Erin Schaff/The New York Times
Erin Schaff/The New York Times

O que estamos dispostos a pagar para combater a elevação do nível do mar?

Na região de Outer Banks, os proprietários de imóveis terão de pagar imposto com um aumento de quase 50% para proteger suas casas

Christopher Flavelle, The New York Times - Life/Style

03 de abril de 2021 | 05h00

AVON, CAROLINA DO NORTE - Bobby Outten, dirigente do condado nas Outer Banks (uma cadeia de ilhas localizadas próximo à costa da Carolina do Norte), deu duas notícias ruins numa recente reunião com os moradores de Avon. A cidade que tem algumas centenas de moradores, necessitava desesperadamente de US$ 11 milhões para impedir que sua principal estrada fosse inundada. E para pagar pelos trabalhos necessários, o condado de Dary, do qual Avon faz parte, decidiu aumentar o imposto sobre os imóveis em quase 50%.

Muitos moradores concordaram que as medidas a serem tomadas são urgentes. Mas se mostraram muito menos propensos a pagar esse aumento.

As pessoas deram sugestões a Outten sobre quem deveria pagar para proteger a cidade: o governo federal. O governo estadual. O resto do condado. Os turistas. Pessoas que alugam suas propriedades para turistas. Na sua opinião, muitos deveriam arcar com o gasto, menos elas.

Outten respondeu com a mesma mensagem: ninguém virá nos salvar. Temos de contar apenas conosco. “E temos de agir agora”, afirmou.

O risco da mudança climática para a minúscula cidade de Avon é particularmente nefasto – a cidade está localizada num banco de areia dessa cadeia de ilhas na região do Atlântico onde as águas vêm subindo implacavelmente. Mas os moradores enfrentam um problema que começa a repercutir ao longo de todo o litoral dos Estados Unidos, com as águas subindo e as tempestades se intensificando. Qual o preço a pagar para salvar uma cidade, um bairro, uma casa, onde gerações construíram suas vidas?

Comunidades grandes e pequenas buscam respostas diferentes. As autoridades em Miami, Tampa, Houston, São Francisco e outros locais tomaram dinheiro emprestado, aumentaram impostos ou as contas de água para custear os trabalhos para proteger casas, escolas e estradas.

Ao longo das Outer Banks – onde as praias que atraem os turistas vêm encolhendo em mais de quatro metros ao ano em algumas áreas, segundo a North Carolina Division of Coastal Management – outras cidades também aumentaram impostos.

Isto apesar da realidade de que a batalha de Avon deve ser uma luta perdida. No seu ponto mais alto, a cidade está a apenas alguns metros acima do nível do mar, mas muitas casas, como também a principal estrada, ficam ao longo da praia.

“Com base no que já vi, com o aumento do nível do mar em um determinado ponto Outer Banks, da maneira com a região é hoje – deixará de existir”, disse David Hallac, superintendente dos parques nacionais na parte oriental da Carolina do Norte, incluindo o Cape Hatteras National Seashoe, que abrange as terras em torno de Avon. “Quando exatamente isso vai ocorrer, ninguém sabe”.

Hoje, o turismo domina Avon, um vilarejo com lojas de camisetas e mansões erigidas em cedro sobre palafitas de frente para o mar. Algumas quadras mais ao interior da ilha há um grupo de casas mais antigas e modestas, a chamada Village, protegida por árvores de carvalho, cedro e myrica cerífera. É nessa área que a maior parte dos moradores antigos de Avon vive.

A avó de Audrey Farrow cresceu em Avon e conheceu o avô dela quando ele se mudou para a cidade como pescador no final dos anos 1800. Farrow, hoje com 74 anos, vive na mesma propriedade que ela, e sua mãe antes dela, cresceram.

Na varanda de sua casa, Andrey falou sobre como Avon mudou durante todo esse tempo. Os turistas e compradores de casas de veraneio trouxeram dinheiro para a cidade, mas expulsaram os nativos do local.

E o próprio oceano mudou. As águas estão mais próximas, disse ela, e as inundações são constantes. O vento leva as águas para a pequena rua onde ela vive e cobre seu gramado. “Se além disto vem a chuva, então é como se a sua propriedade estivesse na frente do mar”, disse ela.

Na década passada, os furacões causaram estragos avaliados em US$ 65 milhões na rodovia 12, uma estrada com duas pistas ao longo de Outer Banks que liga Avon e outras cidades ao continente. Os governos federal e estadual estão gastando mais US$ 155 milhões para substituir um trecho da rodovia por uma ponte, uma vez que a estrada não pode mais ser protegida contra o oceano. A ilha Hateras já foi evacuada cinco vezes desde 2010.

Autoridades do condado projetaram fazer um alargamento da faixa de areia da praia, trazendo areia do fundo do oceano a alguns quilômetros da costa, arrastando-a para a praia por meio de um duto e construindo uma represa. Mas esses projetos custam dezenas de milhões de dólares e os pedidos de dinheiro federal ou estadual para pagar o trabalho não tiveram resposta.

Assim, o condado começou a usar dinheiro local, dividindo o custo entre duas fontes: a receita vinda da taxa paga pelos turistas e um aumento do imposto imobiliário. Em 2011, Nags Head se tornou a primeira cidade da região de Outer Banks a ter uma nova praia com base nesse projeto. Outros seguiram o exemplo, incluindo Kitty Hawk, em 2017.

Ben Cahoon, prefeito de Nags Head, disse que pagar US$ 20 milhões para reconstruir a praia a cada período de alguns anos é mais barato do que comprar todas as casas de frente para o mar que acabariam engolidas.

Ele acha que serão necessários mais dois ou três ciclos desse projeto, dando à cidade mais 20 ou 25 anos. Depois disso, é difícil saber o que o futuro reserva. “O alargamento da praia é uma ótima solução, desde que você possa se permitir a isto. As alternativas são bem difíceis”. Agora é a vez de Avon. Sua praia vem desaparecendo a uma taxa de quase dois metros por ano em alguns lugares.

Durante a reunião em fevereiro, Outten detalhou as necessidades de Avon. À medida que a praia desaparece, até mesmo uma tempestade sem importância leva a água do mar para a rodovia. No caso de um furacão, a água será suficiente para destruir a estrada, deixando a cidade inacessível durante semanas ou mais.

Em resposta a isso, o condado pretende colocar mais de 764 mil metros cúbicos de areia na praia. O projeto custará entre US$ 11 milhões e US$ 14 milhões e o processo terá de ser repetido a cada cinco anos.

 Falando após a reunião, Outten defendeu o processo de alargamento da faixa de areia, apesar de ser algo temporário. “Não vamos conseguir conter a erosão, acho que só iremos torná-la mais lenta”, disse ele.

Em entrevistas com proprietários em Avon, uma preocupação frequente era como o condado pretendia repartir o custo. As pessoas que são proprietárias de casas ao longo da praia são as que mais se beneficiarão, disse Outten, porque a areia extra impedirá que suas casas acabem caindo no oceano. Mas todos também se beneficiarão com a salvação da estrada.

O condado está propondo cobrar duas alíquotas de imposto. Os proprietários cujas casas estão do lado da estrada pagarão um extra de 25 centavos de dólar para cada US$ 100 do custo calculado da obra – um aumento de 45% sobre o imposto pago atualmente. No caso das casas do lado da enseada, o acréscimo seria um quinto menor.

Sam Eggleston, oculista aposentado, mudou-se para Avon há três anos e comprou uma casa no lado sul da cidade. Ele disse que a rodovia 12 pertence ao estado, portanto o estado deve pagar por sua proteção.

Segundo ele, se o governo quisesse ajudar, deveria pagar as pessoas para mudarem sua casa para outro lugar, uma solução que, na sua opinião, pelo menos seria permanente. “Gastar milhões e milhões de dólares na praia não tem sentido”, afirmou.

O filho de Audrey Farrow, Matthew, pescador, disse estar preocupado com o futuro do lugar onde nasceu e cresceu. Entre as inundações e a demanda por casas de férias, que continua a impulsionar o preço dos imóveis, é difícil ter uma vida boa em Avon. “Eu já venho dizendo aos meus filhos para se mudarem para outro lugar”, disse. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.