Thomas Peter/Reuters
Thomas Peter/Reuters

Como a terceirização das emissões de gás afeta o mundo

O que acontece quando os países 'terceirizam' suas emissões?

Brad Plumer, The New York Times

09 Outubro 2018 | 06h00

Nos últimos dez anos, os Estados Unidos e a Europa deram passos importantes na redução das emissões dos gases causadores do efeito estufa. Esta tendência é frequentemente considerada um sinal de progresso na luta contra a mudança climática.

Mas estas iniciativas parecem muito menos impressionantes quando levamos em conta o intercâmbio mundial. Muitos países ricos efetivamente “terceirizaram” grande parte de sua poluição de carbono ao exterior, importando mais aço, cimento e outras mercadorias de fábricas que trabalham na China e em outros lugares, em lugar de produzi-las internamente.

A Grã-Bretanha, por exemplo, cortou drasticamente um terço das emissões geradas dentro de suas fronteiras entre 1990 e 2015. Mas, se incluirmos todas as emissões globais produzidas na fabricação  do aço importado usado nos arranha-céus e nos automóveis de Londres, veremos que o total da marca de carbono da Grã-Bretanha aumentou ligeiramente naquele espaço de tempo.

“É um grave problema”, disse Ali Hasanbeigi, cientista-pesquisador e diretor executivo da Global Efficiency Intelligence, uma empresa de consultoria. “Se um país cumpre suas metas em relação ao clima terceirizando as emissões em outro lugar, não estaremos fazendo tanto progresso quanto poderíamos imaginar.”

O dr. Hasanbeigi é o autor de um relatório sobre o comércio global de carbono, que calcula que 25% do total das emissões mundiais estão sendo atualmente terceirizadas desta maneira. O relatório define isto como uma “brecha de carbono”, porque os países raramente examinam a marca de carbono do que eles importam.

Há um ano, os legisladores da Califórnia estabeleceram novas normas para a redução do carbono para o aço que o estado compra para os seus projetos.

Alguns ambientalistas a consideram a próxima fronteira da política do clima.

O relatório, que analisa o comércio de 15 mil diferentes setores - de brinquedos a equipamento de escritório a vidro e alumínio - baseia-se em pesquisas anteriores fornecendo os quadros mais detalhados do comércio global de carbono.

Não surpreende minimamente o fato de a China, que se tornou a maior emissora de dióxido de carbono do mundo, continuar sendo a fábrica do planeta. Em 2015, cerca de 13% das emissões da China foram geradas na produção de materiais para outros países. Na Índia, outro país campeão de emissões que cresce rapidamente, a porcentagem é de 20%.

Os Estados Unidos continuam os principais importadores do mundo do que os pesquisadores chamam de “carbono incorporado”. Se os Estados Unidos fossem responsabilizados por toda a poluição que há no mundo, decorrente da produção de automóveis, vestuário e outros bens que os americanos usam, as emissões de dióxido de carbono da nação seriam 14% maiores do que sugerem os seus números referentes ao que é produzido internamente.

Entre 1995 e 2015, enquanto países mais ricos como Japão e Alemanha reduziam as próprias emissões, eles também estavam dobrando ou triplicando a quantidade de dióxido de carbono terceirizado para a China.

Segundo o acordo do clima de Paris, os países são responsabilizados somente pelas emissões produzidas dentro de suas fronteiras. Os especialistas há muito debatem se isto faz algum sentido. Será injusto que a China e a Índia sejam culpadas pelas emissões que ocorrem porque elas fabricam produtos para nações mais ricas? E o fato de também se beneficiarem por terem essas fábricas e empregos?

A migração de indústrias como cimento e aço para outros países também pode deslocar a produção para fábricas menos eficientes submetidas a normas mais brandas em relação à poluição. Uma solução possível para toda esta transferência de emissões seria que todos os países adotassem um imposto global sobre o carbono aplicável igualmente no mundo todo.

Mas, no mundo real, é improvável que isto venha a acontecer em algum momento previsível. E, embora alguns políticos como o presidente Emmanuel Macron, da França, tenham sugerido que a Europa deveria aplicar o seu próprio imposto sobre o carbono a produtos importados, a ideia não ganhou força.

Chris Erickson, o diretor executivo da Climate Earth, uma empresa que ajuda as companhias a avaliarem o impacto ambiental das suas cadeias de suprimentos, afirma que a transparência pode ser reveladora. 

A sua companhia criou um banco de dados que pode ser consultado de diferentes combinações concretas, permitindo que os arquitetos procurem materiais que, em alguns casos, tenham uma marca de carbono equivalente a um terço da média do setor.

Isto, por sua vez, poderia pressionar os fornecedores a reduzirem suas emissões. “As próprias companhias que não querem admiti-lo”, disse Erickson, “sabem que uma mudança se aproxima.

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