Min Heo/The New York Times
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Como contar uma ótima historinha na hora de dormir

Lembre-se de incrementar a narrativa com pausas, vozes diferentes e mudanças no ritmo

Paul L. Underwood, The New York Times - Life/Style

19 de outubro de 2020 | 05h00

Era uma vez um pai. Esse pai — conhecido em todo o reino como “Papai” — tinha como função contar histórias. Certa noite, empoleirado no pé da cama da criança mais velha, pediram-lhe que contasse uma história. Ele gaguejou. Balbuciou e enrolou a língua.

Murmurou algo a respeito de uma menina que tentava ir à escola e tinha pelo caminho algumas vacas nefastas. Enquanto o pai falava, sua filha parecia entediada, como uma produtora de cinema durante a exibição de um corte frustrante. Ela fez algumas observações: sugeriu que a protagonista fosse uma princesa, e ajudaria se ela tivesse um unicórnio, idealmente um que soubesse voar.

O pai fez as devidas alterações e, imediatamente, a história se tornou um sucesso de crítica. O pai prometeu nunca mais ter esse tipo de lapso criativo. Isso foi há mais de três anos. Foi a primeira de aproximadamente 600 historinhas contadas na hora de dormir, número que segue aumentando.

Ao contar essas histórias, aprendi o que funciona para minha filha (princesas, bruxas, mágica) e o que não funciona (histórias nas quais a moral é óbvia). Estou longe de ser um mestre — em mais de uma ocasião, cochilei no meio da frase. Ainda assim, aprendi algumas lições úteis pelo caminho. Ao criar este guia, conversei também com vários especialistas, entre eles a apresentadora de um podcast de histórias para crianças, um contador de histórias indicado para o Grammy e uma pesquisadora que estuda as historinhas. Eis o que você precisa saber.

Ainda é necessário ler para seus filhos

Que fique claro: ler ainda é uma ferramenta indispensável para pais e mães. Contar historinhas deve ser um complemento às histórias lidas, e não um substituto. Costumo contar uma história com as luzes apagadas, depois de ler com as crianças um livro na hora de dormir. Mas as historinhas podem ser contadas a qualquer momento — para encurtar uma longa viagem de carro ou simplesmente para fazer o tempo passar.

Seja qual for o momento, a historinha contada traz estímulos únicos para a criança. “Escutar uma historinha sem a ajuda da ilustração exige que a criança imagine os personagens e os acontecimentos na própria cabeça", disse Rebecca Isbell, consultora da primeira infância e professora emérita pela Universidade Estadual do Leste do Tennessee.

“Elas criam a história por conta própria. Estão escutando e, em suas cabeças, transformando aquilo em um filme”. Esses filmes mentais são poderosos — em suas pesquisas, Isbell percebeu que as crianças compreendem melhor (e retêm mais de) uma história contada do que uma história lida.

“Me parece que algo se perde com a leitura", disse ela. “Ficamos concentrados nas palavras e nas frases, e não no seu significado mais profundo.” Quando contamos uma história sem ler, não há livro para absorver nossa atenção, e acabamos gesticulando e usando o contato olho no olho para aumentar o drama, o suspense e a intriga.

No fim, Isbell concluiu que as histórias contadas e as histórias lidas funcionam melhor juntas para ajudar a criança no desenvolvimento da linguagem e da comunicação, mais ou menos como desejamos que a criança faça uma refeição equilibrada.

Lembre-se do be-a-bá da história contada

Se estiver inventando uma história do nada, lembre-se que toda narrativa deve ter começo, meio e fim. Deve haver um conflito e uma solução. Precisa de ajuda? Pense nos contos folclóricos. No podcast Circle Round, da rádio pública WBUR, de Boston, dedicado às histórias infantis, a apresentadora Rebecca Sheir usa o folclore como fonte de inspiração para contar histórias divertidas para crianças.

Já aproveitei meu conhecimento limitado da Odisseia (que já foi transmitida oralmente) e da Bíblia (Davi e Golias funcionam super bem). Isso nos poupa do esforço mental de bolar uma história original todas as noites. Vários especialistas recomendam as histórias das “Fábulas de Esopo", que entretêm crianças há milênios e incluem “A Lebre e a Tartaruga". Por quê? Para as crianças, os protagonistas “não são realmente animais, e sim pessoas", disse Isbell.

Eles visualizam os personagens e se identificam com eles, e as nuances da moral — devagar e sempre vence a corrida, por exemplo — são coisas que qualquer criança consegue entender. Se estiver realmente sem ideias, conte uma história sua. “Todo mundo tem uma história para contar: uma situação que exigiu uma solução criativa, uma surpresa que nos fez gargalhar", disse Rebecca. Em particular, histórias da nossa infância são cativantes porque, como diz Rebecca, “as crianças têm dificuldade até em acreditar que o pai e a mãe já foram crianças".

Dê á história um rumo inesperado

Diane Ferlatte já participou de festivais de contação de histórias em cinco continentes e em boa parte dos Estados Unidos. Seu álbum de histórias de Brer Rabbit, de 2006, rendeu-lhe uma indicação de melhor álbum falado para crianças. Em resumo, é uma contadora de histórias que serve como referência para todos.

O conselho dela é usar pausas, mudanças na voz e no ritmo para manter a criança envolvida. “As pausas são muito importantes", disse ela. “Deixam espaço para a curiosidade e o suspense.” Podemos usar pausas estratégicas para deixar a criança pensar no que vai acontecer em seguida, e então levar a história por uma direção inesperada.

Ou simplesmente para ver se estão prestando atenção. Rebecca concorda com o conselho de Diane. “Quando inventamos uma história, é muito importante usar a voz", disse ela. “Podemos variar o ritmo, o timbre, a entonação, a cadência. Podemos falar bem rápido! Podemos diminuir o… ritmo… das… palavras. Podemos subir a voz se alguém está escalando uma montanha, ou baixar a voz se estão descendo. Não é necessário entender de música — todos nós temos instrumentos de voz que usamos a vida inteira.”

Um alerta: às vezes, as crianças não gostam quando encarnamos Jim Carrey. Ou, como disse minha filha outra noite, “Pare de fazer vozes engraçadas". Azar dela. Minha voz de bruxa má é ao mesmo tempo assustadora e hilária.

Use o corpo todo

Uma das vantages da história contada em relação à história lida é o fato de não termos que segurar um livro nem olhar para suas páginas, deixando livres as mãos e os olhos. É a diferença entre alguém lendo um livro de piadas e uma apresentação dos comediantes Chris Rock ou Ali Wong. Como diz Diane, “Seria maravilhoso se os livros pudessem nos dar som, movimento, vozes e expressões faciais, mas eles não podem".

Use as mãos para mostrar se algo é imenso ou minúsculo, toque em objetos próximos para imitar as batidas em uma porta ou friccione as mãos quando algo acontece rapidamente. Essa dimensão física envolve as crianças na história. Nas palavras de Isbell, quando contamos uma história a outra pessoa, “Estamos dançando e nos movimentando juntos".

Incentive o público a participar

“Uma das coisas que podemos fazer com uma história contada é mudá-la", disse Isbell. Se a sua filha prefere que a protagonista seja uma sereia em vez de uma lesma, podemos mudar isso. Uma viagem pelo alto mar pode se tornar uma jornada até Marte. “Podemos mudar a ordem dos acontecimentos, os personagens, as falas. Isso estimula a fluência de ideias que queremos ver nos nossos filhos”. 

Como quando cantamos, podemos incentivar um chamado e resposta, ou usar rimas para manter a criança envolvida. Diane recomenda deixar que a criança complete o fim da frase. “Quando contamos histórias, queremos o envolvimento ativo dos pequenos", disse Isbell.

“Queremos que sejam cocriadores da história, para que não fiquem simplesmente escutando, mas participem ativamente.” Isso também ajuda quando temos pouco material. “Quando estamos improvisando e as ideias começam a se esgotar, use a participação do público para fazer uma pausa", disse Rebecca. “Vale até roubar as ideias das crianças.”

Não esqueça a trilha sonora

Essa dica é boa para histórias contadas em outros momentos que não sejam a hora de dormir — durante um longo passeio de carro, por exemplo, ou para animar a hora do banho. A ideia é usar objetos de cena ou acompanhamento musical ao vivo, como fazem os profissionais nos festivais ou nas gravações.

“A criança vai encarnando uma versão infantil de John Williams", disse Rebecca, referindo-se ao icônico compositor do cinema. Vale usar um instrumento de verdade ou mesmo dois palitinhos “e, enquanto você conta a história, a criança faz o acompanhamento. Pode deixar a criança assumir as rédeas: se tocarem mais rápido, acelere a ação, ou de desacelerarem, siga-os".

Outra ideia é aplicar a técnica de se revezar ao contar uma história, ou usar dados como os Rory’s Story Cubes para determinar a direção que a história deve seguir. Em um momento em que livrarias e bibliotecas físicas continuam fora de questão para muitos de nós, contar histórias é uma forma de introduzir novas narrativas no nosso cotidiano. É também uma forma de fortalecer os elos com os filhos, estimular a imaginação natural deles e, quem sabe, despertar a sua.

No nosso lar, sei que eles preferem a mãe para quase tudo… mas contar histórias é um domínio exclusivamente meu. Como um programa de TV que continua no ar, minhas histórias são manjadas e previsíveis, mas minha filha pede ansiosamente por mais uma sempre que vou colocá-la na cama.

Ah, e estamos falando de uma daquelas raras ocasiões na vida em que contar uma história que faz o público dormir é o verdadeiro objetivo. Assim, mesmo sem poder prometer que todos viverão felizes para sempre, sugiro a você que introduza um pouco de criatividade em um momento burocrático e, às vezes, difícil como a hora de dormir. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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