Como enfrentar uma situação quando tudo continua mudando

Como enfrentar uma situação quando tudo continua mudando

Fazer planos é basicamente algo do passado, mas há maneiras de lidar com a situação

Cindy Lamothe, The New York Times - Life/Style

19 de setembro de 2020 | 05h00

Como planejar quando é impossível traçar planos? O chão sob nossos pés muda constantemente. Planejar para mais de uma semana parece fútil – quase estúpido – uma vez que ninguém sabe o que a próxima semana nos trará, muito menos o próximo mês. Um aumento nos casos do coronavírus na sua área? Preocupação com desastres naturais? E junto com a inquietação com a saúde e a tranquilidade financeiro só piora as coisas.

“As perguntas são intermináveis e as respostas estão sempre mudando”, disse Nick Tasler, psicólogo e autor de Richochet What To Do When Change Happens To You. “Um dia, a OMS recomenda isto, no dia seguinte o CDC recomenda outra coisa diferente. Um dia a economia começa a abrir. Uma semana depois, há um novo fechamento”, diz Tasler.

“E tudo muda não só de um dia para o outro, mas de país para país, estado para estado”. O bastante para nos desgastar. Segundo especialistas, saber como reagir quando seus planos desabam é fundamental para recalibrar as coisas. Felizmente existem estratégias que podemos adotar que nos ajudam a enfrentar momentos em que a vida se torna uma onda sem fim de situações difíceis e complicadas.

Superando as barreiras mentais

Quando sofremos um revés é fácil nos apegarmos a sensações de pânico e frustração. Um dos aspectos mais psicologicamente perturbadores para muitas pessoas neste momento é a mudança radical da nossa rotina diária, diz Tasler. “Muitos de nós já havíamos tomado decisões determinando como passar a maior parte de cada dia – hora de levantar, o que vestir para ir ao trabalho, que horário sair para trabalhar, onde almoçar, etc. Mas agora, repentinamente, tudo tem de ser reprogramado de modo diferente”.

Mas a chave para ter a agilidade mental e não cair na ansiedade, diz o psicólogo, é nos lembramos que seria bom mudar nossa abordagem. Uma maneira disto é usar uma técnica chamada distanciamento temporal, que é como ter acesso à sua máquina do tempo mental e pessoal em que você consegue transcender o aqui e agora e visualizar o futuro. Tasler sugere que fechemos os olhos e nos perguntemos: “em 10 anos, como desejo lembrar de contar a história de como respondi a esta crise?”.

Roxane Cohen Silver, professora de ciência psicológica, medicina e saúde pública na Universidade da Califórnia, em Irvine, concorda que concentrar no futuro, e não no passado, é o que no final vai nos ajudar a enfrentar experiências difíceis. “Muitas pessoas deparam com adversidades em suas vidas que são inesperadas. E quando superam essas dificuldades aprendem coisas sobre si mesmas que não percebiam antes”.

O que não significa subestimar as reais sensações de frustração e angústia que experimentamos depois de um contratempo – especialmente quando investimos recursos financeiros e emocionais. Mas se conseguirmos encarar nossos planos fracassados com resiliência ficamos mais capacitados a vencer esses desafios.

Não subestime sua capacidade de adaptação

Aqueles que são fixados em fazer planos com frequência se atêm a se ficar nos prejuízos em vez de confiar na sua capacidade de encontrar novas soluções. Mas agir com base no medo não nos permite acessar nossas plenas capacidades cognitivas, diz Margie Warrell, especialista em liderança e autora do livro You’ve Got This! The Life-Changing Power of Trusting Yourself. Este estado de espírito também “corrói a qualidade das nossas tomadas de decisão, reprime nossa capacidade de adotar ações mais construtivas”, acrescenta ela.

Se ficamos presos obstinadamente aos planos cancelados, por exemplo, não deixaremos espaço para novas possibilidades surgirem. “Neste momento as pessoas vêm enfrentando uma enorme incerteza, mas a verdade é que nós nunca realmente temos certezas. Pensamos que temos. É uma ilusão”.

Quando alguma coisa muda, nossa mente entra numa batalha contra essa mudança, porque estamos programados para a tranquilidade e a certeza, diz ela, acrescentando que podemos controlar esse impulso “confiando na nossa capacidade inata de lidar com a mudança e nos adaptarmos a novas situações”. “É realmente realista achar que seus planos tinham de se realizar do modo como você desejava?”, diz ela.

“Aprendi que o que está fora do nosso controle nos ensina uma lição, de não nos mantermos agarrados à maneira que achamos que as coisas têm de ser “. Resultado: uma grande parte da nossa flexibilidade mental se resume em aceitar que o que achamos que conhecíamos era incognoscível, para começar.

“Quando aceitam essa realidade – por mais assustadora que possa ser – muitas pessoas na verdade percebem que ela é libertadora. Aceitar a realidade de que não podemos controlar tudo deixa minha mente livre para explorar nossas possibilidades do que podemos controlar”.

Tome uma atitude, por menor que seja

Quando deparamos com mudanças inesperadas, adotar medidas imediatas para melhorar nossa situação vai nos ajudar rapidamente a mudar nossa abordagem. “A chave é começar de maneira quase estupidamente insignificante. “Escolha algo que seja fácil e certo de ser realizado a ponto de ser quase cômico”, diz Tasler. Uma estratégia que ele recomenda é focar seu planejamento da maneira que um cientista faria: realizando pequenos experimentos.

Por exemplo, se o seu plano consiste em fazer compras online de um supermercado particular neste mês, mas verifica que há coisas que precisa e que encontra apenas numa outra loja, então você ainda está ganhando porque invalidou a hipótese que sugere que precisa de uma só loja”, disse Tasler, acrescentando que é possível aplicar este princípio a outras áreas da vida como trabalho e exercícios.

A ideia não é de que algumas dessas atitudes resolverão o seu problema, “mas darão início a uma bola de neve psicológica em sua mente, restaurando vigorosamente o controle das suas ações e reavivando a crença de que o que você faz é importante”, diz Tasler.

“Durante um curto período de tempo, seu estado mental muda e você está pronto para enfrentar desafios maiores, mais importantes”. Embora nossa sensação seja de que nossas opções são limitadas, ainda assim nos sentimos mais tranquilos dando o passo seguinte e ajustando os pontos, se necessário.

“Não espere até estar certo de que o futuro se mantém para você conceber um novo plano”, insiste Margie Warrell. “É importante ser decisivo em meio à incerteza, a ambiguidade e a volatilidade deste tempo. Portanto, conceba o seu plano e aja, mas seja corajoso o bastante para mudar rapidamente de curso à medida que a situação mudar em relação ao que você havia planejado”.

Reformule sua situação

Muitos de nós estabelecemos metas e fazemos pressuposições no início do ano e ficamos devastados quando a maior parte desses planos desabam. Mas segundo especialistas, mudar a maneira como encaramos essas experiências vai nos ajudar a focar no crescimento. 

“Reformular uma mudança inesperada é dizer que “consigo aprender a partir disto e meu futuro será melhor a partir daí”, disse Benjamin Hardy, PhD, psicólogo organizacional e autor do livro Personality Isn’t Permanent: Break Free from Self-Limiting Beliefs and Rewrite Your Story. Ajuda também saber que isto vem ocorrendo com todo todas as pessoas no mundo. Para Charlie Gilkey, coach de produtividade e autor do livro Start Finishing: How to Go From Idea to Done, “a graça que todos temos neste momento é que a situação para todo mundo está uma desordem.

“Esta é uma época muito boa para praticar uma comunicação proativa, atualizar nossos pratos e ter uma mente flexível”, disse ele. Outra estratégia é adotar o conceito psicológico do enfrentamento transformativo, que nos ensina a sentir eventos da vida estressantes menos como ameaças e mais como oportunidades para o desenvolvimento pessoal.

“Embora seja inegável a dor de cabeça e as dificuldades destes tempos turbulentos, é importante ser objetivo e buscar meios para transformar isto num catalisador poderoso de mudança transformacional”, diz Margie Warrell. E segundo Tasler, não importa qual seja nossa situação, sempre podemos parar e perguntar: “Quero contar a história do meu medo, ou da minha força de caráter.

E o que isto significa na maneira como passarei o dia de hoje?”. Para Tasler, o fato de nos lembramos das lições que aprendemos a partir de situações de infortúnio do passado nos ajuda a enfrentar qualquer situação difícil que surgir no futuro. “Nós lembraremos que a maneira como vencemos, crescemos e nos tornamos mais fortes em períodos passados não foi por termos um plano perfeitamente escrito com conhecimento perfeito do futuro. Pelo contrário, foi tomando uma decisão a cada ocasião”.  / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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