Kevin Anderson/Associated Press
Kevin Anderson/Associated Press

Comércio de ossos de leão foi relacionado à proibição de troféus

Ossos são transformados em vinho, e dentes em joias

Rachel Nuwer, The New York Times

03 de agosto de 2019 | 06h00

Um tratado internacional proíbe a compra e venda de produtos feitos a partir de grandes espécies de felinos, menos um: o leão africano. Se os animais foram criados em cativeiro na África do Sul, seus esqueletos, inclusive garras e dentes, podem ser comercializados.

Partes do leão legalmente exportadas da África do Sul, em geral, vão para a Ásia, onde frequentemente são comercializadas como pertencentes a tigres. Este negócio lucrativo está crescendo e, segundo recentes pesquisas,  uma medida adotada pelos Estados Unidos pode ter contribuído para impulsioná-lo.

Em 2016, os Estados Unidos proibiram as importações de troféus de leões criados em cativeiro. Para muitos criadores da África do Sul, as exportações dos esqueletos eram uma maneira de compensar os prejuízos sofridos por seus negócios.

Antes da proibição, na África do Sul, os locais para a criação e a caça tinham mais de 8.400 leões vivendo em cativeiro. Muitos deles destinavam-se a caçadas de animais de povoamento em que um animal criado em cativeiro, às vezes não agressivo, é solto em um campo de caça delimitado por cercas para que os caçadores possam atacá-lo e matá-lo.

Em dezembro de 2015, os Estados Unidos acrescentaram os leões à "Lista de Animais Ameaçados". Embora os americanos ainda pudessem abater leões em caçadas legais em toda a África, só poderiam levar para casa os seus troféus se provassem que a caçada havia beneficiado a preservação dos leões. As caçadas de povoamento da África do Sul não atendem a estes critérios. 

Os pesquisadores tentaram determinar se a proibição e outras mudanças da política haviam afetado a criação comercial de leões na África do Sul. Eles supervisionaram 117 locais que criam, realizam ou organizam caçadas de leões cativos. Depois da proibição, constataram os pesquisadores, os preços dos leões vivos caíram 50%. Mais de 80% dos entrevistados afirmaram que a proibição prejudicou os seus negócios, e muitos acrescentaram que tiveram de demitir funcionários e aplicaram a eutanásia nos leões.

Cerca de 30% deles passaram a exercer o comércio internacional de ossos. Os preços dos esqueletos subiram mais de 20% desde 2012. Os esqueletos das fêmeas são vendidos em média a US$ 3.100, e os dos machos a $ 3.700. As exportações dos esqueletos cresceram de 800 para 1.800 leões no ano que se seguiu à proibição.

No final de 2016, a Convenção do Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas ordenou que a África do Sul estabelecesse uma cota anual de exportações para as partes de leões criados em cativeiro. Em 2017, as autoridades estabeleceram uma cota de 800 esqueletos. A metade dos entrevistados para a pesquisa ameaçou voltar ao comércio ilegal se as cotas prejudicassem os seus negócios. Os ossos de leões já alimentam mercados ilegais.

Os produtos derivados de tigres são muito procurados na Ásia. Os ossos de leões são usados para fazer um produto de luxo comercializado como vinho de ossos de tigre, enquanto garras e dentes são transformados em joias.

“Existe o pressuposto de que o leão substituiu o tigre no mercado, e portanto há um declínio da pressão sobre os tigres, mas não é o que acontece”, afirmou Debbie Banks, líder da campanha realizada pela Agência de Investigação do Meio Ambiente em Londres. “A demanda de tigres e de outros grandes felinos comercializados como tigres é tão grande que não só consome tigres criados em cativeiro, como tigres selvagens também continuam sendo caçados ilegalmente”.

Os leões estão sendo vítimas de caçadores ilegais. Em mais de cinco anos, Kristoffer Everatt da Panthera, uma organização que cuida da preservação, documentou um declínio de 68% da população de leões no Parque Nacional de Limpopo, em Moçambique, onde, em 2017, restavam apenas 21 leões. E acrescentou que pesquisadores na Namíbia e em Moçambique também informaram ter encontrado leões sem focinho, patas ou dentes.

O aumento das exportações legais de ossos de leões está relacionado à caça ilegal, segundo o dr. Everatt: “Seria muita coincidência estas duas coisas acontecerem ao mesmo tempo e no mesmo lugar sem que tivessem alguma relação entre si”.

Mas Michael ‘t Sas-Rolfes, da Universidade de Oxford, na Inglaterra, um dos pesquisadores que supervisionam a indústria do leão na África do Sul, advertiu para não se tirarem conclusões prematuras. 

Os pesquisadores ainda estão avaliando se, e como a demanda de produtos legais de felinos afeta a caça ilegal, ele disse. Uma nova proibição das exportações dos ossos de leão não só poderá impedir que a caça ilegal seja contida, como intensificá-la.

O comércio legal de partes de leões “estimula a demanda e perpetua a procura destes produtos”, afirmou Banks. “Enquanto esta demanda existir, haverá forte procura dos tigres que restam no mundo”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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