Tasneem Alsultan para The New York Times
Tasneem Alsultan para The New York Times

Com casamentos no Chipre, israelenses e libaneses superam diferenças

Casais de Israel e Líbano convivem pacificamente no Chipre, destino procurado por quem busca casamentos sem uma autoridade religiosa

Ben Hubbard, The New York Times

03 Agosto 2018 | 10h15

LARNAKA, CHIPRE - Eles comem falafel, vivem no Mediterrâneo e temem que uma nova guerra tenha início no fronteira hostil que os separa. Mas muitos israelenses e libaneses compartilham outra coisa: o desejo de burlar suas respectivas autoridades religiosas na hora do casamento.

No Líbano e em Israel, apenas líderes religiosos podem realizar casamentos e, assim, os amantes que não desejam o envolvimento religioso precisam fazer seus votos de matrimônio em outro lugar.

Isso trouxe muita prosperidade para Larnaka, uma ensolarada cidade de praia na costa sul do Chipre, onde as autoridades municipais oferecem casamentos rápidos no civil para quem os solicitar, apresentar os documentos necessários e pagar a taxa.

Como a maioria dos que procuram essas vantagens vem de Israel e do Líbano, a repartição de casamentos é responsável por aproximar os dois lados de um dos cismas mais profundos do Oriente Médio - de maneira acidental.

Num dia qualquer, amantes dos dois países inimigos permanecem juntos, parabenizam uns aos outros, formam a mesma fila e, às vezes, conversam de maneira improvisada no café municipal enquanto aguardam.

"De onde vocês são?", indagou uma noiva libanesa aos convidados de uma festa de casamento certa manhã.

"Israel", respondeu um convidado da festa. Os olhos da noiva se arregalaram. Ela murmurou que vinha do Líbano.

"Ahlan wa sahlan", disse o israelense, que, em árabe, significa "bem-vindos".

"Vão se casar hoje? Felicidade e boa sorte!", disse a noiva israelense.

Posteriormente, o casal libanês pediu que seus nomes não fossem revelados por medo de represálias jurídicas ao voltarem ao próprio país, onde as interações com israelenses podem ser tratadas como crime.

As autoridades de Larnaka têm consciência sobre a tensão entre Israel e Líbano, mas dizem que isso nunca causou problemas na repartição de casamentos.

"Nossa cidade é neutra", disse Georgios Lakkotrypis, integrante da câmara de vereadores de Larnaka e que também atua como voluntário nos casamentos. "Será efeito do clima? Será o sol? Não sei, mas todos ficam felizes".

O Chipre deve às condições geográficas, econômicas e jurídicas sua ascensão à condição de procurado destino internacional para casamentos. Os aeroportos recebem voos vindos diretamente de cidades de toda a Europa e Oriente Médio, os preços são bons e a lei permite que estrangeiros se casem sem o envolvimento de sacerdotes. Além disso, as praias e os numerosos hotéis são incentivos para que os casais já comecem a lua de mel logo em seguida.

Durante um casamento libanês, um grupo de israelenses aguardava no fundo do salão e as duas festas trocaram congratulações enquanto se cruzavam.

Posteriormente, o noivo israelense, Avner Dvir, disse, "Para mim, é importante conhecer melhor meus vizinhos, pois sinto que faço parte da região e não quero ser um desconhecido". 

"Estamos muito próximos e a maioria de nós torce pela paz", disse sua noiva, Karem Magdasi.

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