Christopher Lee/The New York Times
Christopher Lee/The New York Times
Sandra E. Garcia, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2021 | 05h00

AUSTIN, Texas - "Eu não sabia que era meio dominicana até ficar mais velha. As pessoas me contaram isso como se estivessem me dando uma má notícia", disse a comediante Aida Rodriguez de cima do palco, no Teatro Stateside.

O público riu, mas Rodriguez estava falando sério. Esse é um tema muito pessoal para ela. A ampla gama de identidades latinas nos EUA geralmente se insere na categoria "hispânica", caixinha preenchida na tabela do censo que apaga a riqueza das muitas culturas compreendidas pela palavra. Num país em que os poucos comediantes latinos famosos vêm do Sudoeste, ela quer dar destaque a uma perspectiva caribenha.

Rodriguez tinha três anos quando sua mãe se separou e se mudou de Santo Domingo, a capital da República Dominicana, para Miami. Ela cresceu com o lado porto-riquenho da família, acreditando que era exclusivamente desse país. Foi só este ano, quando reencontrou o pai pela primeira vez desde então, que se reconectou com a cultura dominicana.

Agora, aos 44 anos, usa a comédia para processar partes da vida que estavam fora de seu controle. "É difícil ver coisas que são parte da sua vida, mas das quais você não se lembra muito bem", afirmou Rodriguez em uma conversa no camarim, antes de se apresentar no Festival de Comédia Moontower, em 22 de setembro.

No início deste ano, gravou um especial de uma hora, que está disponível na HBO Max. No programa, fala de sua educação e das dificuldades por que passou, abordando tudo isso sem hesitar. De fato, gravou até mesmo o encontro com seu pai e incluiu trechos no vídeo de uma hora.

As peças começam a se encaixar na carreira de Rodriguez, mas, quando a comediante começou, era mãe solteira de dois filhos, e o standup era mais uma válvula de escape do que uma carreira que pensava seguir: "Eu não tinha dinheiro para pagar o terapeuta."

Em 1998, deixou o marido, ex-jogador de futebol americano dos Chargers, e se mudou de San Diego para Miami. "Voltei para casa por dois anos para me recuperar. Eu não fazia parte daquele mundo."

Ao mesmo tempo, estava trabalhando em um roteiro que apresentou ao Laboratório de Roteiristas de Sundance, workshop no qual roteiristas se juntam a autores experientes que os ajudam a terminar seus manuscritos. Quando foi selecionada como finalista do programa, sentiu que isso era um sinal de que deveria se dedicar à carreira de atriz. Então se mudou para Los Angeles em 2000. Começou a trabalhar em uma empresa financeira entre os trabalhos de atriz e assinou um contrato com uma agência de talentos. "Consegui assinar o contrato muito depressa. Fazia parte da ilusão de que as coisas dariam certo."

Em pouco tempo, os trabalhos como atriz minguaram. Em 2007, começou a se apresentar no Speedy's Comedy Corner, programa de rádio da The Foxxhole, de Jamie Foxx, na Sirius XM. Os participantes do programa criaram um show de comédia para o Teatro Orpheum, em Phoenix, e convidaram Rodriguez para fazer parte do espetáculo.

Foi sua estreia no palco, e fez sucesso. O público riu histericamente durante seu set de cinco minutos. Ela se apaixonou por aquela sensação, mas demoraria muito tempo até conseguir repeti-la. De volta a Los Angeles, conseguiu uma vaga de três minutos para comediantes novos em um show do projeto Chocolate Sundaes, no Laugh Factory. "Foi uma bomba! Fui muito bem nos primeiros minutos, mas depois fiquei pretensiosa."

Depois, agendou outro set de cinco minutos, dessa vez no Comic View: One Mic Stand, espetáculo apresentado por Kevin Hart. Mas não estava pronta. "Quando você está mal, cinco minutos parecem três horas. Percebi que estava imatura e que precisava desenvolver minha arte."

Começou a participar das noites de microfone aberto na Westwood Brewing Company, em Los Angeles. Pouco depois, passou a apresentar um espetáculo semanal no Hollywood Studio Bar and Grill. Depois de dois anos ali, tornou-se apresentadora em outro clube de comédia em San Diego por três anos.

Em 2010, fez a abertura do espetáculo de Paul Mooney no Punchline, clube de comédia em Sacramento. Em 2013, não fazia mais shows de abertura no Punchline; era a atração principal.

Sua grande chance chegou em 2014, quando tentou uma vaga na oitava temporada de Last Comic Standing, reality show de comédia na NBC, que contava com Wanda Sykes como uma das produtoras. Outros comediantes alertaram Rodriguez sobre a armadilha dos reality shows, mas ela achou que não poderia desperdiçar essa chance: "Era um reality show, mas, como latina, era minha única chance. Eu tinha de tomar muito cuidado para não perpetuar estereótipos. Não foi fácil."

Sykes a aconselhou a abandonar suas inibições. "Demora um tempo para você se sentir confortável consigo mesma. Acho que a jornada é difícil, mas, quando você chega lá e percebe que pode fazer isso, a sensação é liberadora e catártica, pura e linda", disse Sykes em uma entrevista.

Rodriguez observou que embora não tenha vencido a competição, esta a ajudou a encontrar uma voz própria. Começou a se apresentar em clubes de comédia famosos em todo o país e em universidades, além de ter feito uma turnê de dez dias em bases militares na Coreia e de ter conseguido um papel em O Comediante, filme de 2016 sobre um comediante idoso, estrelado por Robert de Niro.

Tudo parecia estar se encaixando, mas Rodriguez afirmou que ainda se achava uma impostora. Muitas vezes, sentia que estava trapaceando e que seria desmascarada a qualquer momento. "Eu pensava: continuo me safando." Ainda sentindo que tinha algo a provar - ao menos para si mesma -, mudou-se para Nova York. "Como dizem por aí: 'Você cai na estrada para ficar bom, vai para Nova York para ficar ótimo e depois vai para Los Angeles para ficar famoso'", comentou ela. A cena cômica nova-iorquina a ajudou a se sentir validada. Agora, Rodriguez se apresenta regularmente no Comedy Cellar. "Faço standup lá todo mês, porque é assim que se consegue respeito."

Sua sátira está repleta de temas como raça, religião, conscientização da geração Y e maternidade. "As pessoas começaram a colocar cartazes do movimento 'Vidas Negras Importam' em casa, na época das manifestações. Mas só faziam isso para que ninguém quebrasse suas janelas", disse durante o especial.

Em 2019, Rodriguez foi um dos seis comediantes escolhidos por Tiffany Haddish para participar de sua antologia no Netflix Tiffany Haddish Presents: They Ready. Cada episódio é um especial de 30 minutos de um comediante diferente. Rodriguez voltou às manchetes. Dessa vez, por causa de piadas consideradas homofóbicas.

"Se você quiser conversar comigo para saber se determinada coisa é problemática, estou à disposição. Mas me xingar nas redes sociais e tentar me cancelar, sabendo que já estou no fundo do poço? Sou a comediante que ganha o salário mais baixo. As latinas ganham menos que todo mundo, e o mesmo vale para a comédia", afirmou ela.

Agora, Rodriguez orienta outras comediantes latinas, esperando que elas não caiam em outras armadilhas do setor. "Ela provavelmente está me protegendo de tal maneira que nem percebo. Quando fez nosso show, ela nos elogiou mesmo sem precisar", disse Glory Mora, de 33 anos, comediante de Nova York que produziu um espetáculo estrelado por Rodriguez, chamado "Morir Soñando", batizado em homenagem a um drinque dominicano.

Rodriguez também está estrelando e escrevendo um programa de meia hora baseado em sua vida, que está sendo desenvolvido pela HBO Max. Haddish é a produtora executiva do programa. "Só quero mostrar meu povo de maneira honesta. Quero ser verdadeira conosco", concluiu Rodriguez.

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