Gianni Cipriano para The New York Times
Gianni Cipriano para The New York Times

Como Florença se beneficiou das relações com o mundo islâmico

A exposição 'Arte islâmica e Florença dos Medici até o século 20' é uma resposta ao sentimento anti-islâmico na Europa

Farah Nayeri, The New York Times

02 Setembro 2018 | 10h45

FLORENÇA, ITÁLIA - Eles foram feitos na Síria seis séculos atrás e ficam elegantemente expostos numa fileira de vitrines da Galeria Uffizi: cinco jarros de cerâmica que já contiveram aromas, tratamentos e unguentos do Oriente. Esses jarros "Albarelli" são decorados com motivos entrelaçados representando flores, folhas e galhos. E no centro de cada um deles há um lírio - o emblema histórico de Florença.

As jarras contam a história da "Arte islâmica e Florença dos Medici até o século 20", exposição que ficará em cartaz até 23 de setembro, mapeando as trocas antigas e recíprocas entre a cidade e o mundo islâmico. Ocupando a Uffizi e o Museu Bargello, a exposição reúne cerca de 250 objetos - cerâmicas, tapeçarias, sedas, manuscritos, peças de metal e vidro - que foram encomendados, adquiridos ou recebidos como presente pelos habitantes da cidade ao longo de um período de 500 anos.

Ainda que a interação de Florença com o mundo muçulmano tenha começado na Idade Média, essa troca se intensificou com a família Medici, que controlou a cidade entre o século 15 e o início do século 18. Florença prosperou graças, em parte, à exportação de tecidos (principalmente seda e veludo) para o mundo muçulmano. Em troca, eram importadas tapeçarias, especiarias e seda bruta, bem como as melhores peças de vidro, cerâmica e metal. Os laços culturais sobreviveram ao século 19 e ao início do 20.

Hoje, os italianos têm pouco contato com o mundo islâmico, a não ser pelos muçulmanos que vivem no país e as notícias que a mídia traz de guerras no Oriente Médio e atividade terrorista de inspiração islâmica. Esse contexto de tensão levou alguns a associarem o Islã à violência, incentivando um sentimento anti-islâmico que, no início do ano, ajudou a conduzir ao poder um governo populista com a promessa de combater a imigração. A exposição em Florença é uma resposta acadêmica a tais acontecimentos.

"Me pareceu que, entre todas as exposições possíveis, esta seria particularmente prioritária", disse Eike Schmidt, diretor da Galeria Uffizi. "Com frequência, vemos a falta de conhecimento e compreensão de outras culturas, em especial a islâmica. São tensões que observamos no presente, de ambas as partes".

Schmidt destacou que o Renascimento italiano não teria ocorrido sem a contribuição dos sábios islâmicos - em particular, as descobertas nas áreas da matemática teórica, geometria e óptica, que contribuíram para o domínio da perspectiva entre os artistas locais.

A exposição está repleta de importações anteriormente populares em Florença que foram adquiridas no que hoje seriam Egito, Síria, Irã, Iraque, Turquia e Espanha: sedas e azulejos otomanos, tapeçarias de mamelucos, manuscritos persas com iluminuras e peças de metal sírias (diz-se que o governante da república florentina, Lorenzo de Medici, usava mais de 100 peças do tipo).

Em "Adoração dos Magos", de Gentile da Fabriano, pintada em 1423, os halos dourados de Maria e José são decorados com letras árabes. E as muitas tapeçarias gigantes em exposição servem como lembrete de sua popularidade nos séculos 15 e 16.

Stefano Allievi, professor de sociologia da Universidade de Pádua, que escreveu livros a respeito do Islã na Itália, disse que as exposições podem melhorar a imagem que o público faz de comunidades como os muçulmanos italianos.

A exposição de Florença "ajuda os italianos a compreenderem que o Islã não é algo que remete a povos primitivos ou analfabetos, mas a uma grande civilização que mantinha relações com a Itália", explicou. "Além disso, confere aos muçulmanos italianos motivo para se orgulharem, bem como a sensação de pertencimento".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.