Andrew Testa/The New York Times
Andrew Testa/The New York Times

Com medo do coronavírus, milhares de poloneses deixam a Grã-Bretanha

Na Grã-Bretanha, lar de mais de 800 mil poloneses, milhares pegaram voos de volta para casa, preocupados com a lenta resposta britânica à crise

Stephen Castle, The New York Times

01 de abril de 2020 | 06h00

LONDRES – À medida que a epidemia de coronavírus ganhava força, Jaroslaw Bacdorf se angustiva com uma pergunta: ficar em Londres, onde vive e trabalha há oito anos, ou voltar à Polônia, para se juntar à esposa, aos filhos e à mãe. Depois de um telefonema no final do mês passado, ele fez as malas. “Falei com minha mãe e meus filhos”, disse Bacdorf, sozinho num terminal deserto do aeroporto de Londres.

“Minha mãe falou: ‘Volte para casa, você não sabe o que vai acontecer daqui uma, duas, três semanas?’”. Na Grã-Bretanha, lar de mais de 800 mil poloneses, milhares pegaram voos de volta para casa, preocupados com a lenta resposta britânica à crise e com o serviço de saúde deteriorado pelas politícas de austeridade do país.

O voo de Bacdorf foi quase o último a sair antes de o aeroporto de Londres fechar para aeronaves civis, abrindo espaço para os aviões militares que ajudam a equipar um hospital de campanha de 4 mil leitos nas proximidades – símbolo da afobação do governo para enfrentar o desafio.

Em 15 de março, o governo polonês suspendeu os voos internacionais. Também proibiu reuniões de mais de duas pessoas, confinou os cidadãos em casa e limitou as cerimônias religiosas a cinco pessoas. Para chegar em casa, os poloneses estão usando voos especiais de repatriamento, operados pela companhia aérea nacional, LOT.

Nos primeiros cinco dias desse serviço, cerca de 12 mil poloneses o usaram para deixar a Grã-Bretanha, segundo a embaixada polonesa em Londres. Quando a Grã-Bretanha finalmente instruiu as pessoas a ficar em casa, em 23 de março, as empresas fecharam de repente, e muitos poloneses perderam o emprego, principalmente no setor de serviços, o que os deixou com a sensação de que não tinham outra escolha além de voltar para casa.

Para alguns, o vírus tem sido um drama logístico e também psicológico, forçando-os a escolher entre duas identidades. Nascida e criada na Inglaterra, Alina Nowobilska, pesquisadora do patrimônio histórico polonês, passa boa parte do tempo na Polônia, mas se viu em Londres no momento em que a crise estava se agravando.

Ela ficou impressionada com o contraste. “Quando cheguei à Inglaterra, todo mundo estava tipo ‘Não estou nem aí’, e eu pensando: ‘A Polônia já está isolada, as escolas fecharam uma semana atrás, o governo polonês está levando as coisas a sério, todo mundo está ouvindo os conselhos”, ela disse por telefone.

“Na Grã-Bretanha, ainda estavam rolando jogos de futebol, e eu pensava comigo mesmo: ‘Fala sério!’”, ela acrescentou. Os serviços de saúde britânicos também geravam preocupação, disse ela. Embora existam “ótimos médicos” na Grã-Bretanha, ela sentia que o padrão geral da assistência médica era melhor na Polônia. “No voo de volta, as pessoas estavam dizendo que se sentiam mais seguras na Polônia”.

Agora em quarentena em casa, Nowobilska sente que tomou a decisão certa. “Meus amigos ingleses estavam rindo da Polônia, achando que era exagero”, disse ela. “Mas a Polônia tomou as decisões na hora certa. Quem está rindo agora?”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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