Jutharat Pinyodoonyachet/The New York Times
Jutharat Pinyodoonyachet/The New York Times

Como sobrevivem as lojas para turistas sem turistas em Nova York?

Depois que o bloqueio do coronavírus acabou com o turismo na cidade, as lojas de souvenirs continuam vazias

Corey Kilgannon e Natalie Prieb, The New York Times - Life/Style

12 de dezembro de 2020 | 05h00

NOVA YORK – Como muitas lojas de souvenirs em Nova York, a Memories of New York em Manhattan está repleta de camisetas. Elas ostentam o logo do New York Yankees, algumas linhas de metrô, imagens da Ponte do Brooklyn e, é claro , a famosa frase “Eu (Coração) NY”, a mais vista nas lojas de lembrancinhas para turistas da cidade. O proprietário da loja, Alper Tutus, diz que as vendas de camisetas são vitais para o seu negócio.

Mas desde que ele reabriu em agosto, após o fechamento em março por causa do lockdown do coronavírus, não vendeu uma sequer. “Neste momento, as vendas estão a zero absoluto. Ninguém compra”, disse Tutus, 75 anos, que inaugurou a sua loja no bairro Flatiron há 25 anos.

Cercado por copinhos de bebidas, bonés com a inscrição NYPD (polícia de NY) e FDNY (bombeiros de NY), e um mar de canecas, cartões postais e chaveiros, Tutus contou que recentemente renovou o contrato de locação de US$ 70 mil por mês da loja de cerca de 557 metros quadrados. Mas sem uma receita concreta, ele tem grande dificuldade para pagar o aluguel.

Para muitos turistas, nenhuma visita a Nova York está completa sem uma parada para comprar camisetas, bonés ou outras lembranças que celebram a metrópole, que é este pujante destino global – ou era, antes que a pandemia provocasse as restrições às viagens. As normas dizimaram o turismo em uma das maiores cidades do mundo e acabaram com o fluxo crescente do turismo para Nova York vista nos últimos anos.

Embora a cidade esteja reabrindo lentamente e alguns funcionários tenham voltado aos seus escritórios, os turistas em grande parte a evitam, o que significa que não há compradores para as centenas de lojas de souvenirs de Nova York, que continuam desesperadamente vazias.

A agência de turismo da prefeitura calculou que levará quatro anos para o numero de visitantes de Nova York voltar aos níveis anteriores à pandemia. O turismo internacional levará até mais tempo para se recuperar. “A situação está ruim em todas as partes da cidade, mas outros negócios, como os restaurantes, podem ainda contar com os próprios nova-iorquinos”, observou Eicha Misfa, gerente da loja I Love NY na Broadway com a Rua 38, em geral um ponto borbulhante nas proximidades de muitos teatros.

Ocorre que os teatros da Broadway, um dos grandes motivos para os turistas visitarem a cidade, estão fechados desde março, e permanecerão fechados até pelo menos 30 de maio. “O nosso negócio depende dos turistas”, afirmou Eicha. “Impossível sobreviver sem eles”. Ou, como disse um vendedor da loja Park Souvenirs and Gifts em Manhattan: “Como vender presentes a turistas quando não há turistas?”

Outra funcionária da loja – nenhuma delas quis se identificar – contou que as vendas caíram 90%. Ela se mostrou pessimista quanto à possibilidade de a loja, logo na saída do Central Park, conseguir chegar à temporada de fim de ano, “a não ser que aconteça um milagre’.

A região de Midtown em Manhattan tem a maior concentração de lojas de souvenirs da cidade, cujo sustento são as várias atrações para turistas na área, como o Rockefeller Center, o Empire State Building, e principalmente Times Square. Todas elas receberam poucos visitantes desde o lockdown.

Ultimamente, os funcionários das lojas para turistas afirmam que podem contar as vendas de um dia em uma mão. Eles podems er vistos nas entradas das lojas, tentando atrair os que passam na frente com preços com descontos. Na Playland Gifts – uma das quatro lojas de souvenirs em um único quarteirão da Sétima Avenida, entre as ruas 48 e 49 – um vendedor, Nazmul Islam, 42 anos, perto de um rack de máscaras faciais a US$ 7 cada uma com a sigla “NYC” estampada, disse que naquele dia havia atendido apenas dois clientes.

“As únicas pessoas por aqui são os nova-iorquinos e eles não compram lembranças de Nova York”, ele disse. Em outra loja de presentes da I Love NY, na Broadway perto da Rua 52, Akm Islam, outro vendedor estava perto da porta da frente entre prateleiras repletas de globos de neve com a vista de Manhattan e miniaturas da Estátua da Liberdade. “Tivemos clientes que disseram: ‘Não posso acreditar que esta seja a Times Square’”, ele disse apontando para as calçadas vazias.

“Parece que a Times Square está chorando. Tão vazia”. Em 2019, o setor de turismo de Nova York registrou o seu décimo ano consecutivo de crescimento, e a cidade recebeu um recorde de 67 milhões de visitantes. Antes da pandemia, a prefeitura havia projetado pelo menos o mesmo para este ano, mas agora a cidade deverá atrair apenas 22 milhões. O gabinete da controladoria de Nova York calculou que a prefeitura perderá pelo menos US$ 1,5 bilhão em vendas tributáveis do turismo para o próximo ano.

A agência de marketing de turismo da prefeitura, NYC & Company, informou que o setor sustenta mais de 400 mil empregos e representa quase US$ 7 bilhões em impostos estaduais e municipais. O colapso devastou hotéis, restaurantes, bares e muitos outros negócios do varejo. “Quando não há milhões de turistas visitando a cidade todas as semanas, não há como sustentar todas estas lojas de souvenirs, por isso acredito que muitas delas irão fechar”, observou Nathan Harkrader, diretor executivo da CitySouvenirs.com e da NYCwebstore.com, duas varejistas deste setor que operam exclusivamente on-line.

O boom do turismo permitiu que os proprietários de lojas pagassem altos aluguéis graças aos grandes volumes de vendas de itens relativamente baratos, em razão do enorme fluxo de visitantes. Com as festas de fim de ano se aproximando, as lojas estariam normalmente se preparando para um dos períodos do ano de maior movimento.

Mas com o vírus novamente intensificando o seu ataque e muitas restrições às viagens, não há muita chance de uma grande alegria natalina. “Para muitas delas, esta é talvez a última chance de continuarem operando”, afirmou Hakrader. Islam, o vendedor da Playland Gifts, disse que às lojas de souvenirs “só resta a esperança de que a situação mude dentro em breve”. “A esperança é a única coisa que temos agora”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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