Lilli Carré/The New York Times
Lilli Carré/The New York Times

Como desenvolver resiliência em tempos difíceis

No livro 'The Myth of Closure', Pauline Boss oferece orientação para seguir em frente em meio às dolorosas perdas do momento

Jane E. Brody, The New York Times Life/Style, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2022 | 05h00

Muita gente que conheço está aguardando, pacientemente ou não, que a vida volte ao normal. Estamos ansiosos pelo dia em que poderemos viver novamente sem medo de um vírus mortal que nos persegue, estragando eventos sociais e culturais, viagens, estudos e marcos da vida que, uma vez perdidos, jamais poderão ser recuperados.

Muita gente também continua paralisada pelo desespero de ter perdido um ente querido – bem como pela perda de emprego, de negócios, de moradia, de renda e até mesmo de sono – e está se perguntando: como lidar com tantas barreiras que bloqueiam o caminho?

Uma maneira é recorrer a uma ferramenta muito antiga que nos permite enfrentar a adversidade: a resiliência. Esta é a capacidade de enfrentar os golpes da vida, "porque, se você for frágil, vai sucumbir", disse Pauline Boss, professora emérita da Universidade de Minnesota e autora do livro recém-publicado The Myth of Closure: Ambiguous Loss in a Time of Pandemic and Change (O mito do encerramento: perda ambígua em tempos de pandemia e mudança, em tradução livre).

Terapeuta familiar, educadora e pesquisadora, Boss é mais conhecida por seu trabalho pioneiro sobre a "perda ambígua", que também é o título de seu livro de 1999 que aborda as perdas físicas ou emocionais não resolvidas e que muitas vezes não têm solução. "Quando a pandemia passar, as coisas não vão voltar ao 'normal'. Não podemos achar que teremos a vida que tínhamos antes", comentou Boss, que aos 87 anos passou por várias "convulsões", começando pela Segunda Guerra Mundial.

Em uma entrevista, ela afirmou: "O normal implica o status quo, mas as coisas estão sempre mudando, e, se você não mudar, não cresce. Nunca mais seremos os mesmos. A pandemia é épica, um poder maior que nós, e temos de ser flexíveis e resilientes o suficiente para nos adaptarmos e sobrevivermos. E vamos sobreviver, mas nossa vida vai mudar para sempre."

A resiliência permite que nos adaptemos ao estresse e mantenhamos o equilíbrio diante da adversidade. "Quando pessoas resilientes têm de enfrentar uma crise que tira sua capacidade de controlar a vida, encontram algo que conseguem controlar. No início da pandemia, muitos passaram a fazer pão, cozinhar em casa e limpar as gavetas porque eram atividades que podiam controlar. Esses são mecanismos de enfrentamento funcionais. Se, no entanto, não conseguem se adaptar diante de um problema que não podem resolver, muitas vezes recorrem a soluções absolutas que são disfuncionais e decretam que 'a pandemia é uma farsa' e 'o vírus não existe'."

Embora a resiliência seja frequentemente vista como um traço de personalidade inerente que as pessoas têm ou não têm, alguns estudos mostraram que se trata de uma característica que pode ser conquistada. É possível adotar comportamentos, pensamentos e ações que ajudam a desenvolver a resiliência, em qualquer idade.

Boss assegurou aos pais que seus filhos ficarão bem, apesar das interrupções escolares e sociais que a pandemia causou: "As crianças são resilientes por natureza e vão sair mais fortes por terem sobrevivido a essa coisa ruim que aconteceu com elas. Vão se recuperar e crescer a partir disso. Mais do que nas crianças, precisamos nos concentrar nos adultos. Essa geração de pais não enfrentou nenhuma guerra mundial, nenhuma ameaça global dessa escala." Muitos pais estão lutando, embora ela receie que alguns possam estar protegendo demais seus filhos, o que pode acabar corroendo capacidade natural deles de resolver problemas e lidar com a adversidade.

Os sentimentos de Boss fizeram florescer novamente algumas preocupações que meu marido e eu tivemos em 1980, quando nossos gêmeos de dez anos estavam matriculados em uma escola pública de ensino médio em que havia muitos casos de mau comportamento e ameaça física. Os meninos não quiseram ir para uma escola particular naqueles três anos tumultuados, argumentando: "O que aprenderíamos sobre a vida em uma escola particular?"

Avançando

Em seu novo livro, Boss oferece orientações para ser mais resiliente, superar as adversidades e viver bem apesar das perdas dolorosas. Cita Viktor E. Frankl, neurologista, psiquiatra, autor de livros e sobrevivente do Holocausto na Áustria, que escreveu: "Quando não conseguimos mais mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos." Ela recomenda que as pessoas usem cada orientação conforme achem necessário, sem seguir uma ordem específica, dependendo das circunstâncias.

Encontrar significado. A orientação mais desafiadora para muitas pessoas é encontrar um significado, dar sentido a uma perda e, quando isso não for possível, realizar algum tipo de ação. Talvez buscar justiça, trabalhar em uma causa ou tentar corrigir um erro. Quando o irmão mais novo de Boss morreu de poliomielite, sua família, devastada, bateu de porta em porta em uma ação conhecida como March of Dimes (Marcha por moedas), que visava levantar fundos para financiar a pesquisa de uma vacina.

Ajuste sua noção de domínio. Em vez de tentar controlar a dor da perda, deixe a tristeza fluir, continue dando seu melhor e, no fim, os altos e baixos vão ficar cada vez menores. "Não temos poder para destruir o vírus, mas temos o poder de diminuir seu impacto sobre nós", escreveu Boss.

Reconstrua a identidade. É bastante útil adotar uma nova identidade que esteja em sincronia com suas circunstâncias atuais. Quando o estado de saúde do marido de Boss piorou e se tornou irreversível, por exemplo, a identidade dela mudou com o tempo de esposa para cuidadora e, depois que ele faleceu em 2020, ela, pouco a pouco, passou a pensar em si mesma como uma viúva.

Normalize a ambivalência. É normal não saber como agir e se sentir ambivalente quando uma perda não fica clara. Mas Boss diz que é melhor não esperar por clareza; a hesitação pode levar à inação e colocar a vida em espera. É melhor tomar decisões imperfeitas do que não fazer nada.

Reveja o apego. A autora enfatiza que, em vez de tentar se desfazer do apego a um ente querido que se foi, tente mantê-lo presente no coração e na mente e reconstrua gradualmente a vida de uma nova maneira, com um novo senso de propósito, novos amigos ou um novo projeto. Aceite a realidade da perda e revise lentamente seu apego à pessoa que morreu. Segundo ela, "não é preciso ir atrás de um ponto-final, mesmo que surjam outros relacionamentos".

Encontre uma nova esperança. Vá atrás de algo novo que lhe permita continuar de uma nova maneira. Não fique parado, tome uma atitude e busque novas conexões capazes de minimizar o isolamento e promover o apoio que, por sua vez, nutra sua resiliência.

Talvez o conselho mais valioso de Boss diante de perdas que ocorreram na pandemia seja: "Temos de ter esperança não em reconquistar o que tínhamos antes, mas no que podemos criar agora e no futuro." Ela sugere trocar ideias com outras pessoas e tentar coisas novas. "Espere encontrar algo novo, um propósito que o sustente e lhe dê alegria pelo resto da vida."

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