Noriko Hayashi para The New York Times
Noriko Hayashi para The New York Times

Comércio internacional de lontras pode ser proibido

Cada vez mais populares como animais de estimação, lontras de garras pequenas são procuradas em diversos países da Ásia e vendidas online

Rachel Nuwer, The New York Times

17 de maio de 2019 | 06h00

TÓQUIO - Sentimos o cheiro delas antes de vê-las. Em meio ao fedor de urina e fezes, descemos em um porão onde havia uns sofás em frangalhos na frente de uma pequena gaiola feita de fios de arame. As grandes atrações estavam no seu interior: quatro lontras asiáticas anãs. Quando nos viram, elas explodiram em choros e gritinhos.

Passamos por trás de uma folha laminada com avisos em japonês, mandarim e inglês, que diz “As lontras podem se tornar violentas”, e então a gaiola se abriu. Os animais saltaram para fora e dispararam pelo lugar aos pulos enquanto engoliam a ração. Seus corpos marrons em formato de tubo pareciam almofadas alongadas, peludas, e seus focinhos animados, com longos bigodes, pareciam focinhos de cachorrinhos. Durante uns 30 minutos, elas não pararam de se movimentar.

As lontras têm um cheiro muito forte, são barulhentas e extremamente ativas; têm dentes afiados e mandíbulas fortes  capazes de quebrar a casca dos moluscos. Mas no Japão, onde mais de uma dezena de cafés atualmente têm animais de estimação, elas se tornaram bichinhos muito procurados, substituindo corujas, periquitos, petauros do açúcar e tartarugas star.

Muitos cafés e pet shops vendem lontras a qualquer pessoa interessada em levar uma delas para casa. “Com o aumento da preferência por lontras como pets está havendo um rápido crescimento da demanda”, disse a balconista de uma loja. “Mas a oferta não consegue atender a todos”.

As lontras de estimação não são procuradas apenas no Japão. Também são mais comuns na Indonésia, Tailândia, Vietnã e Malásia. A internet contribuiu consideravelmente para o aumento de sua popularidade e para o comércio destes animais como bichos de estimação, disse Nicole Duplaix, que faz parte da comissão para as lontras da International Union for Conservation of Nature. 

“Os vendedores anunciam online, e os proprietários de pets postam uma quantidade de fotos deliciosas dos seus bichinhos; com isto se espalha a notícia de que a lontra é um pet maravilhoso, embora não seja tanto”, ela disse. As lontras dificilmente crescem em cativeiro. Muitos conservacionistas acreditam que a maioria  dos animais vendidos é capturada em seu próprio habitat.

Na Tailândia, cidadãos japoneses foram presos ao serem apanhados tentando contrabandear lontras em um aeroporto. No Vietnã, a organização Save Vietnam’s Wildlife, que reabilita animais confiscados de traficantes, começou a receber lontras pela primeira vez em seus 14 anos de história.

Lontras de pelo suave, ameaçadas, assim como as lontras de nariz peludo, ambas encontradas no Sudeste Asiático, são capturadas para o comércio de pets. Mas as lontras asiáticas anãs, uma espécie ameaçada, extremamente graciosa, costumam ser os alvos preferidos dos contrabandistas, disse Duplaix.

As três espécies já estavam ameaçadas muito antes do começo do comércio de pets. A poluição e a urbanização destruíram os seus habitats, e os pescadores e os que se dedicam à aquacultura matam os animais para eliminar a concorrência. Os caçadores furtivos também visam as lontras por causa do seu pelo.

Na Tailândia, a caça, a venda ou a exportação de lontras são ilegais, mas os animais são livremente comercializados online. Penthai Siriwat, doutoranda da Oxford Brookes University, monitorou sete páginas do Facebook em tailandês, de 2017 ao início de 2019, e encontrou  572 animais à venda. “O comércio está aumentando”, ela disse. Mais da metade das lontras à venda na Tailândia é constituída por ninhadas de recém-nascidos que ainda nem abriram os olhos, informou Siriwat no “Journal of Asia-Pacific Biodiversity”.

Segundo o Traffic Japan, um grupo que monitora o comércio ilegal de animais silvestres, a maioria das lontras apanhadas no Sudeste Asiático em 2017 destinava-se ao Japão ou havia sido enviada para o país de 2016 a 2017. Autoridades internacionais estudam propostas para conceder às lontras anãs e de pelo suave o maior nível de proteção na Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas da Fauna e da Flora Silvestres.

Se a proposta for aprovada, o comércio internacional de lontras silvestres será proibido. Mas o aumento da proteção não acabará com o comércio ilegal, afirmou Daniel Willcox, da Save Vietnam’s Wildlife. Ele acredita que os conservacionistas deveriam tentar trabalhar junto aos proprietários de lontras. “Algumas destas pessoas cuidam de fato dos seus animais”, ele disse. “E se pudermos encontrar uma maneira de entrar em contato com elas para mostrar porque é errado manter lontras em casa, poderão tornar-se defensoras da conservação da vida selvagem”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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