Luis Antonio Rojas/The New York Times
Luis Antonio Rojas/The New York Times

Como a arte pode ajudar uma região pobre no México?

Um novo teleférico e centenas de murais gigantes iluminaram as vidas em Iztapalapa, a região mais populosa da Cidade do México, mas a pobreza e os ataques contra as mulheres ainda são generalizados

Oscar Lopez, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2021 | 05h00

CIDADE DO MÉXICO - Observada de um alto teleférico, a cidade é um mar de concreto estendendo-se até o horizonte, interrompido apenas por aglomerados de arranha-céus e restos de antigos vulcões. Cerca de 18 metros abaixo está a região de Iztapalapa, um labirinto de ruas e becos sinuosos, suas casas de concreto envolvendo as colinas da vizinhança em um cinza insípido.

Mas então, em um telhado, uma explosão repentina de cores: uma borboleta monarca gigante em cima de uma flor roxa. Mais adiante na rota do mais novo teleférico da Cidade do México, um tucano e uma arara escarlate encaram os passageiros. Mais tarde, em um muro amarelo-canário, está uma jovem com um vestido vermelho, os olhos fechados em uma expressão de felicidade absoluta.

A linha de cerca de 10 km, inaugurada em agosto, é a maior para um teleférico público do mundo, de acordo com a prefeitura. Além de reduzir pela metade o tempo de deslocamento de muitos trabalhadores na região mais populosa da capital, o teleférico tem uma atração a mais: murais exuberantes pintados por um exército de artistas locais, muitos dos quais só podem ser vistos de cima.

“Há pinturas e murais ao longo de todo o trajeto”, disse César Enrique Sánchez del Valle, um professor de música, que estava usando o teleférico para voltar para casa na tarde de uma terça-feira recente. “É legal, é algo inesperado.”

As pinturas nos telhados são a última etapa de um projeto de embelezamento promovido pelo governo de Iztapalapa, que contratou cerca de 140 artistas nos últimos três anos para cobrir o bairro com quase 7.000 obras de arte pública, criando explosões de cor em uma das áreas mais dominadas pelo crime na Cidade do México.

“As pessoas querem resgatar sua história, a história da região”, disse a prefeita do bairro, Clara Brugada Molina. “Iztapalapa se torna uma galeria gigante.”

Espalhando-se pela periferia da Cidade do México, Iztapalapa tem 1,8 milhões de moradores e alguns estão entre os mais pobres da cidade. Muitos trabalham em bairros mais ricos e, antes do teleférico, isso frequentemente significava deslocamentos de longas horas.

Como ocorre com muitas áreas urbanas pobres do México, Iztapalapa sofre há muito tempo com a falta de serviços básicos, como água encanada, e também com os altos índices de violência, frequentemente ligada ao crime organizado.

A iniciativa artística da prefeita é parte de um plano mais amplo para deixar Iztapalapa mais segura, incluindo lâmpadas de rua que agora iluminam o que antes ficava envolto na escuridão.

Os murais apresentam ícones nacionais como divindades astecas, o líder revolucionário Emiliano Zapata e a artista Frida Kahlo, com um traço turquesa nos olhos.

Mas também há espaço para mais heróis locais.

Contra um pano de fundo escarlate com formas azuis, amarelas, verde-azuladas e verde-limão flutuando atrás dela, a imagem de uma mulher de cabelo curto sorri para o observador: É Lupita Bautista, uma nativa de Iztapalapa e campeã mundial de boxe que é quase tão colorida na vida real.

Em uma manhã recente, Bautista, 33, entrou em sua academia usando tênis verde fluorescente, um gorro rosa e um moletom tie-dye com seu nome rabiscado em glitter fúcsia na frente.

“Adoro que as cores sejam tão fortes”, ela disse ao comentar o projeto financiado pelo governo que, além de criar os murais, transformou a região onde ela treina em um mosaico de cores, revestindo as casas de concreto com tons brilhantes, um trabalho de pintura que seria inacessível para muitos moradores. “Isso traz muita vida.”

A história da infância de Bautista é conhecida na região. Quando ela era jovem, sua casa em Iztapalapa não tinha eletricidade - era iluminada apenas com velas à noite. Seu bairro não tinha calçadas nem ruas pavimentadas.

“Tudo era cinza”, ela lembrou.

O crime também era um problema, com roubos e assassinatos tão comuns que Bautista disse que sua mãe só deixava que ela ou sua irmã saíssem de casa para ir à escola. “Eu ficava apavorada”, ela disse. “Sentia que algo ia acontecer comigo.”

Com muitas avenidas agora iluminadas, ela disse que se sentia muito mais segura para correr quando escurecia.

“Eu cresci correndo pelas ruas”, ela disse sobre sua juventude nas avenidas e becos da região, muito antes de se tornar uma lutadora campeã. “Agora você pode correr com muito mais segurança e foco - sem pensar que alguém pode aparecer e te assustar.”

Mas, apesar dos esforços do governo, a maioria das pessoas em Iztapalapa continua a viver com medo: de acordo com uma pesquisa de junho da agência nacional de estatísticas do México, quase 8 em cada 10 moradores disseram que se sentiam inseguros - uma das taxas mais altas de qualquer cidade do país.

As mulheres, em particular, enfrentam uma violência generalizada em Iztapalapa, que está entre os 25 municípios do país com os maiores índices de feminicídio, em que uma mulher é morta por causa de seu gênero. De 2012 a 2017, as câmeras de segurança da cidade registraram mais casos de violência sexual contra mulheres em Iztapalapa do que em qualquer outra região da Cidade do México, de acordo com um relatório de 2019 da Universidade Nacional Autônoma do México.

Essa violência de gênero motivou o projeto do mural e da iluminação em primeiro lugar, de acordo com a prefeita: criar caminhos onde as mulheres pudessem se sentir seguras caminhando para casa. Muitos dos murais celebram mulheres, sejam moradoras como Bautista ou figuras famosas da história, assim como símbolos feministas.

“Estamos tentando recuperar as ruas para as mulheres”, disse Brugada, a prefeita.

Alejandra Atrisco Amilpas, uma artista que pintou cerca de 300 murais em Iztapalapa, acredita que eles podem deixar os moradores mais orgulhosos de onde moram, mas ela admite que eles só podem chegar até aí.

"Pintar ajuda muito, mas infelizmente não pode mudar a realidade dos problemas sociais", ela disse. "Um mural não vai mudar se você se preocupa com a mulher que é agredida na esquina."

Atrisco, que é lésbica, disse que se deparou com atitudes conservadoras durante o projeto, seja de artistas homens duvidando das suas capacidades, seja de autoridades locais impedindo-a de pintar murais com a temática LGBTQIA+.

“Violência contra mulheres, sim, mas lésbicas, não”, ela disse, sorrindo com pesar.

Ainda assim, Atrisco acredita que seu trabalho pode afetar a vida dos moradores representando os personagens de Iztapalapa em cores.

“Todo dia você enfrenta um novo desafio, todo dia um novo muro e uma nova história”, ela disse. “Você realiza um pouco os sonhos - você se torna um criador de sonhos.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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