Andrew Urwin / The New York Times
Andrew Urwin / The New York Times

Como o Brexit afeta o mundo dos negócios? 

Se Grã-Bretanha sair dos mercados europeus, perderá benefícios de acordos comerciais do bloco. Enquanto isso, Japão e Europa estão liberalizando o comércio entre si

Peter S. Goodman, The New York Times

15 de abril de 2019 | 06h00

LONDRES - No campo político, ninguém sabe como o Brexit acabará. Mas para muitos do mundo dos negócios, a saída da Grã-Bretanha da União Europeia já aconteceu efetivamente. Cerca de três anos de incertezas, desde o referendo de junho de 2016, obrigaram as companhias a se planejarem para o pior. A estrada tortuosa do Brexit desencorajou investimentos e afetou a reputação da nação outrora tida como um paraíso para os negócios. 

Bancos globais e outras companhias de serviços financeiros estão transferindo milhares de empregos e mais de US$ 1 trilhão de ativos para cidades europeias a fim de garantir o atendimento dos clientes do outro lado do Canal da Mancha, independentemente das regras que as agências reguladoras nacionais decidirem impor depois do Brexit. A indústria automotiva japonesa abandonou seus planos de expansão na Grã-Bretanha, em parte porque o Brexit mina as virtudes do país como centro do comercio europeu. O que quer que possa acontecer depois, empregos e dinheiro dificilmente voltarão.

“As multinacionais vieram para cá com a firme convicção de que a Grã-Bretanha oferecia um lugar estável para os seus negócios e em troca isto lhes abriria as portas de acesso à União Europeia”, disse Peter Dixon, economista do Commerzbank AG, em Londres. “A sensação de que a Grã-Bretanha é um ambiente perfeito para os negócios foi destruída. Está sendo um golpe para a credibilidade”.

Desde os anos 80, as companhias  automotivas japonesas vinham investindo em fábricas na Grã-Bretanha, explorando o acesso à Europa com isenção de taxas. Mas a Nissan havia alertado que a saída da União Europeia poderia obrigar a companhia a reavaliar seus planos referentes à fábrica em Sunderland, no norte da Inglaterra.

Meses depois da votação, a primeira- ministra Theresa May ofereceu à Nissan promessas que conquistaram a confiança da companhia. Mas em fevereiro, ela concluiu que desistiria de construir um novo carro esportivo utilitário em Sunderland. Mais ou menos ao mesmo tempo, a Honda anunciou que fecharia uma fábrica no sudoeste da Inglaterra, na cidade de Swindon, eliminando 3.500 empregos.

A decisão da companhia foi motivada em parte por um acordo comercial que o Japão concluiu no ano passado com a União Europeia. O acordo eliminará a necessidade de uma fábrica na Grã-Bretanha, porque a Honda agora pode mandar os veículos fabricados no Japão diretamente para a Europa sem incorrer no pagamento de taxas. Se a Grã-Bretanha sair dos mercados europeus, perderá os benefícios  dos acordos comerciais do bloco. Enquanto Japão e Europa estão liberalizando o comércio entre si, a Grã-Bretanha trabalha para impedir o comércio com ambos os países.

Na avaliação de economistas, a economia britânica hoje é 1 a 2,5% menor do que seria sem a votação do Brexit. Grande parte do prejuízo decorre da queda da libra esterlina, que desde a votação perdeu mais de 10% do seu valor em relação ao dólar. A  desvalorização da libra está ligada à obstrução do intercâmbio.

A Grã-Bretanha vende cerca da metade das suas exportações para a União Europeia. Considerando que a GB importa mais do que exporta, a desvalorização provocou uma alta dos preços de uma grande variedade de bens. A inflação pesou fundamentalmente para as rendas médias das famílias permanecerem inalteradas no ano passado, segundo uma análise.

Na GB, os investimentos em negócios deverão cair 1% este ano, indicando o desempenho mais fraco desde a crise financeira global, há dez anos, mostra a Câmara de Comércio Britânica. Por mais de 30 anos, Londres atraiu bancos globais, operações comerciais, fundos de cobertura, gestores de ativos e fundos soberanos do Oriente Médio e da Ásia. A cidade  tornou-se um centro global da finança, enquanto a indústria empregava mais de um milhão de pessoas na Grã-Bretanha.

O Brexit forçou as companhias que atendiam clientes europeus a sair de Londres e a transferir os empregos para operar em cidades como Amsterdã, Dublin e Frankfurt. Mais de 275 companhias preparam-se para sair ou já transferiram divisões de negócios, funcionários e entidades jurídicas da Grã-Bretanha para o Continente, afirma a New Financial, uma empresa de pesquisas de Londres.

Mesmo que políticos concluam um acordo ou desistam dele, o dano provocado à aura da GB por sua governança prudente provavelmente não desaparecerá. Todo o caos gerado pelo Brexit, afirmou William Wright, um dos fundadores da New Financial, “comprometeu profundamente a reputação do Reino Unido, antes considerado um lugar pragmático que primava pelo bom senso nos negócios. Isto agora acabou. Talvez leve muito tempo para que tudo isso possa ser recuperado”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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