Renaud Philippe para The New York Times
Renaud Philippe para The New York Times

Comediante usa inglês e francês para questionar identidade canadense

Samir Khullar desafia a cultura do Quebec ao utilizar os dois idiomas oficiais do Canadá para criticar movimentos separatistas

Dan Bilefsky, The New York Times

11 Setembro 2018 | 10h15

MONTREAL - Alguns anos atrás, o comediante Sugar Sammy, de Quebec, colocou um anúncio gigante em um cartaz em Montreal. "De presente de Natal", dizia, metade em inglês, metade em francês, "gostaria de receber uma queixa do Office de la Langue Française", este, o órgão responsável pela preservação da língua francesa. Seu pedido não passou despercebido.

No Quebec, a província francesa cercada pela maioria inglesa do restante do Canadá, há uma profunda sensibilidade a respeito da língua, e os cartazes costumam ser somente em francês. A ousadia provocou um debate sobre a língua, juntamente com uma ameaça de morte de um nacionalista do Quebec em seu show seguinte.

Sammy, nascido Samir Khullar, 42, é filho de imigrantes indianos. E também é filho do Projeto de Lei 101, a lei quebequense polarizadora por trás da violação contida no cartaz, que exige que os imigrantes mandem seus filhos para escolas francesas. Por isso, ele passa sem o menor esforço do inglês para o francês em seus shows e fez da torturada identidade política do Quebec sua principal preocupação.

"O humor permite que você fale de tabus", afirmou Khullar, cujos pais, originários do norte da Índia, se instalaram em Montreal nos anos 1970. "No Quebec, o tabu, por excelência, é a identidade".

Em um recente show, como sempre lotado, Khullar mergulhou de cabeça em seu tema favorito: os que querem que o Quebec se separe do resto do Canadá. "Há algum separatista aqui?", perguntou em seu perfeito francês quebequense.

Depois que uma dezena de pessoas levantou a mão, ele prosseguiu: "Estão satisfeitos com o lugar onde estão sentados, ou querem se separar do resto do público e criar uma seção própria?". O público explodiu em uma gargalhada.

Passou para o inglês para fazer uma piada sobre a estratégia do presidente Donald J. Trump na fronteira mexicana. "Nós não temos muitos latinos no Canadá", afirmou. "Faz frio demais. Não precisamos de um muro. Nós temos o inverno".

Quando, em 2012, apresentou pela primeira vez a ideia de fazer um show bilíngue, "You're Gonna Rire" (Vocês vão rir), os produtores disseram que ele estava louco. Os anglófonos não entenderiam as piadas em francês, e o humor inglês não teria a menor graça para os francófonos. Então ele produziu o espetáculo por conta própria e se tornou uma sensação da noite para o dia. Khullar disse que seu apelido, Sugar Sammy, data de quando ele era promotor de festas enquanto estudava na Universidade McGill.

Seu despertar político como comediante se deu em 1995, durante um plebiscito que perguntava aos quebequenses se a província deveria se tornar um país independente. Depois que o partido do "não" ganhou com apenas 50,6% dos votos, o primeiro-ministro do Quebec, Jacques Parizeau, líder do lado do "sim", atribuiu o resultado em parte ao "voto étnico".

O comentário incomodou a Khullar, que tinha 19 anos. "Aí estava eu, um adolescente que procurava fazer de tudo para ser aceito pela sociedade de Quebec, e me diziam que eu tinha sido responsável pelo fracasso do sonho de Quebec de constituir um Estado", lembrou. "Eu me dei conta de que sempre seria o 'outro' no Quebec, independentemente da língua que eu falasse".

Um dos primeiros grandes rompimentos ocorreu em 2004, quando seu show chamou a atenção no festival "Just for Laughs" de Montreal, o maior festival internacional da comédia do mundo. Em 2014, ele se tornou um dos criadores de uma comédia de situação da televisão francesa chamada "Ces gars-lá" (Aqueles caras).

Em seu recente show em Montreal, ele falou do plebiscito. "Há dois tipos de quebequenses", brincou. "Os quebequenses educados, instruídos, bem-criados. E depois há os que votaram 'sim'".

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