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Keith Bradsher/The New York Times
Keith Bradsher/The New York Times

Hainan: uma nova Hong Kong, sob total controle da China

O governo espera transformar a Ilha de Hainan num destino financeiro e de compras. Equiparar o local à antiga colônia britânica não será fácil

Keith Bradsher, The New York Times - Life/Style

15 de dezembro de 2020 | 05h00

HAIKOU – Impostos menores. Zona franca. Praias. O Partido Comunista quer mesmo colocar as pessoas em iates. O desejo é transformar a província de Hainan, ilha do Mar da China Meridional num porto de livre comércio e num centro comercial internacional. A capital da província, Haikou, com 9,5 milhões de habitantes, vem oferecendo novos incentivos para transformar a região num destino para empresas globais, financistas e consumidores sofisticados.

A China já tem um lugar como este: Hong Kong, com 7,5 milhões de habitantes. Mas o futuro da antiga colônia britânica é duvidoso. Depois dos protestos pró-democracia no ano passado, o governo chinês subjugou Hong Kong com uma rígida lei de segurança nacional e a repressão dos dissidentes.

Mas há dúvidas quanto a se os eventos ocorridos não prejudicaram de maneira permanente o antigo baluarte da liberdade econômica. A transformação de Hainan seria um Plano B financeiro e corporativo. Mas criar uma cópia de Hong Kong não será fácil. Grande parte do sucesso da ilha decorre das suas políticas de não interferência, seu sistema judiciário independente, a movimentação de dinheiro sem entraves através das suas fronteiras e a livre troca de informação – todas estas liberdades que não existem na China continental.

Pequim tem se mostrado pouco inclinada a reduzir o seu controle de uma maneira que permita que Hainan concorra plenamente com Hong Kong. Além disto, a ilha não possui a mão de obra educada, com frequência cosmopolita, como existe em Hong Kong, que também está muito perto da província de Guangdong, o cinturão chinês da manufatura. Mas no campo das compras e de escritórios corporativos, Hainan começa a competir.

“Você não precisa de visto de entrada, é fácil se instalar lá e a situação da covid-19 pode se arrastar por meses ou alguns anos antes de as fronteiras de Hong Kong serem totalmente reabertas”, disse Jean-Pierre Cabestan, professor de ciências políticas na Baptist University.

“O que vem ocorrendo em Hainan está aumentando a marginalização de Hong Kong”, acrescentou. As autoridades chinesas afirmam que a ideia é Hainan se tornar um complemento de Hong Kong, não substituto. E de qualquer modo, transformar a ilha num meca de livre comércio não será fácil. Nos últimos anos, pelo menos 21 zonas francas foram introduzidas em locais como Tianjin, Xangai e outros.

A maior parte não avançou. Esforços específicos no caso de Hainan também já fracassaram no passado. As autoridades locais há anos buscam uma estratégia para desenvolver a província, que é mais conhecida na China pelos altos e baixos do setor imobiliário do que no campo das finanças ou das compras.

Houve várias tentativas para abrir cassinos, mas a ideia sempre foi rechaçada pelo governo chinês. A nova campanha é diferente, dizem as autoridades. Em vez de atender importadores e exportadores elas anunciaram planos para atrair consumidores, pessoas ricas, e até quem pretenda realizar uma cirurgia plástica.

“O nível de abertura de Hainan é muito maior do que a zona franca do continente”, disse Xia Feng, professor da universidade local. E as comprar são uma grande parte disto. As novas regras permitem que qualquer pessoa do continente gaste US$ 15 mil ao ano em produtos sem pagar os impostos que são normalmente cobrados na China sobre importação, vendas e artigos de luxo.

O limite anterior era de apenas US$ 5 mil. Turistas como Xu Yang, 33 anos, de Qingdao, percorriam as lojas de Hainan em busca de marcas como Lancôme, SK-II, La Mer e Dior. Xu disse que o custo de uma base líquida da Estée Lauder é um terço menor na loja da zona franca em Haikou do que no continente. E valia a pena suportar a multidão de compradores, disse ela. O número de turistas saltou quase dois terços depois de a política ter mudado em 1º de julho.

“É uma loucura, a fila é enorme”. Marcas como Tiffany e Prada abriram lojas em Haikou recentemente para atender as consumidoras chinesas que não mais viajam para o exterior por causa da pandemia. “Comprar em Hainan é mais conveniente”, disse Mary Liu, de Pequim, que estava em busca das bolsas Coach. As autoridades tentam também superar as deficiências de Hainan em termos de capacidades.

O governo central enviou para a província pessoas experientes que vêm supervisionando programas de desenvolvimento. O governador de Hainan, Shen Xiaoming, já foi diretor da zona franca de Xangai e ajudou a convencer a Tesla a instalar sua primeira montadora no exterior ali.

Para atrair trabalhadores especializados, o governo adquiriu todos os jardins de infância e do pré-primário da ilha, que passaram a ser públicos, dando preferência para matrículas de filhos de pais com formação superior que se mudarem para lá. “Haverá mais e mais pessoas de enorme talento no futuro”, previu Yu Lei, engenheiro de telecomunicações que se mudou para Haikou e acabara de matricular sua filha de três anos numa escola de jardim de infância. Além disto, os impostos foram reduzidos, uma forma de atrair ricos e empresas.

Os cortes em alguns casos chegam a 15%. Na China continental, os indivíduos com altos salários chegam a pagar 45% de imposto sobre a renda, ao passo que uma ampla faixa de empresas paga 25%. Alguns indivíduos abastados já criaram empresas na ilha para canalizarem parte dos pagamentos de salários para lá de modo que os que trabalham para eles paguem menos impostos. E empresas chinesas estudam estabelecer subsidiárias ali.

“Eu convenci meus clientes a registrarem suas empresas em Hainan”, disse Kevin Shi, banqueiro em Shenzen. “Eles vêm estudando como podem tirar benefícios da medida e estão em discussões com o governo sobre o que podem fazer e o que podem obter”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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