Al Drago / The New York Times
Al Drago / The New York Times

Com fim do acordo nuclear, inimigos do Irã veem uma oportunidade. Para outros, o risco de guerra

Segundo analistas, chance de confronto militar não deve ser descartado

Ben Hubbard, The New York Times

16 Maio 2018 | 15h15

BEIRUTE, Líbano - Depois que os Estados Unidos derrubaram a ditadura do Iraque em 2003, o Irã enviou armas para as milícias e apoiou partidos políticos daquele país, atraindo o Iraque para a sua órbita.

Quando os levantes da Primavera Árabe, no início desta década, confrontaram violentamente os governos da Síria e do Iêmen, o Irã enviou combatentes e apoiou as milícias. No caos que se tornou a guerra civil da Síria, o Irã aproveitou a oportunidade para criar uma infraestrutura militar naquele país.

Em 2015, o presidente Barack Obama ofereceu ao Irã o que poderia ter sido a sua maior oportunidade: negociar o seu programa nuclear em troca do fim das sanções que asfixiaram a economia iraniana.

Agora, o presidente Donald J. Trump, Israel e as monarquias da Arábia Saudita no Golfo Pérsico pretendem mudar tudo isto. No dia 8 de maio, Trump retirou os Estados Unidos do acordo nuclear internacional com o Irã, impondo novas sanções americanas e ameaçando com mais punições.

Agora, volta a ser ventilada em Washington a possibilidade de uma mudança de regime da qual não se ouvia falar desde que o presidente George W. Bush definiu o Irã como integrante do “eixo do mal”, em 2002. Entretanto, não está absolutamente claro se o fato de os Estados Unidos terem saído do acordo limitará o que Trump e os seus aliados consideram como o risco de o Irã promover a subversão na região.

“Se pretendemos enfrentar o Irã e acabar com a rede iraniana, o que iremos colocar sobre a mesa?” indagou Ramada Slim, analista do Instituto do Oriente Médio em Washington. “E se o Irã ganhou influência e lucrou com estas realizações, qual será a sua reação?”

O Irã criou o que chamou de “eixo de resistência”, que se estende pelo Iraque, a Síria até o Líbano. 

As forças iranianas ou as milícias aliadas agora se encontram praticamente às portas de Israel e da Arábia Saudita.

Os Estados Unidos, Israel e os países do Golfo uniram-se em sua oposição ao Irã. Mas a sua capacidade de fazer frente ao alcance do poderio deste é limitada.

Por outro lado, os Estados Unidos hesitam em envolver-se em novas guerras no Oriente Médio.

Os países do Golfo, liderados pela Arábia Saudita, gastaram bilhões em armas ao longo dos anos, mas ainda não provaram que podem usá-las com eficiência. Eles atolaram em uma guerra aérea contra os rebeldes alinhados com o Irã no Iêmen, e sua dependência da diplomacia do talão de cheques deixou-os com escassa influência no Líbano, Síria e Iraque.

Por sua vez, o Irã encontrou maneiras criativas de alimentar relações estratégicas que não exigem grandes gastos militares.

Isto faz com que Israel, disponha de um exército potente, mas uma escassa capacidade de formar alianças com os países árabes.

A manifestação mais recente desde que Trump abandonou o acordo nuclear ocorreu no dia 10 de maio, quando forças iranianas na Síria dispararam foguetes contra Israel e aviões israelenses bombardearam alvos militares iranianos na Síria.

Segundo os analistas, nenhuma das partes pretendia uma escalada em uma guerra total, que poderia degenerar rapidamente em uma conflagração envolvendo toda a região. Mas o risco de uma guerra mais ampla não deve ser descartado.

Como o Irã é um país persa liderado pelos xiitas, constitui uma minoria étnica sectária em uma região árabe predominantemente sunita. Menosprezado internacionalmente desde que um governo islâmico revolucionário tomou o poder em 1979, não tem acesso a armas ocidentais. E a fraca economia do país implica que seus inimigos regionais dispõem de uma capacidade muito superior para adquirir armas convencionais.

Entretanto, o Irã investiu onde pôde: estabelecendo relações com sub-Estados que compartilham do seu credo xiita e a mesma condição de país desfavorecido.

O protótipo desta estratégia foi o Hezbollah, o movimento que membros das Guardas Revolucionárias Islâmicas do Irã ajudaram a criar no Líbano, no início dos anos 80.

O apoio ao Hezbollah conferiu ao Irã um meio de combater os israelenses perto da fronteira setentrional de Israel, e posteriormente deu-lhe a possibilidade de interferir na política libanesa.  

Desde então, o Hezbollah cresceu tornando-se uma força regional por direito próprio.

Outro aspecto do poderio do Irã é constituído por aquilo que os inimigos  definem como as suas aspirações, e a capacidade de construir uma bomba nuclear - arma que o Irã sempre negou  querer, apesar das evidências de que o país realizou pesquisas com o objetivo de fabricar a bomba.

No acordo nuclear de 2015, o Irã reiterou sua promessa de nunca “buscar, desenvolver ou adquirir qualquer arma nuclear”. Até o momento, o país tem afirmado que pretende ater-se ao acordo, não obstante a retirada dos americanos.

Agora, embora alguns membros da hierarquia iraniana queiram preservar o acordo nuclear, mesmo sem os Estados Unidos, alguns prometeram ir até o confronto.

“A resistência é a única maneira de fazer frente a estes inimigos, e não a diplomacia”, afirmou Hossein Salami, vice-líder da Guarda Revolucionária Islâmica. “A saída do acordo e suas preocupações com a fabricação de mísseis do Irã não passam de desculpas para subjugar a nossa nação”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.