Petros Karadjias/Associated Press
Petros Karadjias/Associated Press

Com novo sentido, "tóxico" é a palavra do ano eleita pelo dicionário Oxford

Vocábulo não é mais usado apenas para as substâncias químicas venenosas

Jennifer Schuessler, The New York Times

09 de dezembro de 2018 | 06h00

Aparentemente, o ano de 2018 foi tóxico. Pelo menos, segundo os Oxford Dictionaries, os quais anunciaram recentemente que “tóxico” era a sua palavra internacional do ano. Citações de “tóxico” apareceram desde 1664, mas o dicionário observou que o termo proliferou em diversos contextos, como o dos venenos ambientais e o do discurso político da atualidade.

O mais importante é que o comitê de Oxford disse que “tóxico” reflete o “etos/caráter, o estado de espírito ou as preocupações” de 2018.

Na realidade, várias palavras que entraram no vernáculo oferecem uma visão reveladora do que a sociedade enfrentou em 2018. E em grande parte isto está relacionado às divisões de gênero e à identidade.

Antes de selecionar “tóxico”, Oxford considerou a “masculinidade tóxica”, conceito que veio ganhando notoriedade como parte da denúncia do mau comportamento masculino pelo movimento #MeToo.

Katherine Connor Martin, diretora dos Dicionários dos Estados Unidos de Oxford, disse a “The Times” que, este ano, houve uma explosão do uso da expressão nos veículos de informação e nos blogs, superada apenas por “substâncias químicas tóxicas”. Mas é que o comitê se deu conta de quão difundido o termo “tóxico” se tornara.

“Inúmeras as coisas diferentes estão relacionadas à palavra”, disse Katherine Connor Martin.

Assim como tóxico, outros termos concorrentes no Oxford carregam implicações sociológicas, algumas delas com acepções sexuais.

“Incel”, ou “celibato involuntário”, está associado à misoginia, na sua acepção mais negativa, e foi relacionado a alguns crimes horrendos ocorridos no ano passado.

Depois que um homem jogou uma van sobre uma multidão em Toronto, foi noticiado que ele se identificava com um grupo que se define como os “incels”, homens que culpam as mulheres por negar-lhes o sexo. “A  rebelião dos incels já começou”, postou o suspeito, Alex Minassian de 25 anos, no Facebook, minutos antes de executar o ataque de abril, em que morreram dez pessoas e mais de uma dúzia ficaram feridas.

Em outro incidente, registrado no início de novembro, “The Times” noticiou que Scott Paul Beierle, 40, que também se identificou com os “incels”, matou duas mulheres com uma arma de fogo antes de se matar em uma academia de ioga em Tallahassee, Florida. Beierle criticara asperamente online a rejeição e identificara as mulheres que o haviam ofendido pelo nome.

Como “incel” exprime desprezo pelo sexo oposto, outra palavra nova, “Latinx”, tenta apresentar-se como de maior aceitação, rejeitando totalmente a conformidade de gênero.

Como Concepción de León explicou em sua coluna no “Times”, ‘El Espace’, “Latinx” é usado como um termo mais amplo para a comunidade latina. Ele “pretende ser uma palavra mais feminista, mais inclusiva que também considera as pessoas transgênero ou as que não se identificam com o gênero binário”, ela escreveu.

O Merriam-Webster acrescentou “Latinx” ao seu dicionário em setembro, mas nem todos estão dispostos a aceitá-lo. Lourdes Torres, professora de Estudos Hispânicos da DePaul University de Chicago, disse a “The Times” que a América Latina não fará esta mudança.

“Eles reconhecem que a sua linguagem, como todas as linguagens, é sexista”, afirmou. “Todas as linguagens são sexistas porque nós vivemos ainda no patriarcado, no mundo inteiro”.

Inevitavelmente, porém, novos termos como “Latinx” acabarão sendo introduzidos à medida que a cultura evoluir.

Ed Morales, autor de “Latinx: The New Force in American Politics and Culture”, e professor da Columbia University em Nova York, afirmou: “Eu o considerei um termo futurista, imaginando um futuro de maior inclusão para as pessoas que não se coadunam com  os vários tipos de identidades rígidas que existem nos Estados Unidos”.

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