Ji Lee
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Como a próxima desaceleração econômica nos surpreenderá

Na campanha para conter riscos que causaram a Grande Recessão, banqueiros podem ter plantado sementes para a próxima crise econômica global

Ruchir Sharma, The New York Times

29 Setembro 2018 | 10h00

Depois da falência do Lehman Brothers, há dez anos, houve um debate público sobre o fato de que os principais bancos americanos cresceram a ponto de se tornarem “grandes demais para falir”. Mas o debate não levava em conta o fenômeno maior, ou seja, que os mercados globais onde ações, títulos e outros ativos financeiros são negociados, haviam crescido demais a ponto de se despertar preocupações.

Na véspera da crise de 2008, os mercados financeiros globais haviam superado amplamente a economia global. Haviam triplicado em tamanho em relação aos trinta anos anteriores, chegando a 347% da produção econômica mundial bruta, impulsionados pelo dinheiro fácil que os bancos centrais despejavam neles. Esta é uma das principais razões pelas quais os efeitos em cascata da falência do Lehman foram de tal modo importantes que causaram a pior crise mundial desde a Grande Depressão.

Hoje, os mercados são maiores ainda, chegando a 360% do PIB global, um crescimento recorde. E as autoridades financeiras inadvertidamente foram alimentando esta nova ameaça. Na década passada, os maiores bancos centrais do mundo - nos Estados Unidos, Europa, China e Japão - registraram um aumento dos seus balanços de menos de 5 trilhões de dólares para mais de 17 trilhões de dólares, na tentativa de promover a recuperação. Grande parte deste dinheiro que acabava de ser impresso entrou nos mercados financeiros, onde frequentemente costuma seguir o caminho da menor regulamentação.

Os banqueiros centrais e outras autoridades reguladoras conseguiram em grande parte frear a prática que causou o desastre de 2008: os empréstimos arriscados no caso de hipotecas concedidos pelos grandes bancos. Mas com o dinheiro conseguido de maneira tão fácil jorrando nos mercados globais, teriam de surgir novas  ameaças - em lugares que as autoridades reguladoras não costumam submeter a uma vigilância tão rigorosa.

Nos 290 trilhões de dólares dos mercados financeiros globais, existem centenas de novos riscos. Entre os mais preocupantes estão os tomadores corporativos e os chamados credores que não são bancos.

Quando os empréstimos bancários secaram, em número cada vez maior as companhias começaram a captar dinheiro por meio da venda de títulos, muitos dos quais agora estão nas mãos destes credores não bancos - principalmente agentes financeiros como fundos de títulos, fundos de pensão ou seguradoras.

Entre as corporações listadas no índice das 500 da Standard & Poor’s, a dívida triplicou, depois de 2010, para uma vez e meia os ganhos anuais - perto dos picos históricos alcançados nas recessões do início dos anos 90 e 2000. E em alguns setores dos mercados de títulos, a carga da dívida é muito maior.

Em 2008, algumas companhias dos Estados Unidos negociadas em bolsa foram privatizadas, muitas vezes exatamente a fim de evitar um escrutínio mais rigoroso das autoridades reguladoras. Muitas destas companhias foram adquiridas por empresas de ‘private equity’, em negócios que costumam deixar as companhias sobrecarregadas por dívidas enormes. Neste exato momento, a típica companhia americana, pertencente a uma empresa de 'private equity’, tem uma dívida seis vezes superior aos seus ganhos anuais - ou o dobro do patamar que uma agência de classificação de risco consideraria de alto risco ou “junk” (de alto rendimento e risco elevado).

Em uma época em que os bancos centrais trabalham com taxas de juros a baixas recordes, os investidores estão mais dispostos a comprar ‘junk’ por causa dos rendimentos mais elevados. E esta caça aos retornos mais elevados acontece em todo o mundo porque os gestores de ativos procuram retornos mais elevados onde quer que possam ser encontrados, nos mercados de ‘private equity’ dos Estados Unidos ou nos mercados de títulos da Europa e nas economias emergentes, como Argentina e Turquia.

Os maiores riscos fora dos Estados Unidos estão na China, que até o momento imprimiu mais dinheiro e emitiu a maior dívida do que qualquer outro país desde 2008. O fácil acesso ao dinheiro contribui para alimentar bolhas em toda parte, desde ações e títulos até imóveis na China, e é difícil perceber como ou quando estas bolhas podem desencadear uma crise profunda. Mas se ou quando estas bolhas  poderão desencadear uma grave crise. Mas se e quando Pequim  chegar ao ponto em que não puder mais imprimir dinheiro, ocorrerá uma queda brutal na economia.

Em sentido mais amplo, o gatilho que devemos observar é o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, porque muitos outros bancos centrais costumam seguir as pegadas do Fed na hora de estabelecer as taxas de juros. Nos últimos 50 anos, toda vez que o Fed conteve o dinheiro fácil elevando as taxas de juros, seguiu-se uma queda nos mercados ou na economia.

Muitas Cassandras temeram que o endurecimento do Fed, iniciado em 2004, pudesse ajudar a provocar uma recessão - e de fato acabou provocando, em 2008. Os juros continuam historicamente baixos nos Estados Unidos, mas o Federal Reserve começou a elevá-los há mais de dois anos. e deverá continuar o seu programa de endurecimento no próximo.

Esta ação do Fed já está afetando os mercados emergentes. Quando os mercados americanos começarem a senti-lo, os resultados serão provavelmente diferentes dos de 2008 - com derretimentos corporativos em lugar de moratórias das hipotecas, e os fundos de ações e títulos serão afetados antes dos grandes bancos de investimentos.

Se a isto se seguir uma crise, será mais provavelmente uma normal recessão e não outra tempestade em 100 anos, como em 2008. A maioria dos economistas acredita que a probabilidade de esta recessão ocorrer antes do final de 2020 é inferior a 20%.

Mas as previsões dos economistas costumam ser mais erradas do que certas. Os especialistas em previsões falharam em todas as recessões desde que o seu registro começou a ser feito em 1968, e uma das principais razões disto é a “recency bias”: o uso de modelos de previsão econômica que costumam atribuir um peso excessivo a eventos recentes.

Eles acreditam que atualmente os grandes bancos estão em condições muito melhores do que em 2008, e as famílias estão menos oneradas de dívidas hipotecárias; portanto minimizam a probabilidade de outra recessão.

Para terem qualquer chance de antecipar e prevenir a próxima crise, as autoridades reguladoras  precisam procurar as ameaças que surgiram desde 2008. Precisam reconhecer que os mercados agora exercem uma influência desmedida na economia, e suas tentativas de controlar cada parte deste imenso mar de dinheiro só afastaram os riscos dos grandes bancos americanos e os empurraram na direção de novas instituições credoras fora do setor bancário.

Os mercados chegaram a estas dimensões em parte porque todas as vezes em que eles tropeçaram, foram resgatados pelos bancos centrais graças ao dinheiro fácil. Quando subiram rapidamente - como aconteceu nos últimos anos - as autoridades continuaram a apoiá-los afirmando que o seu negócio não é explodir bolhas. Agora, os mercados são tão grandes que é difícil imaginar como as autoridades poderão reduzir os riscos que eles representam sem precipitar um acentuado declínio capaz de prejudicar a economia. Como aconteceu com os grandes bancos em 2008, os mercados globais cresceram “demais para falir”.

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