Stefano Ukmar/The New York Times
Stefano Ukmar/The New York Times
Julie Lasky, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2022 | 05h00

Na virada do milênio, Reid Byers, arquiteto de sistemas de computação, decidiu construir uma biblioteca particular em sua casa em Princeton, Nova Jersey. Encontrando poucos livros sobre arquitetura de biblioteca que não tivessem séculos de idade e não fossem escritos em uma linguagem morta ou bolorenta, ele seguiu o conselho de sua vizinha de frente, a romancista Toni Morrison. "Morrison disse certa vez que se você quer ler determinado livro e ele não existe, é preciso escrevê-lo", lembrou Byers, de 74 anos, em um chat por vídeo em sua casa atual, em Portland, no Maine.

O projeto se estendeu por uma geração e culminou este ano em um livro profusamente ilustrado, repleto de detalhes, com incontáveis citações em latim e, apesar disso, extraordinariamente simples, chamado The Private Library: The History of the Architecture and Furnishing of the Domestic Bookroom (A biblioteca privada: a história da arquitetura e do mobiliário da livraria doméstica, em tradução literal), publicado pela Oak Knoll Press.

A obra chega em um momento ambivalente para os proprietários de livros. Como as perturbações sociais e econômicas da pandemia têm levado as pessoas a se mudar, algumas estão questionando se vale a pena carregar sua coleção. Dados os custos inflacionados dos imóveis e a capacidade dos leitores eletrônicos de armazenar milhares de títulos, quem sabe aquele espaço precioso no chão e nas paredes pudesse ter outros usos?

Lisa Jacobs, fundadora e CEO da Imagine It Done, serviço de organização doméstica na cidade de Nova York, disse que, das centenas de projetos nos últimos anos, ela consegue se lembrar de apenas três pedidos para organizar livros. Em um desses exemplos, os livros arranjados foram tratados como pano de fundo - para ser admirados, mas não lidos. "A clientela que coleciona livros ao longo dos anos não é tão numerosa para nós."

E, no entanto, em uma pandemia, há benefícios claros em ter um santuário privado programado para o escapismo. "A conexão tátil com os livros e a necessidade de locais de refúgio em casa, tanto para o trabalho como para o bem-estar pessoal, tornaram as bibliotecas um foco renovado no design residencial", afirmou Andrew Cogar, presidente da Historical Concepts, empresa de arquitetura com escritórios em Atlanta e Nova York.

Morgan Munsey, que vende imóveis para a Compass, em Nova York, viu como bibliotecas bem cuidadas em casas de alvenaria causaram guerras de lances. "Mesmo quando enceno uma casa, coloco livros nela", contou.

Em The Private Library, Byers explica por que os livros continuam a nos seduzir. Individualmente, eles são, com frequência, úteis ou deliciosos, mas, quando são exibidos em conjunto, realmente fazem maravilhas. Cobrindo as paredes da sala, empilhados até o teto e exalando o sopro de gerações, nutrem os sentidos, matam o tédio e aliviam a angústia. "Entrar na biblioteca de casa deve ser como relaxar em uma banheira de hidromassagem, entrar em uma loja de magia, emergir do poço da orquestra ou entrar em uma câmara de curiosidades, em um clube, em um circo, na cabine de um iate em alto-mar, na casa de um velho amigo. É o início de uma viagem e um retorno ao centro", escreve.

Byers cunhou uma expressão - "embrulhado em livros" - para descrever o conforto estimulante de uma biblioteca bem abastecida. Não se trata de afetação, mas de um empacotamento eficiente de sentidos em um espaço limitado (que, se pensarmos bem, também serve para descrever muitas bibliotecas). Estar rodeado por livros é ser arrebatado por um círculo encantado e experimentar o êxtase de ser transportado para outros mundos.

Assim, quantos livros são necessários para que alguém sinta que está embrulhado em livros? Byers citou a crença comum de que mil exemplares são o número mínimo em qualquer biblioteca doméstica que se preze. Ele rapidamente dividiu esse número pela metade. Quinhentos livros garantem que a sala "começará a parecer uma biblioteca". E mesmo esse número é negociável. Ele contou que a biblioteca que mantinha na cabeceira de seu beliche em um porta-aviões no Vietnã era "muito valorizada, embora provavelmente não tivesse 30 livros".

"Qual o resultado de cinco vezes 40?" perguntou recentemente a chef e ativista alimentar Alice Waters. (A pergunta era retórica.) "Duzentos, 400, 600, 800", ela calculou, aparentemente examinando as estantes ao seu redor e somando o conteúdo. "E provavelmente mais 800", disse ela, referindo-se a outros quartos em seu bangalô em Berkeley, na Califórnia.

Sim, Waters, de 77 anos, que abriu recentemente um novo restaurante em Los Angeles chamado Lulu, está oficialmente embrulhada. Ela possui centenas de livros de receitas, bem como volumes sobre agricultura, nutrição, educação, calamidade ambiental, jardins da vitória, memórias de chefs, terminologia gastronômica francesa, arte, arquitetura, design e ficção. Usa uma escada de biblioteca, porque suas prateleiras são altíssimas. "Mas não sou uma leitora ávida; adoro filmes e gosto de poder pegar um livro, ler uma passagem e me inspirar", explicou.

Leitora ou não, o estilo de leitura picada de Waters é, na visão de Byers, uma das grandes alegrias de possuir uma biblioteca: "A capacidade de navegar entre seus livros gera algo completamente novo. Gosto de pensar nisso como uma cura garantida para o tédio."

É fácil cair em um pântano semântico tentando descobrir exatamente onde uma confusão de livros termina e uma biblioteca começa, mas temos ideias claras de como deve ser uma sala designada como biblioteca. Segundo Byers, você pode agradecer à casa de campo inglesa por isso.

Criadas há quatro mil anos, como "uma pequena sala estranha em modestas casas da Mesopotâmia" que armazenava tabuletas cuneiformes, as bibliotecas alcançaram sua apoteose na Europa Ocidental nos séculos XVIII e XIX como grandes espaços recobertos de madeira, com lareiras, tetos ornamentados, estantes embutidas, cadeiras duras e macias (para uma leitura séria ou descontraída), tapetes felpudos, mesas de jogos, talvez um piano de cauda e portas secretas (pelas quais os criados entravam discretamente para cuidar do fogo da lareira).

"Bibliotecas sempre se referem a bibliotecas anteriores", comentou Byers. Os influenciadores incluem a sala renascentista italiana de 14 metros de comprimento com uma abóbada de berço construída em meados do século XV por Federico da Montefeltro, duque de Urbino, e, em menor grau, o refúgio forrado de estantes do escritor britânico Samuel Pepys, que morreu em 1703. Solicitado a descrever como seria a biblioteca do futuro, Byers mostrou uma foto de um quarto no Castelo de Highclere, na Inglaterra, cenário da série de televisão Downton Abbey.

Na verdade, as bibliotecas particulares seguem tão estritamente as convenções que muitas vezes é difícil dizer à primeira vista quando qualquer uma delas foi concluída - mesmo que aproximadamente. (Dessa forma, as bibliotecas são o oposto das cozinhas, que um olho experiente pode datar dentro de meia década.)

"Muitas vezes é uma sala amadeirada, ou pintada em uma cor mais profunda", observou Gil Schafer III, arquiteto de Nova York, sobre as bibliotecas que ele costuma incorporar em projetos residenciais. (No entanto, quando Schafer adicionou uma pequena biblioteca a seu retiro no Maine, há vários anos, cobriu as paredes com folhas de compensado de carvalho, em vez de painéis tradicionais, para criar um efeito "bonito, mas não extravagante".)

Por outro lado, cômodos destinados a propósitos não literários estão encontrando nova vida como bibliotecas. Schafer não era um radical quando decidiu colocar um sofá, estantes e uma televisão em uma das extremidades da sala de jantar em um de seus projetos. "As salas de jantar podem ser ambientes mortos, em que há apenas uma mesa, cadeiras e nenhum outro uso. Qualquer sala grande fica estranha sem pessoas em número suficiente. Uma sala de estar sem uso parece vazia. Um salão de baile vazio é absolutamente assustador; parece que está esperando desesperadamente que algo aconteça. Uma biblioteca, por outro lado, é agradável quando está cheia, mas especialmente atraente quando vazia", escreveu Byers.

Milhares de livros, de acordo com Byers, representam "delícias em potencial" - a alegria de poder erguer a mão e explorar mundos novos. (Afinal, quem leu todos os livros que tem na biblioteca?) "Gosto de estar em uma sala em que li metade dos livros, e gostaria que houvesse livros suficientes para que eu não pudesse lê-los em meus anos restantes", comentou.

Ainda assim, é possível sonhar com o fim dessa missão, como Byers, que se tornou pastor presbiteriano, aparentemente fez quando escreveu estes versos em volumes de sua coleção:

Este livro pertence ao

Rev. Reid Byers,

Que ainda espera lê-lo

Antes de morrer.

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