Evan Cohen via The New York Times
Evan Cohen via The New York Times

Comer fora de hora pode causar danos à saúde

Pesquisadores dizem que o corpo humano funciona melhor quando os diferentes relógios biológicos estão em sintonia

Anahad O'Connor, The New York Times

16 Agosto 2018 | 10h15

Os nutricionistas debatem há muito tempo sobre qual será a melhor dieta. Mas agora alguns especialistas acreditam que o fundamental não é apenas o que nós comemos, mas quando comemos.

Um número cada vez maior de pesquisas sugere que nossos organismos funcionam otimamente quando unimos nossos padrões de alimentação com nossos ritmos circadianos, isto é, o período natural de 24 horas que diz ao nosso corpo quando acordar, quando comer e quando dormir. Estudos mostram que quebrar cronicamente este ritmo - fazendo uma refeição tarde da noite ou beliscando lanches à meia-noite - pode ser a receita para um ganho de peso e problemas metabólicos.

Esta é a premissa de um novo livro, The Circadian Code, de Satchin Panda, professor do Instituto Salk, um centro de pesquisa sem fins lucrativos da Califórnia. Panda afirma que as pessoas melhoram sua saúde metabólica quando comem suas refeições em uma janela diária de 8 a 10 horas, fazendo a primeira refeição pela manhã e a última no começo da noite.

Esta estratégia se baseia no conceito de que o metabolismo humano obedece a um ritmo diário, com nossos hormônios, enzimas e sistemas digestivos predispostos para comer pela manhã e no fim da tarde. Entretanto, muitas pessoas lancham e ficam beliscando desde a hora em que acordam até pouco antes de ir para a cama. 

Panda constatou que uma pessoa comum come diariamente ao longo de um período de 15 horas ou mesmo mais, começando talvez com café, pouco depois de levantar, e terminando com uma refeição tarde da noite ou algum outro lanche pouco antes de ir dormir. Este padrão de alimentação, segundo ele, é conflitante com os nossos ritmos biológicos.

Os cientistas sabem há muito tempo que o organismo humano tem um relógio no cérebro que governa seus ciclos de sono e vigília, reagindo à exposição à luz. Há algumas décadas, pesquisadores descobriram que não há apenas um relógio no organismo, mas vários. Cada órgão tem um relógio interno.

De dia, o pâncreas aumenta sua produção do hormônio da insulina, que controla os níveis de açúcar no sangue, e a reduz à noite. O intestino tem um relógio que regula o fluxo e o refluxo das enzimas, a absorção de nutrientes e a retirada do lixo. As comunidades de trilhões de bactérias que compreendem os microbiomas de nossos intestinos também funcionam com um ritmo diário. Esses ritmos diários são tão entranhados que estão programados em nosso DNA: em cada órgão, milhares de genes ligam e desligam, ao mesmo tempo, diariamente.

A maioria das evidências encontradas nos seres humanos sugere que consumir a maior parte de nossa alimentação mais cedo no dia é melhor para nossa saúde, explicou Courtney Peterson, professora da Universidade de Alabama. Estudos demonstram que o controle do açúcar do sangue é melhor pela manhã e pior à noite. Queimamos mais calorias e digerimos os alimentos de maneira mais eficiente pela manhã.

À noite, a falta de luz solar leva o cérebro a liberar melatonina, que nos prepara para o sono. Comer tarde da noite envia um sinal conflitante aos relógios do resto do corpo, como se ainda fosse dia claro, disse Courtney.

"Se você come constantemente em um momento do dia em que não está tendo exposição à luz forte, diferentes sistemas horários saem de sintonia", acrescentou. "É como um relógio que está na zona horária do Japão e o outro na dos EUA. Isso envia ao nosso metabolismo sinais contrastantes para acelerar ou desacelerar", explica.

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