James Hill para The New York Times
James Hill para The New York Times

Com retorno dos ícones, miniaturas russas perdem espaço

Arte em miniaturas se vê ameaçada de extinção; artistas mais jovens demonstram pouco interesse

Neil MacFarquhar, The New York Times

26 de julho de 2019 | 06h00

PALEKH, RÚSSIA - Há muito tempo, o pitoresco vilarejo de Palekh conquistou fama e reconhecimento amplo como consequência da sua produção de ícones religiosos. Então, um dia, veio uma revolução, e seus defensores, vociferando que “Deus não existe", proibiram a arte desse tipo.

Centenas de artistas acabaram aprendendo em vez disso a decorar caixas laqueadas, pintando cenas de contos de fadas russos ou versões romantizadas da vida no campo. Essas delicadas miniaturas trouxeram nova fama para o vilarejo. Mas, com o colapso da União Soviética, a renascença da Igreja Ortodoxa russa retomou a pintura de ícones. Agora, a arte em miniaturas se vê ameaçada de extinção.

“A técnica vai se perder", disse Yevgeny A. Sivyakov, 71 anos, miniaturista de muitas realizações. Os artistas mais jovens demonstram pouco interesse, disse ele. “Todos falam no comércio - qual é a razão para criar miniaturas laqueadas quando paga-se bem por ícones e afrescos?”

Incríveis ícones antigos e miniaturas formam o acervo do Museu Estatal de Arte de Palekh. As caixas são adornadas com personagens dos contos de fadas russos - príncipes e princesas, o lendário pássaro de fogo e a feiticeira Baba Yaga - substituindo a Virgem Maria e os santos.

Escurecidas com lama, cada caixa de papel machê traz artes incrivelmente detalhadas. Para pintar os rostos, os artistas costumavam usar pincéis de um único pelo tirado da cauda de um esquilo. A têmpera dava às caixas uma aparência reluzente. Além disso, a tradição de contornar em ouro cada pessoa e animal tornava os detalhes chamativos. Algumas caixas eram reflexo da sua época. Retratos de Lênin deram lugar aos de Stálin e então às cenas de Moscou nos anos 1950 e 1960. Algumas caixas dos anos 1990 mostravam bandidos de agasalho esportivo.

A pintura de ícones em Palekh remonta pelo menos ao início do século 16. A região, situada a cerca de 350 quilômetros a leste de Moscou, atraiu uma comunidade de velhos crentes, que seguem uma forma tradicional da ortodoxia russa. Foram encomendados tantos ícones que o resultado foi o desenvolvimento de uma indústria. Em 1917, havia cerca de 900 pintores de ícones na região.

Quando os ícones foram proibidos, esses artistas ficaram à míngua. Então, Ivan I. Golikov viu uma exposição com caixas pintadas e laqueadas da Ásia do século 18. Em 1924, ele fundou a Oficina de Pintura Russa Antiga em Palekh. Um único coletivo produziu as caixas até a queda da União Soviética, quando falsificações baratas inundaram o mercado e os preços despencaram.

A demanda por peças originais caiu muito. Poucos russos podem arcar com o seu custo, e os colecionadores estrangeiros morreram de velhice. Dos cerca de 600 artistas que moram em Palekh, vilarejo com 4.800 habitantes, apenas cerca de 15 ou 20 se dedicam às caixas laqueadas. Os estudantes passam quatro anos aprendendo a pintar miniaturas e ícones na Escola de Arte de Palekh. A maioria dos cerca de 15 formandos por turma acaba decorando o interior de igrejas, ganhando até US$ 100 por dia, quantia substancial para as zonas rurais. 

Não é incomum encontrar famílias que já tiveram três gerações matriculadas na escola. Algumas, como a família Kukuliev, são ainda mais antigas. O atual patriarca, Boris N. Kukuliev, 83 anos, e a mulher, Kaleria V. Kukulieva, 81 anos, ainda pintam. O filho deles, Nikolai, 53 anos, pinta ícones sob encomenda, enquanto a nora, Oksana, 48 anos, cria miniaturas. 

A neta deles, Polina, 28 anos, também se formou pela escola. Para ela, as tradições estilísticas eram rígidas demais. “A pessoa deve estar em uma posição, e o pombo deve estar em outra", disse ela, comentando que as regras não eram mais flexíveis para as miniaturas.

Assim, ela optou por pintar com aquarela, decorando ocasionalmente o interior de igrejas para ganhar dinheiro. “A aquarela me dá muitas oportunidades de expressão", disse ela. A família abandonou a esperança de que a aquarela fosse apenas uma moda passageira. “O mais importante não é dar prosseguimento à dinastia, e sim a criatividade da pessoa", disse o pai dela. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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