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Comediantes grávidas quebram tabu com piadas sobre gestação

'Durante a gravidez e no meio da comédia stand-up, somos tratadas como se fôssemos frágeis', disse Kara Klenk

Elizabeth A. Harris, The New York Times

10 de maio de 2019 | 06h00

Amy Schumer teve uma gravidez difícil. Mas isso não a impediu de subir nos palcos vestindo botas de salto alto e gravar um especial de comédia para o serviço de transmissão via streaming Netflix. “Eu vomitava diariamente quantidades dignas das cenas de ‘O Exorcista’", disse Amy, que sofre de uma forma extrema de náusea chamada hiperêmese. “Se a sua gravidez foi boa, quero dizer, se você gostou de estar grávida", diz ela, com a mão sobre o coração, “espero que você capote o carro".

Faz décadas que os homens dominam o gênero da comédia stand-up, mas, conforme as mulheres conquistam mais espaço nos palcos, há um tipo de espetáculo que está se tornando uma espécie de subgênero: comediantes grávidas estrelando programas de comédia de grande destaque, em especiais de fim de noite e casas noturnas.

O bebê a caminho deixou de ser visto como algo vagamente monótono que atrapalha a apresentação, ficando no caminho do microfone, e agora é visto como uma rica fonte de material para os shows de stand-up, incluindo estrias, placentas e outras intimidades.

Ali Wong, que gravou dois especiais de comédia para a Netflix durante a gravidez, explicou detalhes dos seios empedrados, dicas de consultoras de lactação e fraldas… para as mães (depois que o bebê nasce, “Sabem o que sai em seguida? A casinha dele”). Amy ergueu o vestido durante o especial “Growing” para mostrar os curativos que seguravam o umbigo para dentro.

Natasha Leggero, grávida e usando um vestido de lantejoulas com as cores do arco-íris, listou os motivos pelos quais não desejava ter filhos (“Vocês também têm algum parente que não deveria se reproduzir? Tenho um irmão morando em uma van, não quero correr o risco de ter um filho como ele”). Christina Pazsitzky disse que, não faz muito tempo, “vivíamos quase escondidas; a gravidez não era considerada um tema para brincadeiras".

“Quando fiquei grávida pela segunda vez, as coisas já tinham mudado muito", acrescentou Christina, que se apresenta com o nome artístico de Christina P. “Empresários e agentes me procuraram oferecendo dinheiro, propostas de livros e programas especiais.” Mas, quatro anos atrás, a comediante Ophira Eisenberg disse ter ouvido que corria o risco de afastar o público se falasse a respeito da própria gravidez.

“Durante anos, ouvimos os homens falando a respeito do próprio pênis", disse ela, “como se fosse uma experiência universal!” Como chegamos ao ponto atual? Comediantes, donos de casas noturnas e empresários do ramo dizem que há mais mulheres trabalhando na comédia hoje, ainda que os homens continuem sendo uma vasta maioria. E como as mulheres começam a ter filhos mais tarde do que antigamente, é maior a probabilidade de essas comediantes já terem carreiras consolidadas quando decidem engravidar.

“Minhas colegas e eu nos demos conta que estávamos chegando no fim da janela de fertilidade", disse Christina, que tem filhos de três anos e nove meses. “Trabalhei 15 anos para chegar onde cheguei.” Como a maioria das mulheres no mercado de trabalho, ela disse, “não posso tirar um ano de folga para ter um bebê".

O resultado é um material farto para as piadas. “Dar de mamar é um ritual selvagem que serve para nos lembrar que nosso corpo virou um refeitório", disse Ali. “Ganhei tanto peso que não passei pela fase do encantamento. Estou na fase do Natasha-parece-deprimida-com-alguma-coisa", brincou Natasha.

Mas algumas piadas acabam excluídas. A comediante Kara Klenk, que deu à luz a filha Rosalie no mês passado, disse que foi obrigada a cortar uma piada explicando aos conservadores como funciona o controle de natalidade. Kara manteve uma piada em que faz um agachamento, imitando alguém muito pequena. “Durante toda a gravidez, e também no meio da comédia stand-up, as pessoas nos tratam como se fôssemos muito frágeis", disse ela.

“Dava para ver a reação do público, ‘Oooh, será que ela vai ficar bem? Parece uma preciosa estatueta de vidro.’ Está tudo bem! Eu não faria a apresentação se não estivesse tudo bem.” Em fevereiro, Amy anunciou que teve de cancelar o restante da turnê, dizendo que a hiperêmese a impedia de voar.

“Quis insistir com as apresentações", publicou Amy no Instagram. “Pois não gosto de decepcionar ninguém, adoro trabalhar com comédia stand-up e amo ganhar dinheiro! Mas, mais importante do que isso é pensar na minha saúde e no bebê.” Mas muitas comediantes disseram enxergar vantagens nas apresentações com acompanhantes. “Qualquer piada vulgar produz uma reação mais expressiva quando vinda de uma grávida", disse Christina. “O tabu é ainda maior.”

Mas elas anseiam pelo dia em que ver uma gestante em um palco de comédia não será surpreendente. “Quando estamos grávidas, nos tornamos mulheres estridentes", disses Jenny Hagel, que fez apresentações de improviso durante a maior parte da gravidez do filho. “E nossa sociedade ensina que, para as mulheres, fazer piadas é menos apropriado.” Dito isso, Jenny acrescentou: “O coque masculino se tornou normal. O condicionamento nos faz acostumar com qualquer coisa". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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