Doug Chayka para The New York Times
Doug Chayka para The New York Times

Como Mark Zuckerberg se tornou 'bom demais para fracassar'

Após as turbulências dos últimos dois anos, líderes do setor de tecnologia acreditam que o criador do Facebook deve deixar a empresa

Farhad Manjoo, The New York Times

13 de novembro de 2018 | 06h00

Em setembro, depois que o Facebook revelou que dezenas de milhares das contas de seus usuários tinham sido expostas numa falha de segurança, comecei a fazer a pessoas ligadas à indústria da tecnologia uma pergunta simples: será que Mark Zuckerberg ainda deveria estar no comando do Facebook?

Praticamente todos responderam que Zuckerberg ainda era o homem certo para o trabalho, ou até o único capaz de fazê-lo. Entre eles havia pessoas que trabalham atualmente no Facebook, pessoas que trabalhavam no Facebook, analistas financeiros, investidores, ativistas céticos em relação à tecnologia, ferrenhos críticos da empresa e alguns de seus mais entusiasmados defensores.

O consenso dizia mais ou menos o seguinte: mesmo com Zuckerberg - enquanto fundador, diretor executivo, presidente e acionista mais poderoso do Facebook - arcando com a maior parte da responsabilidade pela cataclísmica história recente da empresa, ele seria o único com estatura suficiente para consertá-la.

O fato de poucos serem capazes de imaginar um Facebook sem Zuckerberg, 34 anos, sublinha o quanto se tornou difícil fazer com que nossas maiores empresas de tecnologia respondam por seus atos. Sem ter sido eleito para nenhum cargo, Zuckerberg é agora uma das pessoas mais poderosas do mundo. O Facebook toma decisões que resultam em imensas consequências para a sociedade - e ele lucrou bastante com o caos resultante.

Mas, por causa da estrutura de propriedade do Facebook - na qual as ações de Zuckerberg têm 10 vezes mais peso que as ações comuns -, ele se vê numa situação de virtual onipotência, sem responder a ninguém.

Isso se encaixa num padrão. Ao longo das duas décadas mais recentes, as maiores empresas de tecnologia criaram um sistema no qual os executivos sofrem poucas consequências pessoais ou financeiras decorrentes de seus erros. As grandes empresas de tecnologia transformaram seus fundadores em acessórios - quando as empresas vão bem, eles recebem todo o crédito, e quando vão mal, eles são os únicos heróis capazes de consertá-las.

Zuckerberg se tornou grande demais para fracassar.

Além da falha de segurança, o Facebook foi implicado num colapso global da democracia, incluindo seu papel de vetor da campanha russa de desinformação durante a eleição presidencial americana de 2016.

Investigadores das Nações Unidas disseram que o Facebook foi instrumental para o genocídio em Myanmar; a rede social também foi ligada à violência na Índia, Sudão do Sul e Sri Lanka. Tivemos escândalos de privacidade, escândalos de publicidade, múltiplos inquéritos em andamento nos Estados Unidos, e o reconhecimento do efeito nocivo do uso do Facebook para a saúde mental.

Embora Zuckerberg tenha prometido repetidas vezes consertar o Facebook, os consertos da empresa frequentemente exigem novos reparos. Na última semana de outubro, repórteres mostraram que a recente jogada da empresa para reprimir os anúncios políticos não tinha funcionado - a Vice News comprou anúncios no Facebook alegando falsamente que tinham sido “pagos" pelo vice-presidente dos EUA, Mike Pence, e pelo Estado Islâmico.

Zuckerberg disse que consertar o Facebook seria seu desafio pessoal para 2018.

Pensemos na promessa de que um novo dispositivo de entretenimento para o lar, chamado Portal e anunciado em outubro, não coletaria informações dos usuários que possa ser usada em anúncios. Foi necessário desfazer a promessa, pois o sistema de coleta de dados do Facebook é tão onipresente que nem mesmo os funcionários da empresa parecem compreendê-lo totalmente.

“Me parece que ele falhou claramente nos dois anos mais recentes, e o motivo desse fracasso é o fato de ele não responder por seus atos", disse Sandy Parakilas, ex-funcionária do Facebook que agora trabalha como estrategista-chefe de tecnologia para a organização ativista Center of Humane Technology. “Levando em consideração um cenário em que os demais acionistas e membros do conselho fossem mais influentes, é difícil imaginar que as mudanças não ocorreriam mais rapidamente.”

Uma solução pode ser conferir ao conselho mais poder sobre a empresa. A firma de investimentos Trillium Asset Management apresentou recentemente uma resolução de acionistas defendida por vários fundos estatais exigindo que Zuckerberg deixe a presidência do Facebook.

“Me parece que, ao adotarmos a medida de tirá-lo da presidência do conselho, teríamos uma importante mudança estrutural, impedindo que ele tivesse liberdade de ignorar as decisões dos outros e fazer valer sua posição", disse Jonas Kron, executivo da Trillium.

Um porta-voz do Facebook disse que a empresa ainda não tinha se posicionado a respeito da resolução.

O que nos traz ao momento atual: se Zuckerberg não puder consertar o Facebook, ninguém mais poderá fazê-lo. Essa é a escolha que temos diante de nós, quer gostemos dela ou não.

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