Dan Kitwood / The New York Times
Dan Kitwood / The New York Times

Com indefinição do Brexit, eleitores perdem a fé na democracia

Enquanto divisões do governo britânico pleiteiam controle da saída do país da União Europeia, o eleitorado que apoiou a medida está arrependido 

Ellen Barry e Benjamin Mueller, The New York Times

04 de abril de 2019 | 06h00

LONDRES - Recentemente, enquanto dois membros do Parlamento interrompiam um debate sobre o Brexit para se provocarem reciprocamente a respeito das escolas da elite que haviam frequentado 40 anos antes, Eve Alcock, de 23 anos, olhava a cena com uma profunda aversão. O universo do Parlamento da Grã-Bretanha - seus estéreis códigos de conduta, sua linguagem misteriosa, pomposa, as reuniões de amigos dos tempos de Oxbridge - parecia distante da realidade da crise nacional do Brexit, processo que deveria desenredar o país da União Europeia.“Estamos no meio de uma emergência nacional, e aqui, na Câmara dos Comuns, uns garotos batem boca a respeito de quem frequentou a melhor escola”, disse. “Parece que vivem em uma realidade alternativa".

Enquanto as facções do governo britânico brigavam pelo controle da saída do país do bloco, o clima entre o eleitorado foi ficando sombrio. Os britânicos que desejavam permanecer são lembrados diariamente de que  uma mudança nacional histórica e arriscada está sendo posta em marcha contra a sua vontade e a sua opinião. O que mais impressiona é o profundo cinismo dos que votaram pela saída, o grupo que a primeira-ministra Theresa May tenta satisfazer. Agora, eles estão igualmente amargurados e decepcionados, porque, com a paralisia do governo, o que está se questionando é se a Grã-Bretanha chegará de fato a sair. A rejeição do plano de saída da primeira-ministra, no dia 29 de março - pela terceira vez - pelo Parlamento significa que a turbulência irá continuar.

Em entrevistas, ninguém acredita que o governo represente os interesses gerais da nação. Ninguém está satisfeito. Ninguém tem mais esperança. Tudo isto não representa senão o esvaziamento da confiança na própria democracia. “Acho que as instituições centrais do governo não chegaram a ser desacreditadas a este ponto no período do pós-guerra”, comparou William Davies, que ensina na Universidade de Londres. “Há uma sensação de ‘fin-de-siècle’, como se a moderna política britânica tivesse perdido o rumo”, disse Davies, autor do livro Nervous Stgates: Democracy and the Decline of Reaso. “Talvez a melhor solução para sair disso seja o reconhecimento de que o povo quer simplesmente que as elites políticas saiam de cena. Não sei quem ele gostaria de colocar em seu lugar".

Há pouco mais de sete anos, a Grã-Bretanha se apresentava ao mundo como um país pós-imperial, confiante, que olhava para fora. A cerimônia de abertura das Olimpíadas de 2012 - em que apareceu um rebanho de ovelhas, um pequeno trecho da música dos Sex Pistols e um sketch com a Rainha Elizabeth chegando de paraquedas - sugeria um país aliviado da nostalgia de um passado mais disciplinado.

A pergunta do referendo dividiu a Grã-Bretanha em tribos guerreiras, incapazes de concordar com uma visão comum do futuro. Uma democracia de longa estirpe, vigorosa, geme sob o peso de reivindicações conflitantes - em relação ao executivo, para que realize a vontade do povo; e em relação aos membros do Parlamento, para que aja, segundo elas, no interesse do povo.

Nesta situação, o país poderia ter-se unido no ressentimento contra a União Europeia, que prometeu tornar dolorosa a saída da Grã-Bretanha. Mas os britânicos estão culpando seus próprios líderes. “Acho que o povo perdeu totalmente a confiança na democracia, na democracia britânica e na maneira como ela é conduzida”, afirmou bombeiro Tommy Turner, de 32 anos. No Hare & Hounds, um bar popular no Surrey, onde ele se encontrava, quase todo mudo votou pela saída da União Europeia. Entre os seus amigos, ele disse que percebia uma profunda sensação de terem sido traídos quando a Grã-Bretanha não saiu no dia 29 de março, conforme prometido.“O tempo está acabando. O que prejudica mais: sair sem um acordo ou a aniquilação total da fé na democracia?”.

A avaliação que os britânicos fazem dos seus líderes é feroz: 81% afirmam que a Grã-Bretanha conduziu muito mal o processo do Brexit, e 7% afirmaram que foi conduzido bem, segundo dados independentes. Dois anos atrás, as percepções eram 41% negativas e 29% positivas. 

Neil Bligh, de 45 anos, que estava sentado ao lado de Turner, lembrou a sensação de triunfo que experimentara em 2016, quando o seu lado venceu. Mas este sentimento foi substituído por uma sensação de tristeza e descrença à medida que a recompensa prometida de uma Grã-Bretanha do livre comércio foi se afastando. “Agora, ficou como uma dor”.

As opiniões a respeito do Brexit eram quase diametralmente opostas no The Highbury Barn, bar do norte de Londres. Neste bairro, Islington North, no eleitorado do líder trabalhista, Jeremy Corbyn, da oposição, 25% da população assinou uma petição que no dia 1º de abril reuniu seis milhões de assinaturas, pedindo que o governo revogasse a parte do tratado que estabelece os termos da saída da Grã-Bretanha.

Geoff Peddie, de 46 anos, professor de inglês do segundo grau, estava revoltado pelo fato de uma maioria tão reduzida ter desencadeado a crise. “Acho que ninguém deu ouvido às minhas palavras, ou que quase a metade da população sequer foi ouvida”, afirmou. “A maioria essencialmente concordou com os piores elementos da sociedade”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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