Juan Ponce/EPA, via Shuttertock.
Juan Ponce/EPA, via Shuttertock.

Comitê Olímpico teme protestos de atletas em 2020

Dois atletas dos Estados Unidos foram punidos por manifestações no Pan-Americano no Peru realizado neste ano

Jeré Longman, The New York Times

11 de setembro de 2019 | 06h00

Os Jogos Olímpicos de Tóquio de 2020 se darão em um momento em que a credibilidade do próprio movimento olímpico está em declínio e o nacionalismo se espalha no mundo inteiro. Os jogos serão realizados no despertar da igualdade de gênero e em meio a denúncias de abusos sexuais. Em um momento em que os atletas tendem a manifestar os próprios pontos de vista.

Por isso, quando a mais alta representante dos Jogos Olímpicos dos Estados Unidos enviou cartas a dois atletas americanos que protestaram durante a execução do hino nacional nos recentes Jogos Pan-Americanos no Peru, advertindo ambos por 12 meses, ela também incluiu um recado aos campeões olímpicos do futuro no que concerne a gestos políticos nas Olimpíadas do próximo ano.

Entretanto, tentar silenciar os atletas em Tóquio será talvez inútil. “Há um grupo de pessoas que sempre estarão convencidas de que falar por muitos é mais importante do que as repercussões para si próprios”, afirmou o esgrimista Race Imboden, que recebeu a advertência por ajoelhar-se no pódio durante a execução do hino nacional.

Ele declarou que estava protestando contra as “falhas” que percebe nos Estados Unidos: “racismo, controle de armas, os abusos contra os imigrantes e um presidente que espalha o ódio”. A arremessadora de martelo Gwen Berry, que ergueu o punho durante o hino, foi outra atleta que recebeu a repreensão.

Um atleta que faz um gesto político no pódio, ou de uniforme ou depois de marcar um gol ou vencer uma corrida estaria violando a Carta Olímpica, e corre o risco de ser expulso dos Jogos. São estes gestos públicos que “aterrorizam” o Comitê Olímpico Internacional, disse o sociólogo Douglas Hartmann, que estudou os protestos olímpicos.

Por outro lado, muitas vezes o COI adota uma posição contraditória, desencorajando a atividade política, mas em outros momentos respaldando-a quando ela retrata o comitê olímpico como uma força moral positiva. Por exemplo, o maratonista etíope Feyisa Lilesa não foi penalizado por cruzar os braços acima da cabeça ao passar a linha de chegada nos Jogos do Rio, em protesto contra a maneira com a qual o seu grupo étnico foi tratado. O seu comportamento é ardiloso, disse Hartmann, quando “os atletas defendem causas ou questões que a maioria dos observadores não considera políticos, e no entanto segundo os seus direitos, como causas morais”.

Se um atleta protestar em silêncio nas Olimpíadas de Tóquio, como Imboden, alguns considerarão o seu ato como moral, mas outros poderão discordar. Sarah Hirshland, a presidente do Comitê Olímpico e Paraolímpico dos Estados Unidos, escreveu em cartas endereçadas a Imboden e a Berry que um dos objetivos das Olimpíadas é promover a união e a harmonia internacional.

“Quando um indivíduo se comporta de maneira que os seus protestos, por mais legítimos que sejam, se tornam mais importantes do que  os dos seus concorrentes e da competição em si, ele estará diminuindo esta união e harmonia”, escreveu. “A celebração do esporte e da realização humana se perderá”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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