obra, “é uma solução de longo prazo que deve ser buscada com vigor”, disse Nassif, cuja associação abriu um centro de inovação em Salinas, há dois anos, para fomentar a criação de tecnologia agrícola. Atualmente, nove robôs estão em uso na fábrica de processamento de Salinas; a maior parte do trabalho ainda é realizada por humanos.

“Vamos receber mais robôs”, disse Marissa Gutierrez, gerente de recursos humanos. “Mas sempre dependeremos do trabalho humano, mesmo quando automatizamos tudo”. No centro de treinamento que fica ao lado da fábrica, Montoya e outros 15 funcionários tiveram aulas de programação, engenharia e operação de equipamentos. “A tecnologia vai avançar muito na agricultura”, disse ele. “E isso vai abrir oportunidades para mim”. 

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