Maxim Shemetov/Reuters
Maxim Shemetov/Reuters
Neil MacFarquhar, The New York Times

22 de junho de 2019 | 06h00

MOSCOU - A televisão tradicional na Rússia, controlada pelo Kremlin, praticamente ignora a banda punk Pussy Riot contrária a Putin, ou Aleksei A. Navalny, a figura mais destacada da oposição. Vamos esquecer toda esta conversa feminista, ou o humor às custas do governo ou da própria Rússia.

“Toda a parte social e política, da televisão é controlada pelo governo”, afirmou Leonid G. Parfenov, um novo âncora que foi proibido de trabalhar na televisão estatal desde 2004 por suas críticas excessivas aos expoentes do poder. “Por essa razão, isto não pode ser considerado telejornalismo - não passa de propaganda, estes são apenas empregados da presidência”.

Por causa das opiniões e dos comentários - particularmente dos que criticam o presidente Vladimir Putin - o YouTube tornou-se a maneira fundamental de atingir o público russo. Ele desafia a televisão estatal como fonte de informação para os jovens. Pussy Riot ganhou fama internacional por sua representação de uma guerrilha em uma catedral de Moscou, que acabou na cadeia. As críticas da banda a Putin, o seu conteúdo notoriamente sacrílego, o fato de ele denegrir até a Mãe Pátria, fizeram com que ela permanecesse praticamente invisível na mídia estatal.

Mas uma entrevista com Nadya Tolokonnikova, uma integrante da banda, de Yuri Dud, aclamado jornalista esportivo que se tornou um astro da internet, teve quase oito milhões de visualizações no YouTube. Dud, 32, atraiu mais de 5,3 milhões de assinantes, principalmente por entrevistar pessoas proibidas de aparecer nos canais da federação, e por fazer aos favoritos do Kremlin perguntas que ninguém na TV estatal ousaria fazer. 

Ele perguntou a Nikita Michalkov, um diretor de cinema conhecido por sua posição nacionalista e pela amizade com Putin, por que o governo financiou os seus numerosos fracassos de bilheteria. Dud entrevistou Navalny logo depois que ele foi impedido de concorrer às eleições presidenciais de 2018. Nem tudo o que ele faz é tão sério; a entrevista mais famosa de Dud, com mais de 24 milhões de visualizações, foi uma longa discussão sobre o pênis com uma jovem que é uma celebridade na Instagram na Rússia.

O próprio Navalny é uma força no YouTube, porque criou os canais abertamente políticos de maior sucesso da nação. Sua reportagem que afirma que Dmitri Medvedev, primeiro-ministro e ex-presidente, amealhou uma fortuna trabalhando no governo, foi visto mais de 30 milhões de vêzes e contribuiu para reunir as maiores manifestações de rua dos últimos anos.

O YouTube atinge mensalmente 82% da audiência dos telespectadores urbanos entre os 18 e os 44 anos, mostrou um estudo recente, mais ou menos o mesmo que os dois principais canais estatais. Uma pesquisa realizada pelo Centro Levada independente, no ano passado, constatou que a maioria dos russos tem a televisão russa como sua principal fonte de informações, com exceção do grupo mais jovem, entre os 18 e os 24 anos.

Alguns espetáculos devem o seu sucesso ao fato de tratarem de temas que os canais federais ignoram ou menosprezam. No canal Nixelpixel de Nika Vodwood, ela fala diretamente para a câmera de questões como sua vida sexual, o combate à violência doméstica, sobre o fato de não depilar as pernas e da masturbação.

Ela diz que o feminismo melhorou a sua vida sexual porque permitiu que ela estabelecesse limites sobre o que deveria e não deveria fazer - um conteúdo inofensivo para os padrões ocidentais, mas muito radical para a mídia russa. Vodwood, 25, recebe ameaças de morte e teme que o seu apoio ao grupo dos LGBT possa criar problemas com as leis da Rússia que proíbem a propaganda gay.

Os defensores da liberdade de expressão temem que a Rússia tente adotar o modelo chinês de forte censura estatal da internet e o Kremlin deu os primeiros passos nesta direção. Mas alguns críticos afirmam que a ameaça principal ao YouTube russo decorre do seu próprio sucesso.

Dinheiro novo, programas e anunciantes ameaçam marginalizar o conteúdo sério, como a política. Celebridades como Xenia Sobchak, estrela da reality TV russa, jornalista e candidata derrotada nas eleições presidenciais, enchem o YouTube com material do tipo dos tabloides.

Mas pelo menos por enquanto, o YouTube apresenta uma variedade muito maior de discussões sobre a Rússia do que a TV estatal. Dud concluiu recentemente uma árdua viagem pela região de Kolyma no Extremo Oriente, outrora conhecida pelos seus cruéis campos de trabalhos forçados, e postou um documentário sobre o que viu. No final do vídeo, assistido por mais de 15 milhões de pessoas em meados de junho, Dud afirmou que os russos não exorcizaram completamente o medo inculcado pelo legado de Stalin. A TV estatal não fomenta este tipo de introspecção.

“Alguns dos que conseguiram chegar ao fim do nosso vídeo”, disse Dud, “dirão: ‘Dud, por que esta fixação em Stalin: Por que você o menciona com tanta frequência?’ ” E responde: “Porque não é algo que pertence ao nosso passado, é o nosso presente”. / Polina Ostrovskaya, Oleg Matsnev e Ivan Nechepurenko contribuíram para a reportagem.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

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