Bryan Denton para The New York Times
Bryan Denton para The New York Times

Com desaceleração da economia, China enfrenta ativismo trabalhista

Protestos de operários chineses aumentam com pior resultado econômico das últimas décadas

Javier C. Hernández, The New York Times

15 de fevereiro de 2019 | 06h00

PEQUIM - Operários de fábricas chinesas estão organizando paralisações exigindo os salários devidos. Motoristas de táxi cercaram escritórios do governo exigindo tratamento melhor. Operários da construção civil ameaçam pular de edifícios se não forem pagos. Com o crescimento chinês no ritmo mais lento observado em quase três décadas, milhares de trabalhadores chineses estão organizando protestos de pequena escala para combater os esforços das empresas para atrasar pagamentos e cortar horas de trabalho. As autoridades responderam com uma campanha contínua para conter os protestos.

Essas manifestações são um exemplo claro dos desafios que a forte desaceleração econômica traz para o principal líder chinês, Xi Jinping, que promove agressivamente o “sonho chinês", sua visão particular de uma sociedade mais rica e justa. “Ninguém se importa mais conosco", disse Zhou Liang, 46 anos, que participou de uma manifestação em Shenzhen no mês passado, do lado de fora de uma fábrica de eletrônicos que ele acusa de dever-lhe mais de 3 mil dólares. “Sacrifiquei minha saúde pela empresa, e agora não tenho dinheiro nem mesmo para um saco de arroz.”

O grupo de defesa dos trabalhadores China Labour Bulletin, em Hong Kong, registrou pelo menos 1,7 mil disputas trabalhistas no ano passado, um aumento em relação aos cerca de 1,2 mil casos do ano anterior. Esses números representam apenas uma fração das disputas, já que muitos conflitos ficam à margem das autoridades.

As autoridades detiveram mais de 150 pessoas desde agosto, incluindo professores, motoristas de táxi, operários da construção civil e estudantes esquerdistas que lideravam uma campanha contra abusos trabalhistas nas fábricas. Desde os dias de Mao Tsé-tung, a reputação do Partido Comunista se apoia na ideia da proteção aos trabalhadores, mas um número cada vez maior destes responsabiliza funcionários do partido por não fazerem mais no sentido de defender seus direitos.

Os especialistas alertam que a confiança do público no partido pode ser afetada se Xi não fizer mais para apoiar os trabalhadores. “Se os professores se recusarem a trabalhar, se os caminhoneiros pararem de fazer entregas, se os operários da construção interromperem as obras de infraestrutura, será difícil pensar em sonhos", disse Diana Fu, professora assistente de política asiática na Universidade de Toronto.

Manifestações de operários são comuns na China, e, para evitar confrontos prolongados, as autoridades locais costumam pressionar as empresas a resolver os conflitos. Mas, num momento econômico mais difícil, talvez essas empresas se mostrem menos dispostas (ou capazes) de fazê-lo.

Na ausência de sindicatos independentes, tribunais ou veículos de mídia aos quais recorrer, alguns trabalhadores estão apostando em medidas extremas para a solução de disputas. O ajudante de obras Wang Xiao, 33 anos, cansou de apelar aos chefes para que lhe pagassem mais de 2 mil dólares em salários devidos. Assim, ele se voltou para as redes sociais, ameaçando pular do alto da sede da empresa encarregada de supervisionar o projeto.

“Se eu chegar ao teto do edifício e fizer um escândalo, eles me pagarão mais rapidamente", disse ele (Wang não levou a cabo sua ameaça). Os ativistas tiveram algum sucesso organizando protestos de alcance provincial. No ano passado, operadores de guindaste organizaram uma greve que envolveu dezenas de milhares de operários em pelo menos 10 províncias.

Mas, num momento de incerteza econômica e crescente tensão com o Ocidente, Xi enfatizou a estabilidade social acima de qualquer coisa. Numa reunião de “prevenção de riscos” no mês passado, ele pediu às autoridades que dobrassem os esforços para ampliar o controle ideológico e social.

Xi buscou reprimir particularmente uma retomada do ativismo trabalhista nos campi universitários, incluindo uma campanha pelos direitos dos trabalhadores liderada por jovens comunistas das universidades de elite. Os ativistas usaram os ensinamentos de Mao e Marx para dizer que a adoção do capitalismo na China resultou na exploração dos trabalhadores.

As autoridades fizeram repetidas tentativas de sufocar os protestos, resultando no desaparecimento e detenção de mais de 50 pessoas. A resposta oficial aos estudantes foi tão dura em parte porque suas exigências são ideológicas, e não materiais, disse a professora Fu. “Para o governo, uma crítica ao partido por não ser devidamente marxista é como pais serem denunciados publicamente pelos filhos", disse ela. “Isso é visto como um gesto intencionalmente desafiador e uma rejeição do socialismo conduzido pelo estado.”/Albee Zhang contribuiu com a reportagem.

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