Lena Mucha / The New York Times
Lena Mucha / The New York Times

Na Ucrânia, o combate aos oligarcas e à máfia com bilhões em jogo

Astro de comédias da TV, o novo presidente do país, Volodymyr Zelenski, foi catapultado para a presidência com a promessa de acabar com a rede de dinheiro e influências

Anton Troianovski, The New York Times

01 de fevereiro de 2020 | 06h00

KIEV, UCRÂNIA – Kateryna Rozhkova, primeira vice-presidente do Banco Central da Ucrânia, acabara de aprender a conviver com as centenas de manifestantes que batiam barras de ferro e tambores diante do seu escritório – quando começavam a se reunir todas as manhãs na frente da sua casa.

Pouco antes do Natal,  um conjunto de metais apareceu na sua casa tocando a plenos pulmões uma música de enterro, acompanhando um carro fúnebre puxado por cavalos, e homens com os trajes da Morte, a Ceifadeira.

Os manifestantes encenaram um protesto popular de oposição à corrupção oficial, mas Rozhkova diz que na realidade não era nada daquilo. Segundo ela, foram mandados por um bilionário acusado de fraudar o governo em US$ 5 bilhões que trava uma batalha feroz com o Banco Central. “Quando ocorre este tipo de movimento”, afirmou a vice-presidente referindo-se  ao combate à corrupção, “significa que há uma guerra”.

O cômico Volodymyr Zelenski, astro de comédias da TV, neófito em política, foi catapultado para a presidência da Ucrânia no ano passado com a promessa de acabar com a obscura rede de dinheiro e influências.

Agora, Zelensky, pressionado para cumprir a sua promessa, está descobrindo que na realidade derrotar autoridades e oligarcas corruptos é muito mais difícil do que ridicularizá-los no seu programa de televisão, Servo do Povo.

Os presidentes ucranianos que o antecederam subiram ao poder prometendo combater a corrupção, mas em geral com o objetivo de usar esta encenação para acobertar os próprios negócios escusos, afirmam os ativistas. Se Zelensky conseguir mostrar que é diferente dos líderes do passado, este será o teste definitivo para a sua presidência, e para a viabilidade da Ucrânia como país que pretende aproximar-se cada vez mais do Ocidente.

Zelensky também foi obrigado a lidar com as consequências da campanha de pressão do governo Trump na Ucrânia e o processo de impeachment em Washington em decorrência disto.

No entanto, os ativistas que combatem a corrupção afirmam que podem ver sinais de progresso. O novo procurador geral de Zelensky está modernizando o seu gabinete infestado de corruptos e demitindo centenas de procuradores. As leis aprovadas pela maioria parlamentar de Zelensky  buscam uma revisão do sistema judiciário e a condenação do enriquecimento ilícito de funcionários públicos, hoje considerado crime. O presidente sancionou inclusive uma lei que cria um procedimento para o seu próprio impeachment.

Entretanto, a máfia ucraniana tenta subornar e ameaçar os membros do bloco governista de Zelensky no Parlamento a fim de sabotar a legislação destinada a reprimir o crime organizado, disse um veterano parlamentar, David Arakhamia. “Eles os abordam perto de suas casas e dizem: ‘Nós sabemos onde moram os seus pais’”, afirmou.

Mas o maior desafio de Zelensky é talvez o seu antigo patrocinador, Ihor Kolomoisky, um dos oligarcas que, segundo Rozhkova, é responsável pelas tentativas de intimidação a ela e aos seus colegas.

Kolomoisky promoveu a carreira de Zelensky levando o programa Servo do Povo para o seu canal. Agora, de regresso do exílio voluntario em Israel e na Suíça, ele espera recuperar o controle do banco que o governo tomou dele baseado na acusação de que o oligarca e o seu parceiro de negócios usaram bilhões de dólares do banco.

“Mais do que conseguir o banco de volta, quero punir os culpados responsáveis pelo seu confisco", disse ao jornal The New York Times em novembro. “Os culpados devem ser empalados e a pena de morte deve ser reinstituída para eles”. No entanto, recentemente ele negou ter algo a ver com os protestos contra o banco central.

Zelensky precisa demonstrar aos credores ocidentais da Ucrânia que está firme na sua resolução de condenar as fraudes em grande escala a fim de garantir empréstimos de bilhões de dólares do Fundo Monetário Internacional de que o país precisa desesperadamente

Dmytro Sologub, um vice-presidente do Banco Nacional da Ucrânia, disse que o país no pós-soviético é vulnerável à corrupção, se comparado a outros países europeus da era pós-comunista. “O sistema que estamos tentando mudar agora foi criado e modificado no ao longo de 25 anos”, afirmou Sologub. “Quando tempo ainda será necessário para modificá-lo?”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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